Alguns guardados (VI)

“Quanto mais o tempo nos distancia da realidade do passado, maior pode ser o choque depois. Porque os lugares mudam, a gente muda, e, mesmo que nada mude, nossa memória pode ter preparado uma verdadeira armadilha.”
– Josimar Melo –

Traços de mentira permeiam o caráter de todo mundo. Não raro, espalho pelos quatro cantos não ser alinhado (bonita camisa, Fernandinho) com a galera (o cisne branco em noite de lua) da poesia; eu seria portanto adepto somente do que é discursivo e não acomoda (valeu, Fux) versos. Aí, a falácia.

Quando o texto em prosa é alongado e… ruim, costuma ser sacrificante encará-lo, o que se agrava diante de  intercalações, de comentários entre parênteses (minha autocrítica).

Com o poema, nossa leitura é mais rápida, mais expedita – não necessariamente menos reflexiva, ao contrário -, já que partimos da margem esquerda em direção à margem direita (nosso idioma não é semítico, vocábulo que aprendi com a Enciclopédia Barsa, a avó do Google) e logo chegamos ao nosso destino, o “ponto parágrafo”, o início do verso sequencial, sendo melhor ainda ao término da estrofe, parada tática para tomarmos fôlego.

Agora mesmo, este blogueiro desapercebido, sócio do clube da prosa como dito acima, deu com um poema de versos curtíssimos, roupagem enganosa para subjugá-lo, enredá-lo sem piedade na empresa de ler e reler infinitas vezes ode insidiosa, num esforço repetitivo não enquadrável entretanto como transtorno psicológico – antes, fruição sadia e acalentadora.

O recado lírico e angustiado se infiltrara neste nosso espaço por travessuras duma produtora cultural, assumidamente negra, oficineira, militante feminista das mais aguerridas, supercuidadora de duas gatas e uma cachorra (eu avisei que a dona é feminista), não foi mãe até 2014, continua até hoje sem ter filho (ou FILHA).

Forçoso é descobrirmos onde ela encontra tempo, e autoridade genuína, para lavrar poema como este, nimbado de maternidade.

O FILHO

o filho se apresenta 
o filho chega
o filho está
o filho se vai

o filho retorna
o filho contorna
o filho reclama
o filho derrama

o filho chora
o filho pede peito
o filho um dia será peito
o filho acompanha
o filho despede
o filho percebe
o filho entregue

o filho, você.

dayse hansa
06/06/2014

#Josimar Melo
#Fux
#Enciclopédia Barsa
#Google
#Dayse Hansa

21/06/2020
(315)
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