Memórias/Memorialistas (LXIV)

Esquecer os mortos é o mesmo que matá-los uma segunda vez.
– Elie Wiesel –

Todo mundo pelejando para fugir do assunto, ninguém conseguindo.
Não passa um minuto – sessenta segundos mesmo – sem ouvirmos Coronavirus ou Covid-19. Ainda vai ser assim por uma longa fase para exasperação dos que executam atividades profissionais no próprio local de trabalho ou em casa; para a turba que erra pelas ruas, praças e superquadras, tanto faz como tanto fez.

Na tentativa de espancar a amargura, procurei como de praxe amparo nos memorialistas replicados neste blog. Usando a máscara e as luvas, girei a roleta e sintomaticamente assomou a figura do maior do país nesse gênero de literatura, o Pedro Nava, que acumula o papel de escritor com o de… médico.

Prosseguindo minha jornada pelo quarto volume, Beira-mar, deparo com trecho mencionando pestes, doenças, calamidades, a ser ressaltado em oportuna postagem, de mistura com exaltação aos seus professores de medicina (Viva a ciência!).

“(…) RETOMANDO O RELATO das aulas da Faculdade de Medicina nesse ano de 1924 quero marcar que, além de completarmos nossos estudos de Anatomia Descritiva e Fisiologia, tomamos contato com cadeiras novas que iam ampliar conhecimentos sobre nossa dona a Moléstia e principalmente começar o noviciado com esse companheiro de cada pensamento, de cada instante, de cada dia – o Doente. (…) Quero me deter um pouco sobre esses professores e seu ensino pois das mãos deles recebemos mais um sacramento hipocrático e alguma coisa como a imposição de um carisma, duma confirmação. Cuidando de suas personalidades (tanto quanto permita minha falível humanidade) quero ser justo, não depondo nem contra nem a seu favor. Simplesmente depondo. Aliás, continuando a fazer o que tenho procurado fazer até aqui nas minhas recordações – não as escrevendo para agradar nem para transformá-las em investimento de lisonjas.”

 Por ora nos debrucemos nas observações do Nava acerca do que seria precisamente escrever memórias.

“Nesse terreno a sinceridade se impõe porque escrever memórias é um ajuste de contas do eu com o eu e é lícito mentir a si mesmo. Essa franqueza assenta em quem escreve se amparando, assistindo, socorrendo – na solidão terrível da existência. Seria insensato não aproveitar tal ocasião de darmos a nós mesmos o que pudermos de verdade e companhia. Escrever memórias é animar e prolongar nosso alter ego. É transfundir vida, dar vida ao nosso William Wilson,
é não matá-lo – como na ficção de Poe. E essa vida é a Verdade. Com essa digressão tomei atalho dentro do qual devo dar mais uns poucos passos para deixar claro no leitor, a concepção do que considero memórias. Para quem quer escrevê-las sendo leal consigo mesmo – há que fazer tábua rasa das imposições familiares, das vexações do interesse material, do constrangimento idiota da vida social. Impõe-se a tomada
cilicial do que João Ribeiro batizou a ‘filosofia do exílio’.”

Disso decorre eu me filiar à corrente de defesa da tese segundo a qual um grande memorialista possa se encontrar sempre próximo, quase amalgamado, a um grande historiador, esse com, digamos, menos liberdade doutrinária, aquele com um arco mais amplo para o exercício da valoração. Não há palavrório na obra do Pedro Nava, assim como na lei, que não contém termos supérfluos. As palavras do médico nascido na Juiz de Fora do início do século passado saem, em verdade, aos borbotões, sedutoramente. Não percebemos os neologismos, eles desfilam miméticos, sob falsa capa de que integram há séculos a linguagem atual, seja a erudita, seja a corriqueira. Todavia, em nenhum momento é possível vislumbrar exageros retóricos. As descrições dos lugares, das pessoas, dos arrufos, dos relacionamentos amorosos são evidenciadas sadicamente em passagens que, numa engabelação, transformam os ledores em masoquistas, sem fôlego, carentes dos respiradores e aparelhos de ventilação tão escassos nestes nossos tristes tempos de confinamento.

