Memórias/Memorialistas LXII

Já contei neste blog. Colega meu de UnB largou a bonita esposa para viver (morar, casar de novo) com a mãe dela, mulher um pouco menos jovem e tão bela quanto a filha preterida. O ano era 1973 (ou 1974) e o Don Juan do Departamento de Direito (ainda não era Faculdade), tornado padrasto da ex-cônjuge, antecipara a vigência da Lei do Divórcio, sancionada em 26 de dezembro de 1977, coroando batalha secular travada contra tudo e contra todos (a favor de todas?) pelo senador baiano Nelson Carneiro, que, por consequência, vira merecidamente o diploma legal ser batizado com seu nome.

Nos dias de hoje essa transversalidade amorosa na família constitui hábito corriqueiro, novelinhas das sete abordam o tema sem cerimônia nenhuma mas àquela época o baque disso foi considerável, inclusive no nosso ambiente acadêmico.

Imaginem vocês historinha de enredo assemelhado acontecendo nos primórdios do Século XX? De novo, portanto, retornamos ao “Solo de Clarineta”, vol. 1, do célebre Érico Veríssimo.

De um certo prisma, o Sebastião Veríssimo, figurante destacado de nossas duas recentes postagens e patriarca da Casa Grande, transpunha louco de tesão a ponte para a Senzala, sem saber que suas cordelianas investidas sexuais eram testemunhadas no outro canto do rinque de abate pelo filho Érico, tomado de paixão platônica consoante sua narrativa.

“(…) No momento exato em que escrevo estas linhas, uma figura se traça nítida na minha memória. Cordélia. Era uma das costureiras da minha mãe. Eu ainda não conhecia mulher. Teria quando muito quatorze anos e sofria todas as frustrações dessa idade: voz epicena, postura desajeitada, timidez desconfiada, ignorância supersticiosa, principalmente em matéria de sexo… Nos seus dezessete ou dezoito anos Cordélia era já uma mulher feita, e muito bem feita! Eu sentia por ela uma poderosa atração física. A pele da cabocla era desse moreno enxuto e parelho das chinesas. Tinha uns olhos graúdos, lustrosos e negros como os cabelos lisos, e um sorriso suave e limpo a animar-lhe o rosto oval, de feições delicadas. Costumava brincar comigo, mas sem coquetismo nem provocação. Eu sentia que para ela eu era apenas um ‘guri’.”

O relato evolui na mesma pegada(epa), minucioso e sincero, o estado d’alma, a aflição do corpo juvenil, num paradoxo a proximidade espacial mantinha intocado o menino, a léguas de distância da conjunção carnal, Cordélia desconectada, empatia zero.

“Percebi um dia que meu pai começava a assediá-la. Aconteceu que, duma feita, por alguma razão, a morena teve de passar a noite em nossa casa, deitada num colchão estendido no soalho, na sala de costura, por onde o Velho costumava entrar, de volta de suas andanças noturnas. O simples fato de saber que Cordélia se encontrava a poucos passos de meu quarto, de minha cama, punha-me o sangue a ferver, excitava-me e ao mesmo tempo me deixava antecipadamente frustrado, pois eu sabia que minha timidez não me permitiria ir até onde a rapariga dormia. Armei todas as arapucas imagináveis para prender o sono. Inútil. O sangue pulsava-me nas têmporas e em outros lugares menos nobres da minha anatomia.”

Entra em cena o Tião exterminador, ainda sem contenções, rival do mesmo sangue, para empanar inconscientemente a madrugada do filho recém ingressado na adolescência.

“De súbito ouvi um ruído na porta de entrada. Devia ser meu pai que punha a chave na fechadura… Meu pulso rompeu a correr como um potro assustado. O Velho ia passar perto do colchão onde Cordélia dormia. Ouvi a porta abrir-se e fechar-se. Meu coração, cronômetro desregulado, determinou o tempo que o Velho devia levar para chegar à sua própria cama. Bastava-lhe dar uns quinze passos… Passavam-se os segundos. Meu companheiro de quarto não aparecia. Compreendi tudo. Tinha visto Cordélia a seus pés, ao alcance de suas mãos. Comecei a ouvir vozes cochichadas. Senti que a cabocla despertava sobressaltada. Daí por diante só me chegavam aos ouvidos os sussurros dele. Imaginei-o ajoelhado ao pé do colchão, já a apalpar o corpo da rapariga. Era a ‘cantata’ que começava. Ela dizia não. Ele insistia. Ela tornava a negar-se. Eu estava sentado na cama e já não sabia mais se queria que a mulher que eu tanto cobiçava, continuasse resistindo ao ataque sebastianesco ou se preferia que meu pai a possuísse para que eu pudesse gozar o corpo de Cordélia por procuração. O tempo passava. Cordélia defendia-se. Cheguei a ouvir meu Velho dizer, distintamente: ‘Por quê? Não faz mal nenhum. É só um pouquinho…’ Eu agora estava deitado de bruços, apertando o sexo túrgido contra o colchão e respirando irregularmente. Houve um momento em que o não da cabocla foi quase um grito. Fez-se em seguida um silêncio. Ouvi passadas leves de ladrão na peça contígua. Em menos de meio minuto meu pai entrou no nosso quarto, acendeu a luz e começou a despir-se. Fingi que dormia. Doía-me a cabeça, o corpo inteiro. O Velho deitou-se. Em breve o veterano de tantas guerras e escaramuças eróticas ressonava tranqüilo. Só consegui dormir ao raiar do dia.”

Havia que deixar o texto fluir, sem presunções minhas de interromper, não me era cabível interpor quaisquer comentários e observações. Agora, em que me reapresento, antecipo os capítulos seguintes do folhetim – nossa heroína saiu inviolada.

“Nenhum de nós dois conquistou Cordélia. Ela continuou a trabalhar serenamente em nossa casa. Um ano mais tarde casou-se com um craque de futebol local. Levou-lhe intacta a sua virgindade, pois do contrário ele a teria devolvido aos pais. (Estávamos em 1920.) Brava Cordélia.”

            Um viva às feministas de todas as eras.

Imagem de abudrian por Pixabay

#UnB
#Solo de clarineta
#Sebastião Veríssimo
#Lei do Divórcio
#Senador Nelson Carneiro

30/09/2019
(303)
mmsmarcos1953@hotmail.com

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *