Memórias/Memorialistas (XXXVI)

Até nesses momentos anormais se vê a organização do país, muito distanciado da anarquia mental dos povos jovens das terras novas.”

Não há dúvida de que o comentário acima, feito pelo Paulo Duarte no volume 2 (A inteligência da fome) de que nos ocupamos, trai fascínio e admiração pelos modos e costumes do povo francês diante de temas públicos veiculados e debatidos nos anos de 1930. Revela por outra parte preconceito com as nações sem tradição na abordagem dos assuntos de orçamento. Por tudo que aduzido na magistral obra de oito volumes do arqueólogo de São Paulo e objeto deste tópico saudosista de nosso blog, intuo que a referência crítica se dirige aos países da América do Sul, notadamente o Brasil.

Vejamos, no sentir do memorialista, a sequência dos acontecimentos políticos referentes à votação da lei orçamentária na capital parisiense daquela época.

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“(…) entrementes, o sr. Dalladier formava o novo gabinete e, legalmente, ordeiramente, o projeto entra na ordem do dia da Câmara, precedido de um discurso do novo chefe que assim sintetizava bem a firmeza da organização democrática da França.

“(…) Pouco tempo depois o projeto é aprovado pela Câmara, com modificações aliviadoras do contribuinte. As pensões de guerra relativamente respeitadas e as despesas ministeriais restringidas. Mas o corte nas diversas verbas ministeriais provocaria o corte nos vencimentos do funcionalismo público.”

Na casa do povo, o projeto ia razoavelmente bem ao ver dos cidadãos. Quando chegou à câmara alta…

“(…) ao subir o projeto para o Senado, levava ainda o contra os contribuintes não satisfeitos com o favor alcançado, pequeno demais para distraí-lo dos pesados encargos da arrecadação; o sentimento patriótico ainda agitado.

(…) De novo os cartazes e as agitações políticas. Intensificação das campanhas da imprensa. Novamente as assembléias partidárias e de classe. Outra vez as grandes reuniões na sala Wagran. Ainda mais manifestações de protesto, como o fechamento do comércio por um dia, a parada dos diversos serviços públicos por uma hora, alguns, e, por dez minutos, os essenciais à vida da cidade, como o Metrô e outros.”

E o escritor vai nos encantando com seu domínio dos fatos (nada a ver com a teoria jurídica nem tão nova assim, recém endossada por nossos tribunais superiores). Desvela a trajetória, o itinerário dos inconformados:

“(…) Antes de qualquer manifestação, o cortejo sobe lentamente a avenida dos Campos Elísios, entra pelo Arco do Triunfo e aí, em silêncio, deposita uma coroa de flores sobre o túmulo do soldado desconhecido. Desce depois a Avenida Wagran, invade a enorme sala deste nome, onde, então, a massa discute, resolve, briga, agride-se, o diabo… A polícia, sempre presente, mas alheia a tudo, só intervém nestes instantes violentos: separa os contendores ou prende os agressores, quando as questões assumem caráter mais sério, retirando-se depois os flics placidamente  para, de seu canto, cofiando os bigodões tradicionais, continuarem a ouvir as descomposturas contra o governo. Quando as resoluções tomadas são de gravidade, como a da paralização de todos os serviços públicos, a greve é resolvida de maneira a não prejudicar a vida normal da cidade. Por isso, as casas de moda, perfumarias etc. fecham por um dia; os cafés, os restaurantes, o comércio de tabaco cerram suas portas por uma hora e o Metrô não circula apenas durante dez minutos. O fito do movimento não é a desordem, é um protesto eloqüente da opinião pública, sempre ouvida e acatada, e, principalmente, respeitada nesta terra.”

Como se desenvolveu a discussão da matéria no Senado? Basta prestarmos atenção nesta parte do relato do escritor travestido de repórter. E o curioso é que, ao transcrever falas das autoridades, ele dá uma pancada no Brasil daquela época (anos de 1930).

De lá pra cá, mudou muita coisa em nossos arrabaldes?

“(…) Nesse ambiente, o Senado iniciou a discussão do projeto, O governo, pela voz do chefe do gabinete, aplaudidíssimo pela unanimidade dos representantes, frisa bem a sua orientação, e mostra o maior acatamento às manifestações, não poucas vezes seguidas nas suas exigências, no entanto, declara serenamente que não se submete a ameaças descabidas ou apaixonadas.

(…) O sr. Caillaux, economista, marcante figura política, a que mais, talvez, tenha afrontado procelas na sua vida pública e particular, possivelmente a carreira pública mais agitada da França, lança da tribuna do Senado estas palavras que se podem bem aplicar ao Brasil e a qualquer país nas mesmas condições:

 ‘Hoje, qual a causa do deficit? A causa é a mais grave que poderia ser, é o abuso nas despesas, o abuso instalado de todos os lados’. ‘Os males que sofremos vêm da fraqueza dos governos e da fraqueza de nós mesmos. Temos todos cedido à facilidade. Todos, mais ou menos admitimos direitos, aos quais deveríamos barrar o caminho’. ‘Não existe mais contabilidade orçamentária’. ‘É preciso que se a refaça a fim de que o contribuinte francês saiba, como todo acionista de grande sociedade sabe, qual é a situação da firma França’. ‘Costumes orçamentários deploráveis instalaram-se no país. Nada se pode fazer para reprimi-los, enquanto não houver caráter.’”

 Nosso blog fecha o assunto reproduzindo uma passagem que reitera a sabedoria dos franceses para resolver seus graves problemas institucionais, nada de golpes, quarteladas, destituição de presidente e quejandos:

“(…) E assim a crise atinge o seu cúmulo. Agora, em meio dela, a pergunta natural:

– Qual o fim da crise? Uma ditadura para a França, como preconizam alguns e até cartazes anunciavam? Uma revolução, como outros opinam, a até referidos cartazes?

(…) Nada disso. No máximo, dois ou três gabinetes ao chão, a maneira por que sempre os franceses resolvem as suas grandes crises, por mais sérias sejam elas…”

 

23 de fevereiro de 2016

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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