Memórias/Memorialistas LXIII

Na velhice, memórias bem guardadas retornam com a vivacidade dos banhos frios. Agora há a fragilidade que faculta fantasias. Como um pôr de sol, vem o sentimento do que foi perdido e não pode ser consertado. A corcunda dos velhos é a mochila dos seus feitos. E, no entanto, só uma longa vida permite descobrir quem merece ou não o nosso amor. Você sente o nojento cheiro do ralo, mas também aspira a fragrância dos amores-perfeitos.
– Roberto Damatta –

            Equivocado é considerar que as postagens deste tópico da saudade voltam no tempo e lá se estratificam, num contexto de parasita; essa comparação, evocativa da cinematográfica Coreia do Sul, já trai contemporaneidade. O voo para épocas remotas não ressignifica os dias de hoje, antes os retrata. Se assim podemos acrescer: exatamente, indefectivelmente.

            Porém, a exegese é trabalhosa e complexa, não é automática. Reporta-se o fato pretérito com a fidedignidade possível de modo a que  as recordações enriqueçam a atualidade, o presente, o qual a sua vez orientará os pósteros na análise e compreensão dos acontecimentos que estarão vivenciando no (para nós) futuro. Em suma, o passado que agora nos ilumina a todos e todas vai se amalgamar ao que ocorre hoje e projetar luzes no devir.

Neste ponto, damos início à nossa empreitada visitando a infância de quem já nos deixou há décadas. Ou melhor, nossa jornada aos pampas gaúchos começara nas Memórias/Memorialistas LX, LXI e LXII, as de nº 300, 302, 303 (aqui, veiculadas no segundo semestre de 2019), chegando a esta quarta, n° 308, na forma consignada no fim desta postagem.

“É sabido que o relógio psicológico da infância anda muito mais devagar que o dos adultos. O calendário das crianças parece feito mais para a eternidade do que para o tempo humano. As horas de aula arrastam-se como tartarugas monótonas. Como custa a chegar, todos os anos, o período de férias de verão! E que vontade de ficarem homens depressa têm os meninos!

“Quando hoje tento lembrar-me de certos episódios e pessoas de meu mundo de criança, não me é nada fácil situá-los no território do passado. Tenho a impressão de que minha vida entre os cinco e os dezoito anos ocupou um espaço de tempo muito mais longo que dos vinte aos sessenta. Afinal de contas, a memória de um velho está cheia de labirintos, de falsos sinais de trânsito, de vácuos e, por assim dizer, de silêncios temporais e espaciais, isso para não falar em miragens…

“Escrever memórias numa ordem rigorosamente cronológica seria uma tarefa difícil, perigosa e possivelmente monótona. De resto, o tempo do calendário e o do relógio pouco e às vezes nada têm a ver com o tempo do nosso espírito.”

Lido isso, a gente se dá conta de que não é fácil escrever, não basta sentar-se, abrir o note (antigamente, era lápis e papel), articular ideias, encadear palavras e logo em seguida tirar a obra do prelo. Não é dessa maneira que a coisa funciona. Não somos gaúchos de Cruz Alta, não nos chamamos Erico Veríssimo, o quarto mosqueteiro que, neste pretensioso e nada lido blog, veio congregar com o destemido paulista Paulo Duarte e com os mineiros geniais Afonso Arinos e Pedro Nava.

“Até hoje um problema da minha infância e adolescência me visita e intriga, embora sem caráter obsessivo. Como, quando e por que meu pai mudou de vida, de comportamento, de gostos, de objetivos? Sei que chegou a Cruz Alta com um diploma de farmacêutico, um moço cheio de esperanças e nobres projetos. Em suma, o compassivo estudante do ginásio de Fitzgerald fizera-se homem. Levando-se em conta a época e a cidade em que vivia, pode-se dizer que era um intelectual. Recebia regularmente e lia L’Illustration e outras revistas francesas. Nenhum dos maiores autores literários do século XIX lhe era de todo desconhecido. Gostava de música, principalmente da lírica. Costumava ler poemas alheios em voz alta para familiares ou amigos. Sabia escrever com clareza, correção e graça. Era um orador espontâneo. Trouxe, por assim dizer, um sopro de espiritualidade para o seu burgo guasca, onde imperava um chefe político atrabiliário, que ele teve a coragem de enfrentar, em nome da liberdade e da dignidade humana. Tudo indicava nele o idealista, o pensador, o homem de sensibilidade apurada. Como se processou a ‘mudança’? Não me consta que houvesse sofrido qualquer desgosto ou desilusão capaz de traumatizá-lo a ponto de fazê-lo concluir que nada na vida valia a pena. Não acredito que essa transformação se tenha operado da noite para o dia. Deve ter havido um processo lento de desintegração.”

         Nas artes em geral – literatura, teatro, cinema -, contam-se aos milhares (a rigor, aos milhões) as histórias e os roteiros tratando de desavenças entre filhos e pais. No caso em foco não há ódio nem raiva, ultraexiste afeto. O magistral escritor Erico Veríssimo, sob a capa de memorialista, prossegue no avanço da dissecação do pai, o Sebastião Veríssimo.

