Cartas libanesas

“Fato: quando temos fome, os anseios da alma podem esperar. Mas, quando olhamos para a história da nossa civilização,
as necessidades do corpo e da alma nunca foram entendidas como mutuamente excludentes.
– João Pereira Coutinho –

Viajar de férias é bom, é ótimo. Você vai juntando um dinheirinho, quando isso é possível, escolhe o local (ou os locais) de destino. Chegada a hora de partir, afivela a mala (ou as malas) e parte para o aeroporto (ou para a rodoviária, ou para a garagem do prédio, ou ainda para a calçada da rua onde estacionado seu carro ou sua moto) e se larga no mundo, ainda que o mundo diste apenas cem quilômetros de seu ponto de partida.

Viajar a serviço não costuma ser desinteressante, salvo se houver de sair e retornar no mesmo dia, o famoso bate e volta. Terminada a inspeção, a reunião, o curso, o seminário, o(a) burocra não raro acha um tempinho para deambular. Na sequência, entra numa livraria (inúmeras delas estão fechando as portas), num boteco, num shopping, decide aproveitar a atração turística mais badalada se imiscuindo na cultura do lugar.

Durante décadas fiz isso.

Em relação ao primeiro tipo de viagem, pretendo continuar passeando por aí até ficar bem velhinho, o que ocorrerá lá pelo ano 2060. Já as do segundo, viajei pelo Banco Central (quando na ativa) por mais de quarenta anos e pelo Teatro Mapati por mais de vinte anos, na grande maioria da vezes em nosso caminhão-palco. Sem a patriotada tão em voga nos dias atuais, me orgulho de conhecer todas as capitais brasileiras, bem assim centenas de municípios. No mesmo passo (expressão adequada), conheço alguns países e, quando acabar a desgrama (não sei qual o pior nome, covid 19 ou novo coronavírus), é meu propósito ampliar o rol se o dólar e o euro derem permissão.

Abstraindo as viagens oficiais, as coisas se me apresentaram de molde a exercer escolhas. A não compulsoriedade perdura até o momento, posso viajar, posso não viajar, posso mudar, posso permanecer na mesma casa.

Curiosamente (paradoxo), nunca quis morar no exterior. Se um dia eu mudasse de ideia, o que não é provável, gostaria de me instalar, além de em Nova York, numa destas três cidades iniciadas por “B”: Barcelona, Buenos Aires (a despeito dos…) ou Bordeaux.

Pensem agora em quem está em situação extrema, não tem opção. Por questões de ordem política, não me refiro à criminal, o indivíduo se vê compelido numa dada época de sua vida a ter que deixar urgentemente o torrão natal; se não o faz, corre risco de morte, o que é pior ainda se a ameaça se estende a membros de sua família. Em que condições ele se evade? Geralmente, parte sem dinheiro, parte ignorando o que vai encarar no país que não é o seu de origem. Indeclinável para a sobrevivência é arrostar a hostilidade, o descaso, o mau trato que decerto o gringo vai dispensar, máxime aos egressos de nações de população pobre e negra.

Lado outro, mesmo em jornada na qual você em regra leva grana pra gastar (as famosas divisas), podem acontecer iniquidades, o(a) viajante ser rotulado(a) até de pária. O Brasil é um país que, mistificações à margem, recebe bem os estrangeiros que aportam com desejo de aqui se fixar. Nossa história, ao menos a da primeira metade do século XX,  somente pode ser contada se ponderamos a presença, o contributo das colônias japonesas, alemãs, italianas, portuguesas, judaicas, árabes, entre outras.

Convido vocês para, numa outra perspectiva, assistir a um “depoimento de um imigrante”. As aspas se impõem porquanto não é exatamente narrativa de quem aportara em caráter permanente em nossas plagas, tratando-se antes de performance de ator, admirável, Eduardo Mossri, em  monólogo já encenado em teatros tradicionais ao longo dos últimos anos, tendo a crítica especializada mais assoprado do que mordido.

Release escrito por  Rodrigo Monteiro:

“Cartas libanesas” é uma justa homenagem à imigração. O personagem Miguel Mahfuz, avô de Mossri, cuja história a peça desvenda, é um entre os milhares de libaneses que buscaram, nas grandes cidades do Brasil, uma vida melhor entre 1871 e 1940. Ele chegou ao Brasil em 1914, fugindo da Primeira Guerra, deixando na Europa sua jovem esposa grávida. Seu trabalho aqui garantia o sustento de sua família lá. O esforço desse povo está no cerne da história do mercado da moda brasileira, pois a ela contribuiu ele mais do que qualquer outro grupo.”

Que se enriquece com o saboroso escólio do ator do monólogo:

“É uma peça sobre um mascate,  porque todo ator no fundo é um pouco mascate: vai de palco em palco, de cidade em cidade, vendendo seus personagens, como se fossem os melhores tecidos de sua lojinha. As cartas libanesas são, na verdade, as cartas de todos os que vieram para o Brasil e ajudaram a formá-lo. Somos todos misturados, essencialmente vira-latas.” 

Eduardo Mossri (foto: felipe_stucchi)

A peça ressurgiu como live  nesse 7 de junho, através de #EmCasaComSesc. Se vocês percorrerem a maratona artística de sessenta minutos, sentir-se-ão tocados(as) por mensagem lírica, sofrida, que nesses tempos sombrios de crise sanitária é dada em ambiente de isolamento, dentro do ap parece que moradia do intérprete.

#João Pereira Coutinho
#EmCasaComSesc
#Cartas libanesas
#Miguel Mahfuz
#Eduardo Mossri
#Rodrigo Monteiro

05/07/2020
(316)
mmsmarcos1953@hotmail.com

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *