Memórias/Memorialistas (XXVI)

O antropólogo Claude Levy-Strauss detestou a Baía/de Guanabara:/Pareceu-lhe uma boca banguela./E eu menos a conhecera mais a amara?/Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela /O que é uma coisa bela?

(Caetano Veloso)

É das músicas que, de par com a mastigação das palavras, todo mundo deveria ouvir, pelo menos uma vez por dia, antes de enfrentar o noticiário sobre as últimas manobras solertes da oposição e o desvario oficioso  e oficial no que “estão dizendo aquele cara e aquela.”

Na audiência e na leitura, iríamos (aqui, sim) dar o abraçaço e sentir a empolgação antropológica.

De mistura com uma atriz, cuja horário de volta já sabemos, a embalar a filha que também vai residir na casa grande da patroa em São Paulo, um cantor inglês universal e índios, muitos índios, o clip (*) esteticamente nos mostra, sem laivos de Nabokov malgrado os seios desnudos, “uma menina ainda adolescente e muito linda”. Ela caminha ao lado de “um velho com cabelos nas narinas” e capotão preto. Nada menos que o rebelde e iconoclasta do mundo das artes cênicas transmutado (downgrade?) em ator, a seguir, estóico, os comandos do chefe do filmete: concatenação, altivez e firmeza nos passos pela areia fofa da praia da segunda divisão e tudo, aí mais um paradoxo, sem afetar cara de paisagem.

Corta.

O diretor do vídeo amplifica seus domínios e poderes e determina que eu retorne àquele sociólogo pernambucano afeito à antropologia, ainda sem sobrenome completo, que andara pela Câmara Federal numa época dignificante para todos e todas que labutavam elaborando leis.

Obediente, de igual maneira ao ancião da praia, arremato a matéria postada no primeiro dia deste mês da primavera(Memórias/Memorialistas XXV).

“(…) aproveito aqui o ensejo para deixar o meu depoimento sôbre Gilberto Freyre, como deputado. Antes de entrar na matéria, porém, devo acentuar que nada do que escrevi ou venha a escrever sôbre Gilberto Freyre pode representar falha na antiga estima que dedico ao homem e respeito que devoto ao escritor. Apesar das reservas que se possam fazer à sua obra, a verdade é que ela representa o maior esfôrço individual já feito no sentido de interpretação histórica e social do Brasil. Sua obra de análise histórico-social (insisto na junção dos dois fâtores) é muito superior.”

Espraia-se a nobreza do homem público que foi Afonso Arinos de Melo Franco. Desassossegado perante a atividade política e parlamentar de Gilberto Freyre, o memorialista mineiro entretanto não se furta em dirigir encômios a quem desenhara no recesso da sociologia, com sinais poéticos, a casa grande e a senzala:

“Ninguém captou, como êle, o significado mais íntimo da nossa formação social. O campo espiritual, porém, lhe é estranho: o literário, pouco frequentado, e o político (no sentido jurídico e institucional), surpreendentemente mal concebido nos seus escritos. A falta de estudos jurídicos e de experiência política (Gilberto faz praça de desprezar uns e outra) tornam-no pouco apto ao julgamento das nossas instituições, o que não pode deixar de se ver refletido na sua vida pública. O que me deixa perplexo, diante da obra de Gilberto Freyre é exatamente o chocante contraste entre a inventiva justa e penetrante e abrangente que êle revela na análise da formação histórico-social brasileira, e as suposições extremamente discutíveis que arrisca na observação do fato político institucional contemporâneo. Aliás só a contragosto Gilberto ensaia análises do tempo presente. (…) Despreparo e inadaptação que o desarmam para o julgamento e a compreensão dos acontecimentos do seu tempo. Não quero dizer que êle seja um homem do passado. Um sociólogo da História do seu quilate é sempre atual. O que digo é que lhe faltam os instrumentos para aferição do presente. Atualíssimo falando do passado, inatual observando o presente. Talvez a falta de experiência política (que é diferente da sociológica) o leve a teorizar sôbre o presente, em vez de interpretá-lo, como fez com o passado. E essa teorização é que o afastaria da realidade.”

http://photos1.blogger.com/blogger/3809/2647/1600/freyre.jpg
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Eis o quarteto de luminares – haja vista que eu agreguei à dupla de crítico e criticado o antropólogo francês e o compositor brasileiro/baiano.

Pelo meu turno, olho para trás mas não sei de nada.

(*) https://www.youtube.com/watch?v=faPc0Uxa3F4&feature=youtu.be&list=RDfaPc0Uxa3F4

 

28 de setembro de 2015

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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