Poemas de uma carioca desgarrada (XXIII)

(…) Ainda tem o seu perfume pela casa/Ainda tem você na sala/Porque meu coração dispara/Quando tem o seu cheiro/Dentro de um livro/Na cinza das horas
– Adriana Calcanhotto –

Atinjo neste blog a postagem 314, número da superquadra sul do Banco Central destinada no final da década de 80 aos seus servidores e servidoras aqui chegados do Rio de Janeiro e São Paulo. Para mim, sua marca de nobreza não se deve a isso, mas por ser vizinha à 114, esplendorosa superquadra sul desta Brasília em início de seca onde mora meu irmão caçula, e isso me dá uma inveja louca dele, inveja daquelas ruins. Um dia, vingança odienta, me mudo pra superquadra 308 Sul, Burle Mark nos jardins, Athos Bulcão nos azulejos e Niemeyer logo ali do lado, na igrejinha com seu chapéu de freira. Aí eu vou ver a cara de bobo dele.

Gente, o que está a acontecer comigo? Inexplicável minha atitude nada fraternal. Até porque há um tempão – deixa eu calcular aqui, botem no mínimo dois anos -, não uso verde e amarelo nem apareço aos domingos na Praça dos Três Poderes dirigindo camionete de luxo, apoplético, furibundo; por outra parte, fumo neste instante um charuto cubano que ganhei de presente. Saudades de outrora.

Num demonstrativo de lucros e perdas, mais de perdas, minha presunção literária consistira num percurso algumas vezes nepótico, errático, errante, quase sete anos bíblicos porém de pouca fé, numa prosa compartilhada por quase ninguém (impressionante como almeja ser lido quem malbarata as letras). Este blogueiro, para compensar sua escrita sofrível, expropriou poemas ao longo dessa trajetória, recalcitrou, subtraiu pérolas dos acervos líricos da poeta  paulista desgarrada, do poeta piauiense desgarrado, e torna agora à poeta carioca desgarrada, minha irmã, adensando o armistício familiar.

Evoco a linguagem do mundo das artes cênicas. Repriso que nesta peça teatral não protagonizo ato algum, na medida em que o diretor me mandou desde logo sair da cena ficta para me juntar à plateia virtual e lá permanecer, contrito, quietinho, abeberando versos injustamente considerados despiciendos pela autora.

OUTRORA
 
De que me adiantam belos versos
Palavras doces, notas de menestréis?
Se esta dor é a mesma que sinto
De muitos ontens,
De tantos hojes,
De outrora e tão moderna…
 
Se insiste tanto em me querer,
E se não mais me deixar?
 
De que me valhem estrofes,
O que eu ganho em ser ou não ser…
Poeta?

As minhas lágrimas adubam a minha poesia.
 
Me diga, me conta,
Não minta, me beije.
Se cale, não me desmonte,
 
Desmente e me sonha!


nORMA mARtINS
  gYN, 19/aBR/2010

#Adriana Calcanhotto
#Vambora
#Superquadra 308 Sul
#Superquadra 114 Sul
#Praça dos Três Poderes
#Norma Martins

08/06/2020
(314)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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