A trisavó, a trineta e o carteiro

Todas as cartas de amor são ridículas/Não seriam cartas de amor, se não fossem ridículas/
Também escrevi, no meu tempo, cartas de amor como as outras, ridículas/As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas/Quem me dera o tempo em que eu escrevia, sem dar por isso, cartas de amor/ ridículas/Afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.

– Cícero Nunes e Aldo Cabral –

Vi dia desses uma foto estampando destacadas figuras da realeza britânica: a rainha soberana há mais de seis décadas, o príncipe Charles Dirceu Borboleta, o filho dele que não se casou com uma negra americana nem abdicou de nada e, por último, o bisneto mais velho da linhagem. Esses membros de estirpe de sangue azul foram dados à luz na terra que inventou o futebol, cujo campeonato é o mais rico e dos mais qualificados do mundo, com seus cracaços milionários (alguns deles brasileiros) e gramados tapetes persas (epa). Na peleja intercontinental, minha família plebeia brasileira vence de 5 a 4 a da Grã Bretanha, jogo e placar que logo explicarei.

Minha sogra faz noventa anos em abril deste desesperançado 2020; ela é um pouco gordota mas esbanja saúde e lucidez, estando pronta para entrar com galhardia e altivez no ciclo dos amiguinhos e amiguinhas da psicanalista Mirian Goldenberg, fundadora de clube que agremia somente quem já atingiu a belíssima faixa etária de nove décadas, cumprindo-me de conseguinte informar que a carteirinha da mãe da minha companheira está sendo expedida juntamente com a do também quase nonagenário Toni Tornado, filho do comodoro dessa entidade da alegria que já vai deixando pra trás seus 108 anos de idade.

Nossa vitória contra os nobres ingleses (quatro gerações), agora esclareço, ocorrera porque nos apresentáramos noutro retrato com cinco gerações: (1ª) Coralia, minha avó materna; (2ª) Dulcinéa, minha mãe; (3º) eu, Marcos; (4ª) Patricia, minha filha primogênita e (5ª) Aline, minha neta mais velha, atualizando-se a expressão que desde priscas eras meu pai – pelo lado da ascendência dele – se orgulhava de citar a todo momento: “Minha neta, dê cá seu neto.” Mutantis mutandis, ou seja, mudando o que tem de ser mudado, minha avó diria: “Meu neto (eu), dê cá sua neta (Aline)”. Tal situação, incomum, perdurou por mais de um ano.

E toda esta confusa e desarticulada postagem colima expor uma das não poucas facetas carinhosas da mãe da minha mãe.

Numa época em que a internet saía dos cueiros (as redes sociais, insuspeitadas), as cartas em sua larga maioria, tanto as oficiais quanto as particulares, eram trocadas quase que exclusivamente através dos correios, daí a extrema relevância dos carteiros no âmbito daquele sistema operacional de envio/recebimento físico dos envelopes. De ordinário, a sociedade, a daqueles tempos e a de hoje, tem essa categoria profissional na mais alta consideração e reconhecimento, com exceção da mãe da Beatriz, ambas personagens de O carteiro e o poeta, filme baseado na vida do magistral chileno Pablo Neruda:

“- A minha pobre Beatriz está se consumindo toda por esse carteiro. Um homem cujo único capital são os fungos entre os dedos dos pés cansados. Mas se os pés fervem de micróbios, sua boca tem o frescor de uma alface e se enreda como uma alga. E o mais grave, dom Pablo, é que as metáforas para seduzir minha menininha ele copiou descaradamente de seus livros.”

                Em contrapartida, alargando a conexão de praxe, a que une a remetente numa ponta e a destinatária na outra, minha avó pega carona no envelope com a cartinha que dirigia à sua (dela) trineta recém nascida para externar votos de feliz ano novo (1997) ao… carteiro, o amigo de ocasião que, ao receber na central de triagem dos correios a tarefa de entregar o mimo no endereço indicado, irá ler a simpática mensagem ali grifada pela Coralia inusitadamente.

imagens: Marcos Martins

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19/01/2020
(307)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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