Memórias/Memorialista (LXV)

A língua tanto acolhe palavras novas, os chamados neologismos, como aposenta termos sem utilidade. Os neologismos, como toda novidade, chamam a atenção, despertam a curiosidade, chegando até a suscitar discussões e algumas paixões.  Já os que saem de cena costumam fazê-lo em silêncio, discretamente, sem um último aceno de adeus. Esses são os arcaísmos, que vão sendo esquecidos pouco a pouco, deixando de aparecer nos textos e nas conversas.
– Thaís Nicoleti –

Lá pelos idos de maio ou junho consignei neste blog uma obviedade, entre tantas outras de minha lavra: “ninguém mais aguenta ouvir falar em novo coronavirus”, vocábulo que todos os dias, todas as noites irrigava o noticiário, pautava as conversas (virtuais). Transcorridos esses meses, quase nada se modificou; quer dizer, o panorama sombrio se agravou, o país já se despediu de mais de cento e quatorze mil pessoas – à margem dos velórios.

A homogeneidade do ritual de passagem como que refutou Tolstói (dupla vaidade minha, li Guerra e Paz, na Ilha de Marajó). No período surgira nome mais específico, já incorporado na pia batismal, a Covid 19, que corroborou o “todas as famílias felizes são iguais”, não tendo acolhido entretanto a outra pérola do romancista russo, o “as infelizes o são cada uma à sua maneira”. As famílias que perderam entes em decorrência da carga da doença que penetra bocas, narizes, olhos e ouvidos soçobram do mesmo jeito, vestindo o mesmo figurino, chorando o mesmo choro.

O Luiz Fernando Veríssimo tem se mostrado com amargura nos seus últimos escritos (é possível fazê-lo de outra forma?), sem o genial humor mordaz. O pai dele, Erico Veríssimo, um dos maiores ficcionistas brasileiros, o quarto personagem deste tópico de lembranças boas e ruins, nos transporta ao ano de 1918, por via do livro de memórias Solo de Clarineta. Ou o gaúcho está falando do desalentador 2020?   

“(…) Em 1918 a influenza espanhola atirou na cama mais da metade da população de Cruz Alta, matando algumas dezenas de pessoas. Não se dignou, porém, contaminar-me. Lembro-me da tristeza de nossas ruas quase desertas durante o tempo que durou a epidemia, e dos dias de calor daquele dramático novembro bochornoso. Era como se os próprios dias, as pedras, a cidade inteira estivessem amolentados pela febre. A escola achava-se em recesso e eu podia passar dias inteiros a ler romances. Foi nessa época que descobri com encanto As Minas de Pratade José de Alencar. Li também um livro sobre Portugal, impresso em papel esponjoso e grosso, com muitas ilustrações em cor, uma das quais mostrava uma árvore com flores vermelhas, tendo por baixo a legenda: Olaias em florA palavra olaia me agradou tanto aos olhos como ao ouvido. Quarenta anos mais tarde, visitando Portugal pela primeira vez numa fria mas luminosa primavera, procurei as olaias como quem procura amigos de infância há muito perdidos.

                                   “(…) Passada a epidemia a cidade entrou em lânguida e trêmula convalescença.”

Se Cruz Alta passou de ano, Brasília (e o Brasil) corre risco de ser reprovada, não alcançando nem a segunda época, a qual hoje corresponderia à recuperação, em que o aluno pode subir de série – xô, fantasma da bomba – mercê de comparecimento a aulas de reforço e subsequente êxito nas provas aplicadas ao contingente faltoso imediatamente antes do fim do ano letivo. Na Capital Federal, tem-se praticado o dane-se a Covid 19 (confesso que não estou enterrado em casa, porém quando saio procuro me acautelar e não me aproximar das pessoas, e devoto ódio – sem gabinete – a quem desfila por aí sem máscaras, pouco se lixando para o distanciamento social). Os recalcitrantes se iludem, creem que os sintomas se restringiriam a febre contornável e perda do olfato e do paladar, males passageiros, temporários, bastam uns dias e a maligna pede pra sair, vai embora. E os pulmões?

“Quanto à morte, eu não pensava muito nela. Um dia, porém, julguei ver a Bruxa de perto. Era um anoitecer de domingo, e eu chegara tarde ao internato, após uma visita à cidade, onde fizera tudo quanto meu magro orçamento semanal de dois mil e quinhentos réis permitia. Assistira a uma partida de futebol, tomara um copo de leite com sonho (ó tardes de chuva da infância!) e pagara a passagem de ida e volta no bonde. Os internos estavam já todos na igreja, para onde me dirigi. Passara o dia com uma tosse fortíssima e convulsiva. (Tosse? Bromil – aconselhava um anúncio na farmácia de meu pai.) Parei na frente do templo num súbito acesso de tosse. Ouvia vozes entoando algo em que reconheci o hino cantado pelos passageiros do Titanic na hora da morte.

Meu pai embarcou vítima da enfisema sempre fatal, que na última fase o consumira, sofridamente. O concentrador de oxigênio era o seu sétimo filho, o velho não podia se desprender do aparelho sob pena de sufocamento e morte em minutos. Em regra, as dores, me refiro às fortíssimas, costumam ser debeladas por virtude da ação da morfina e, em casos mais desesperadores ainda, há registro de emprego de heroína (Invasões bárbaras, filmaço canadense). Quanto à falta de ar, dependendo da dose ministrada, o oxigênio salvador mata o paciente.

“De súbito senti que se me fechava a traquéia e eu perdia a capacidade de respirar. Tive uma vertigem, agarrei-me nas grades do portão para não cair, abri a boca na busca ansiada dum ar que não me chegava aos pulmões. Pensei então que ia morrer. Entrei em pânico. Rodopiei sobre mim mesmo, caí no chão e fiquei olhando para o céu. As vozes chegavam até meus ouvidos, quase ininteligíveis – “…ais …erto …ero estar… eus… e ti…” Via confusamente as estrelas contra o negror do céu. Um iceberg me pesava sobre o peito. Fiz um esforço, consegui levantar-me, levei as mãos à garganta, tentei pedir socorro mas nenhum som me saiu da boca. De repente minha traquéia se abriu, o ar quase frio da noite me encheu a boca, os pulmões, e eu respirei, a garganta ardida, o peito ofegante. Sentei-me num degrau da igreja, respirando em largos sorvos. Um suor gelado me escorria pela testa, descia pelo rosto. O coração assustado me batia ainda em disparada. Minutos depois levantei-me, entrei no templo, sentei-me num dos últimos bancos. A congregação, de pé, lia uma oração em uníssono. Procurei agradecer a Deus por não ter me deixado morrer. As palavras que balbuciei me soavam na cabeça artificiais, convencionais, sem fé verdadeira. Disse ao Criador um ‘muito obrigado’ frouxo e meio encabulado.”

            Bom passeio sem máscara.

#Thaís Nicoleti
#Solo de Clarineta
#Érico Veríssimo
#Covid 19
#Influenza espanhola

23/08/2020
(319)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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