“Não só no sentido dado pelo mestre ao isolamento necessário ao trabalho, mas principalmente, à obrigatória ruptura com os próximos e destes, sobretudo com aqueles a quem só nos liga escassamente o costume, a convivência, a mera coincidência – jamais a verdadeira afeição. Eu estendo ainda a deportação de João Ribeiro, a um martirológio: a busca voluntária, a tomada da posição de vulnerabilidade a tudo que o mesquinho próximo tem para agressão fora da polêmica e do combate a peito aberto. A maledicência, a calúnia, a intriga, a mise-em-branle completa da máquina da inveja. É preciso uma resistência sobre-humana para agüentar esse assédio sem entrega e sem degradação das próprias armas. É preciso continuar fiéis a nossa verdade mesmo quando ela aborrece e desagrada porque é assim que ela nos ajuda, paradoxalmente, a praticar ato de amor com os inimigos – fazendo a terapêutica cirúrgica de seu esquecimento. Extirpando-os. Amputando-os. Erradicando-os. (…).

E o Nava vai demonstrando o paradoxo “lembrar para esquecer”, sem preservar nada, sem poupar ninguém; desembainha sua adaga para futucar colegas, amigos, parentada, numa postura que a princípio e de certa maneira vai fragilizá-lo junto a todos e todas, atraindo mágoas e incompreensões, mas que é indeclinável quando se pretende narrar uma história de vida com moral indeformada.

Pedro Nava por Pinto de Moura – 1927

“O que convém dizer é que lembrando estamos provocando o esquecimento. Depois de escrito, o que foi ressuscitado estará, então, definitivamente morto. Tenho experimentado isto com a evocação de personagens que me eram odiosos e que depois de fixados por mim no físico que me desagradava, no procedimento que me revoltou – como que falecem na minha lembrança e até adquirem, quando reaparecem, um aspecto indiferente e às vezes quase tolerável. Um grande bem me chega desses ajustes de contas. Depois de caricaturar meus rancorizados eles perdem completamente o travo e posso pensar neles até com piedade. Liberto-me do ódio. Porque este, em mim, como amor (logicamente, como o amor) acompanha o defunto também. Se eu amo esta memória? por quê? não tenho direito de aborrecer aquela? Esse desagradável sentimento é que tento suprimir. Minha moral, como dizia Mario de Andrade, não é a moral cotidiana. Poderia? Escrever sem remorso o que escrevi de certos parentes meus. Sim. Porque para mim eles perdem o caráter de criaturas humanas no momento em que começo a escrevê-los. Nessa hora eles viram personagens e criação minha. Passam a me pertencer como pertenci a eles no preciso instante em que me ofenderam, humilharam e fizeram sofrer minha infância. Vivos ou mortos eu tenho de suprimi-los o que faço ferindo pela escrita – já que esta é a arma que me conferiu a natureza. E o que estou dizendo não é uma explicação para os vivos tampouco para os que acham minhas memórias cruéis…

Para quem sobreviveu ao gozo e à aflição da leitura de tudo o que evocado até o momento, comunico que dou por finda esta postagem, trazendo mais alguns registros do médico que numa epifania, já um sessentão, paciente de risco portanto, decidira que era a hora de pôr no papel algumas lembrancinhas.

“Continuarei como comecei e já que estamos no terreno dos esclarecimentos abordo outro aspecto de minhas lembranças. Aliás, já entrei nesse assunto no meu Balão Cativo. É o uso do palavrão. Ele tem o seu lugar. Considero tão inconcebível um livro de pornografia pura como o fato de comer cebola, alho e pimenta puros. Mas a expressão chula ou obscena tem valor condimentar e tem de entrar num texto na hora e proporções certos – como o alho no arroz, cebola no bife e a pimenta na muqueca. A palavra maldita também é tempero… Usá-la no momento adequado é fazer alta cozinha. Mas chega de devaneios e vamos contar meus professores do terceiro ano médico.”

#Pedro Nava
#Beira-Mar
#Elie Wiesel
#Edgar Allan Poe
#William Wilson

18/04/2020
(311)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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