Empoderamento pela solidão

Tomara/Que você volte depressa/Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho/E chore, se arrependa/E pense muito/
Que é melhor se sofrer junto/Que viver feliz sozinho.

(Vinicius de Moraes)

Nelson Mandela teria afirmado que um dos piores castigos infligidos a alguém é a solidão, é a falta de contato humano. Não vou pesquisar em que circunstâncias o estadista prestou tal declaração, nem se o que o movera foram os sufocantes anos de cárcere durante a ignomínia do apartheid. Me inclino diante da força dessas palavras.

De outro lado, pondero que passar boa parte do dia só, sem ninguém, isolado, distante do burburinho, não é tão ruim assim, até para desenvolver com algum proveito determinadas atividades, como ler, meditar, escrever, compor, ensaiar. Digno de nota, as mulheres têm efetivamente assumido esse protagonismo de defesa da solidão como modus vivendi salutar e confortante.

Os textos que vou pinçar são públicos, compartilho-os com vocês sem nenhuma ironia, o assunto é sério. Trata-se de desabafos lançados (o verbo é pertinente) por duas mulheres corajosas. A primeira, Seira Beira, nos revela que

“Ando só. Muito mesmo. E gosto. Vivo causando mal-estar e espanto por isso. Já flagrei muitos olhos se incomodando com meu conforto em mim mesma numa mesa de bar, karaokê, sarau, onde comumente vivo lá minha alternativa com resignação, sem chorumelas, inseguranças ou pânicos. Não sei se a explicação é cultural, mas sempre tem um ou outro que acha que necessito de sua companhia para saciar o dia, para que então faça sentido o meu estar no mundo, que esta aproximação seja a finalidade por eu ter saído de casa para expor meu corpo num espaço público. Não, eu não espero sua caridade de interação. Aliás, muitas vezes, sinto um tédio e um pessimismo quando alguém me vê só e me convida para o gregarismo. Sempre tô desconfiando dos intentos, do subjacente, das entrelinhas, das vantagens veladas. E se você não viesse? E se você não existisse? Simplesmente caibo no meu mundo interior e sou sensível e irritadiça a ponto de me cansar logo com rodeios e algaravias de estranhos em volta dos meus ombros e ouvidos.”

Vê-se que ela não está brincando. A aparente paranoia pela desconfiança com terceiros aponta, antes, que Seira Beira é resolvida e decidida, apresenta-se como pessoa autossuficiente. Falo isso e evoco as atitudes e os postulados noutra direção defendidos lamentavelmente por significativa parcela de homens da minha geração, para os quais mulher desacompanhada na noite é sinal de que saíra aventureiramente à caça (De noite, eu rondo a cidade, A te procurar, sem encontrar) ou então o sereno é testemunha do desalento de uma irrecuperável encalhada.

E a carga contra os “padrões normais” de comportamento vigentes há muito não atenua. Ao contrário, intensifica-se.

“Detesto partidos, comunidades, espíritos de corpo. Detesto líderes e seu curral, pastor e suas ovelhas. Sou eu o meu líder e minha ovelha. Acumulo funções na liberdade e no estranhamento.

“Ando só, mas não mexe comigo, porque tem meu bando do invisível.”

            Se acham a dosagem baixa, atentem para este último trecho da postagem que me foi presente, consignando meu alívio por eu não haver participado do ciclo de amizades do marido de Seira Beira:

“Quando eu era casada, frequentava as rodas sociais dos amigos do meu ex-marido. Uma tortura que custou mais de 10 anos de minha vida. Eu era vista como tapada, arrogante ou fútil, porque mal abria a boca. Quando não me interessa, não abro a boca mesmo. Fico a escrever freneticamente no silêncio, com meus olhos de observação. Tanto é que essa gente nunca veio me perguntar como fiquei no barco à deriva do divórcio, mas gostavam de me chamar de amiga no facebook. Nunca fui amiga deles. Nunca. O que vale é o aval do meu coração, não o post do facebook. Não me pergunte do meu barco à deriva. É a maior honestidade que podem me destinar depois de 10 anos de tortura.

“Acaso estejamos juntos, rindo e conversando num partilhamento prazeroso, saiba que é porque estar contigo está sendo tão bom quanto estar comigo. Celebro nosso encontro, mas não o mendigo. Então, fica combinado: estou contigo porque estou também. Quando você se for, fico eu aqui. E fico bem.”

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Na mesma singradura, pretendo logo em seguida trazer à luz firmes posições externadas pela outra mulher, independente e não menos convicta do acerto de suas escolhas soberanas.

06/09/2016

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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