Nascimento e Guerra

Meu sangue de mangue sujo/Sobe a custo, a contragosto/E tudo aquilo que fujo/
Tirou prêmio, aval e posto/Entre hinos e chicanas/Entre dentes, entre dedos/
No meio destas bananas/Os meus ódios e os meus medos/
E daí?

– Milton Nascimento e Ruy Guerra –

Falo pouco de política neste espaço. O assunto é ventilado sem muita constância, episodicamente.

Nesta postagem não remergulharei de conseguinte nas referências à brigalhada (royalties para o Paulo Guedes) diária entre quem detém mandato parlamentar e quem já o teve por quase três décadas; entre quem se situa nas altas instâncias do Poder Judiciário e quem ocupa o cargo máximo da Administração Pública há pouco mais de um ano.

Continuarei fiel, passarei ao largo, mesmo correndo risco de entrar para o time dos isentões.

Enquanto pensava no tema que iria trazer pra cá, resolvi me distrair no Google em busca dessa ou daquela palavra, exatamente como nós hoje acima dos quarentinha fazíamos com os dicionários, abrindo-os aleatoriamente para aprender o significado dos vocábulos inúmeros ali dispostos em rigorosa ordem alfabética. E não sei de onde me surgiu o termo etiologia.

Anotei literalmente que é o ramo do conhecimento cujo objeto é a pesquisa e a determinação das causas e origens de um determinado fenômeno. Aprofundando a pesquisa, fiquei sabendo ainda que agente etiológico é o agente causador da doença, aquele que desencadeia os sinais e sintomas de determinada enfermidade. O termo agente etiológico – prossegue a fonte – pode ser usado em substituição a patógeno. Vírus, bactérias, protozoários, fungos, platelmintos e nematelmintos são alguns exemplos de agentes etiológicos.

Ia prosseguir na minha coleta para verificar se existe por exemplo agente estimulador de propagação de vírus… mas não havia mais tempo para mim, era chegada a hora de eu lavar uma louça (é justo) de mais de metro cúbico (não é justo), tarefa, entre outros afazeres domésticos, designada pela autoridade competente a este pobre blogueiro que, isto é uma vergonha (ou esperteza), mesmo depois de décadas de existência não sabe fazer um arroz. Fritar um bife? Nem pensar.

Essa abertura bobinha é somente um pretexto para que reunamos condições psicológicas de encarar o duríssimo, oportuno relato (in verbis) de  Luciana Custódio de Castro, amiga da autora de belos poemas já reproduzidos neste blog, Dazi Antunes Corrêa, a paulista desgarrada:

E DAÍ?

Meu irmão está lutando pela vida numa UTI pq foi infectado pela COVID 19!
Mas…

E DAÍ?

Quando ele se internou dia 6/4, ficamos apavorad@s porque tínhamos que deixá-lo sozinho no hospital, a pneumonia a ser tratada tomou dimensões severas e em uma semana foi piorando drasticamente, como nada visto antes.
Mas…

E DAÍ?

Ele foi ficando cada vez mais cansado, com muita tosse, febre que não cedia, dores de cabeça intensas, falta de ar. Precisou, então, colocar oxigênio. Não foi suficiente. Fomos avisados que ele ia ser entubado pra receber ventilação mecânica e aliviar um pouco os pulmões que estavam severamente comprometidos. Mas…

E DAÍ?

A família vive uma dor de impotência e solidão somada ao sentimento de ter abandonado no hospital alguém que vc ama, sem ter abandonado, porque é proibido estar junto! E só resta chorar muito, orar (pra quem é Cristão) e esperar uma espera solitária, sofrida, angustiante, dia após dia.
Mas…

E DAÍ?

Após meu irmão ser entubado, entrou em coma profundo e passamos a conviver com a dor do silêncio total do telefone dele, sendo inevitável ficar revendo nossas conversas no grupo da família e a última frase que ele digitou quando a equipe chegou para entubá-lo:
’Família, estou com muito medo! Vieram me sedar! Amo vocês!’

Sem palavras pra traduzir o que vivemos desde então.
Mas…

E DAÍ?

Esse vírus é tão voraz que tomou conta de todo sistema do meu irmão. A ventilação não foi suficiente para aliviar os pulmões que pararam de exercer a função respiratória. Precisou usar um aparelho similar a um pulmão artificial chamado ECMO. Teve comprometimento nos rins necessitando fazer hemodiálise. Teve uma infecção severa que o levou também a ter que fazer uma transfusão de plasma. Teve trombose. Precisou fazer um procedimento de emergência chamado cricotomia, similar ao da traqueostomia pq não deu tempo de fazer a traqueo tradicional. Passamos a anoitecer e a amanhecer respirando dor e angústia, sempre à espera da ligação do médico da UTI que acontece todos os dias entre 14h e 16h. Meu irmão evoluiu para uma piora drástica dia após dia e nossa vida virou um grande pesadelo e uma súplica intensa a Deus para iluminar a equipe médica e pela cura dele! Processo desesperador.Mas…

E DAÍ?

E daí que graças a Deus, a equipe médica nunca desistiu dele! Batalhou incansavelmente mesmo quando todo quadro clínico era desolador! Então meu irmão começou a reagir após VINTE DIAS de só agravamento, só complicações. Meu irmão é um milagre de Deus, de todas as orações e/ou vibrações positivas d@s amig@s e familiares e, COM TODA CERTEZA, resultado de um esforço indescritível da equipe médica que NUNCA DESISTIU e lutou e está lutando incansavelmente por ele. Todo nosso respeito e admiração por quem está na linha de frente no combate à essa pandemia! Valorosos ️

Agora, Eduardo já participa da respiração, já avançou nos outros aspectos da infecção e está respondendo gradativamente à diminuição da sedação! Corre o risco de ter que amputar as pontas dos dedos dos pés por conta da trombose, mas o que importa é a cura dele, depois terá todo nosso apoio pra superar o que for.

Então, depois desse relato de vida, de gente, de gente como você que tem pessoas que ama e que também deve proteger! Eu pergunto, o que sentiu quando ouviu:

E DAÍ?

Minha família, mesmo tendo essa vitória gradativa e lenta com relação ao meu irmão, se solidariza muito com aquelas famílias que não estão conseguindo nem atendimento em lugares onde o sistema já entrou em colapso porque furaram o isolamento. Choramos o choro de cada pessoa que vemos declarar que perdeu alguém da família e não pôde nem se despedir.

Nós nos preocupamos com os riscos de mais dos nossos familiares se infectarem porque estamos vendo o Brasil com dados alarmantes e muita irresponsabilidade sobre o isolamento. Por isso, temos tentado ao máximo ficar em casa. Acredite! Isso é real! Tente se colocar no lugar de quem sofre porque foi atingido pela COVID 19! Esse cuidado é pela nossa família e pela sua família. Então, eu espero, de coração, não ler e nem ouvir de você:

E DAÍ?

Porque esse ‘E DAÍ?’ é carregado de uma falta de humanidade imensurável. É perverso! É irresponsável! É cruel! E é acima de tudo uma declaração PARA NUNCA SER ESQUECIDA!”

Eduardo, fique certo de que estamos na torcida para ver a alegria no seu rosto, a alegria poderosa de todos os convalescentes. Abraços.

Gerd Altmann por Pixabay

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#ECMO
#Cricotomia

01/05/2020
(312)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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