Seu Francisco

Nossos momentos felizes de 2019 ainda estão lá, e os de 2020 já estão lá: o ano novo já é ano velho, e o ano velho ainda é ano novo.
Henrique Gomes

Inegável o aturdimento de todo o mundo com o coronavirus.

No final do ano corrente (corrente de perdas, corrente de solidariedade), no ensejo da votação da palavra mais dita em 2020, iremos liminarmente excluir a coroa latina do certame pois que desde já vencedora mesmo faltantes cerca de duzentos e setenta dias para ingresso em 2021.

Em compensação, a destroçante palavra deveria ser considerada hors-concours, prosseguindo-se a disputa apenas para proclamar campeã a que até então amargava a vice-liderança (cadê o meu Vascão?).

A fantasia real, rainha concreta do nosso dia-a-dia, gerou imperativos procedimentos de prevenção, divulgados maciçamente pela imprensa e pelas redes sociais. Quase ninguém mais (ideal se não houvesse exceção) julga ser despiciendo o isolamento, o evitar a concentração de pessoas. A saída de casa, em estágio de recomendação no Brasil, passou em alguns países a caracterizar delito suscetível de apenamento.

Me encontro na flor dos meus sessenta e sete aninhos, e a despeito dessa juventude me enquadraram no grupo de risco. Paulatinamente, brasileiro demora pra pegar, fui me enquadrando em todos os ditames: me enfurnei em casa; quando excepcionalmente saio, evito aglomerações; minhas bikes, uma Blitz dobrável e uma Giant com trinta anos de belos serviços prestados, foram abandonadas nos ganchos do  bicicletário do meu prédio (aliás, nos anos sessenta e setenta eu cortava os ventos do cerrado na minha Caloi 66; nos oitenta, meu transporte, uma Caloi 10).

Parei de andar de baú e de metrô (sei que infelizmente o povão não tem como fazer isso). Apreensivo mas atento, não deixo de anotar as recomendações de infectologistas espalhados pelo Brasil e pelo exterior. Como disse o ótimo cronista Paulo Pestana, do Correio Braziliense, “Não fiz as contas direito mas acho que todos os médicos do planeta, e a maioria dos paramédicos, gravaram um videozinho para o zap.

Keila, minha mulher (expressão machista; pior é “minha patroa”), estava com problemas musculares que a impossibilitavam de dirigir veículo, daí eu a ter levado ao trabalho dela, Creas – Secretaria de Desenvolvimento Social do DF. Já ia saindo de lá quando vejo no estacionamento da sede do órgão um velhinho num andador, velocidade menor que a das tartarugas do Tamar na desova. Observei que ele claudicava rumo à L2 Sul e, não sei por qual motivo (invasão de privacidade), resolvi filmá-lo.

Passados alguns minutos do “micro metragem”, ligo o carro, depositando antes o celular (arma do crime) no banco. Ao transpor o portão de saída do pátio, me deparo com o ancião na calçada, suarento, trôpego, olhando para o nada, o que não o impedira de me pedir carona como se, além dele, eu fosse o único habitante da cidade.

Gelei. E agora, o que fazer? Conduzi-lo ou me fechar em copas? (A propósito, comprei um baralho para esses dias de confinamento e, logo na primeira partida do jogo de Buraco, de três mil pontos, a pessoa cujo nome começa com “K”, acima referida, me aplicou degradante sova – para se ter ideia, no momento em que, já falando alemão, ela ultrapassou em muito os três mil pontos finais da partida, eu ainda nas aulinhas de inglês patinando nos mil e quinhentos pontos.)

Era somente engatar uma primeira e partir dali com um pouco de culpa e… vida (e carro) que segue. Deu não, minha consciência cobrou a fatura. Afinado com os novíssimos tempos, parei o veículo e acolhi (termo apropriadíssimo) o carona, que, por mais eu apelasse, não quis ir no banco traseiro. Já na quarta para a quinta marcha e para evitar contágio, soltei assim como quem não quer nada o alerta de não ser recomendável nós, eu e ele, nos falarmos. Péssima ideia. Todo velho é teimoso. Com a autoridade dos oitenta anos, seu Francisco (é dando que se recebe) veio a lume e desandou (termo apropriadíssimo) a conversar. Aduziu que o vírus não o pegaria nunca pois Deus estava com ele (não adiantava eu dizer que comigo não necessariamente) e a sua (dele) saúde estava bombando (sem maldade, acreditem, pensei numa bomba de oxigênio).

A viagem compartilhada, sem balinha, janelas todas escancaradas, era para a Super Quadra Sul 411, portanto distante a quatro quadras do nosso ponto de partida. Mas no trajeto seu Francisco desistira de ir para o bloco dele (D, de Deus, como fez questão de complementar relembrando sua convivência permanente com o Todo Poderoso) optando por ficar numa determinada loja do comércio local. Não considerei cá comigo boa escolha mas quem conseguiria demovê-lo disso?

Parei então o carro fazendo segunda fila na vaga vazia de deficiente e me lancei à tarefa de ajudar no desembarque do meu carona (termo com sonoridade que agora assusta). Foi custoso, ele não conseguia tirar a perna esquerda de dentro do veículo, quedou engatado. Havia que libertá-lo da armadilha. Tentei fazer isso puxando-lhe os braços magros e sem viço. O homem (sergipano? alagoano? do Ceará?) de conseguinte chiava, atualizando minha falta de vocação para cuidador. Numa carregada mais forte, vi as sandálias de couro (recortadas no dedão, evocativas da figura do Ariano Suassuna) pisarem enfim o asfalto ao passo(?) que as mãos coalhadas de varizes grudavam nos punhos de borracha do andador.

O sinal demorava a abrir, até que resolvi eu mesmo parar o trânsito, no que fui obedecido, e a imagem do renitente matusalém se foi dissipando no outro lado da rua.

Fiquei sem saber se ele morava só ou com algum familiar. O certo é que, a despeito da proteção divina, um velhinho nesse estado não deveria andar assim pelas ruas, notadamente em tempos de coronavirus, doença que provoca morte por sufocação como foi a de meu pai, silenciado aos oitenta anos pelo enfisema, o terror dos pulmões.

#Coronavirus
# Enfizema
# Henrique Gomes
# Secretaria de Desenvolvimento Social do DF (Creas)

02/04/2020
(310)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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