“A primeira coisa que Sebastião Veríssimo perdeu foi o hábito de leitura. Na sua volúpia de generosidade, no desejo, que nunca morreu nele, de ser querido e admirado, pôs-se a dar de presente os livros de sua rica biblioteca a amigos, conhecidos e até desconhecidos. Deixou-se também espoliar por esses eternos abutres de bibliotecas alheias. Os discos se foram pelo mesmo caminho. E Sebastião Veríssimo passou a entregar-se por completo à vida dos sentidos, dos prazeres, principalmente os da mesa e os da cama. Continuou, entretanto, a ser um conviva brilhante e agradável, e a gostar de boas roupas e perfumes. Não tenho elementos para aferir a duração e o ritmo desse processo, pois o adulto não entende – repito – o tempo do menino e vice-versa. Torno a perguntar: qual teria sido a causa da grande mudança? Uma exacerbação insopitável de seu temperamento sensual? A idéia de que devia provar de todos os frutos da carne, num açodamento de quem teme morrer cedo demais? (Seu pai não atingira sequer os sessenta anos.) Teria Sebastião Veríssimo sido derrotado pela mediocridade de sua pequena cidade provinciana? Não creio, pois parece que ele se sentia feliz em Cruz Alta, onde gastou fortunas. Só viajou ao estrangeiro uma única vez. Na companhia de um amigo íntimo visitou Buenos Aires, onde se demorou uma ou duas semanas, se tanto. E que poderiam ter feito na capital da Argentina a não ser caçar belas mulheres e visitar os melhores cabarés e restaurantes?

“Creio que é importante observar que, mesmo nos piores momentos de sua vida, Sebastião Veríssimo nunca perdeu o seu penacho e – para usar duma palavra muito do seu gosto e uso – a sua ‘hombridade’. Nos tempos da decadência, quando já começara a beber imoderadamente, estava, uma noite, sentado a uma mesa no Café Schlapp, rodeado duma dez meias garrafas de cerveja preta, que enxugara sozinho, quando passou pela calçada um conhecido seu que, através duma janela, olhou para ele com uma expressão de repugnância (essa, pelo menos, foi a interpretação de meu pai) e virou-lhe a cara. O Velho ergueu-se, saiu do café em passo acelerado, agarrou o homem pelas costas, obrigou-o a fazer meia volta e aplicou-lhe uma sonora bofetada.”

Pausa. Na retomada, o filme passa a nos mostrar o que acontecia no núcleo feminino. O narrador (edipiano ?), calmo mas preciso, como era de seu feitio, traça as venturas e as desventuras da mãe.

“A todas essas, minha mãe continuava a pedalar a sua Singer, fazendo face, absolutamente sozinha, às despesas da casa. Seus olhos continuavam tristes, seus suspiros contavam todas as mágoas que ela recusava transformar em palavras. Não se imagine, porém, que ela tivesse passado a vida numa permanente atitude de tristeza e infelicidade. De vez em quando essa fechada ostra, de concha tão rudemente batida pelas ondas daqueles mares, abria-se numa bela, rara pérola de humor. D. Bega cultivava uma ironia mansa e seca de serrana, e sabia como poucos apanhar os traços caricaturais duma pessoa, reduzindo-os a três ou quatro palavras.

“Graças ao dinheiro que ela ganhou com seu trabalho de modista, foi-me possível passar três anos como interno num colégio em Porto Alegre.

“Sempre me doeu vê-la trabalhar tanto. Com a cabeça eu compreendia que, em toda aquela situação familiar, eu devia estar incondicionalmente ao lado dela. Nem por isso, porém, minha atração e afeição pelo meu pai diminuíam. Eu sentia por ele algo que a palavra inglesa awe quase exprime bem. (Espero não estar sendo pedante.) Awe é um medo reverente. Mas no meu caso, além de temor e reverência, havia ainda amor. E por sentir tudo isso com relação a meu pai, eu me julgava culpado duma inominável injustiça para com minha mãe.”

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À guisa de desfecho desta postagem, mas antecipando que jamais iremos largar o Erico Veríssimo, volvamos ao Sebastião.

“Acredito que Sebasião Veríssimo tivesse seus momentos de remorso e dúvida. Mas não duravam. Ele se contentava com a simples verbalização de seus propósitos de ‘regeneração’. Com relação à farmácia, portava-se como se ela fosse a galinha-dos-ovos-de-ouro. Parecia que jamais lhe passava pela cabeça a idéia de que, ao cabo de certo prazo, tinha de pagar nos bancos as duplicatas emitidas pelas drogarias de Porto Alegre que lhe forneciam os medicamentos que se alinhavam, cada vez mais escassos, nas prateleiras da botica, e que ele (o negrito é do original. Falha na edição? Marcos), Sebastião, com a colaboração do bom Miguel, distribuía gratuitamente entre os pobres ou vendia a crédito a parentes e amigos que, em sua maioria, nunca pagavam suas contas.

“Todos os dias, após o jantar, Sebastião Veríssimo vestia uma de suas melhores roupas, perfumava-se, punha na cintura seu revólver nacarado, acionava a manivela da caixa registradora, arrebanhava todas as cédulas que suas gavetas continham, atufava-as nos bolsos, sem conta-las, e lá se ia, faceiro, para viver e gozar mais uma noite de sua vida.

“Quando alguma agência bancária local lhe comunicava que uma das duplicatas aceitas por ele estava vencida, entrava em cena o Dr. Franklin para socorrer financeiramente o seu filho mimado e evitar o protesto do título. Foi depois da morte de meu avô paterno que se acelerou a derrocada da Farmácia Brasileira.”

19/02/2020
(308)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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