Inocência

Leitores sempre me perguntam porque conto tantas histórias. Exatamente pela razão do que Rosental falou: ligar o passado ao presente.
– Sebastião Nery –

Das quatro netas que tenho, três são irmãs e moram em São Paulo. Integrante, sob protestos, do grupo de risco, fui ter com elas na Pauliceia, em viagem de carro de Brasília pra lá, cercado de todas as cautelas e atenção visando ao enfrentamento eficaz dessa maligna Covid-19. E o fiz porque, longe das meninas desde março p.p., setembro é o mês em que, a seu turno nos dias 8, 12 e 23, o trio comemora mais um ano de vida.

A do aniversário por primeiro, aluna de colégio de pedagogia Waldorf, é a mais velha e me pedira para encararmos juntos o “dever de casa”, passado virtualmente pela professora e que consistia na leitura (e, após, elaboração de resumo) de um livro do Visconde de Taunay.

Já anotei neste blog que minha vaidade intelectual são os livros – com os quais convivo há cerca de cinquenta anos -, dispostos na biblioteca do meu teatro (Mapati) em dez estantes que existiam muito antes dessa moda das lives com vistosos, multicores e literários cenários ao fundo, no que não se incluem as prateleiras do Paulo Guedes, indigência não justificável para quem mergulhara de cabeça em todas as obras (no original, sem traduções) versando sobre a crise de 1929, arrostada pelo New Deal.

Mas eu desconhecia, confesso um pouco envergonhado, a ficção do Visconde de Taunay. Quedei-me para apreciá-la tão logo minha neta repassou o livro Inocência, o qual me pareceu um pouco inacessível para quem acabara de completar 14 anos, seja pela linguagem (estatura do Guimarães Rosa?), seja pela abordagem antropológica.

Nas transcrições adiante inocorrerão referências ao tema central, o amor shakespeariano entre Inocência e Cirino, bem assim ao retrato minudente e preciso que o autor traça da figura do sertanejo. Aproximarei o aristocrata Visconde de Taunay do contemporâneo Euclides da Cunha, que nos brindou com “Os Sertões”, monumento literário dividido em três tópicos – a Terra, o Homem e a Luta. Separado por uma geração do jornalista (e escritor) correspondente na Guerra de Canudos, o autor de Inocência igualmente vai falar da Terra e do Homem, diferenciando-se da narrativa do levante épico na Bahia consignado nas páginas do Estadão para, em lugar disso, entronizar precipuamente o romance de dois jovens.

Ficaremos nós somente com a Terra descrita pelo ficcionista nobre.  

“Corta extensa e quase despovoada zona da parte sul-oriental da vastíssima província de Mato Grosso a estrada que da Vila de Sant’Ana do Paranaíba vai ter ao sitio abandonado de Camapuã. Desde aquela povoação, assente próximo ao vértice do ângulo em que confinam os territórios de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso até ao Rio Sucuriú, afluente do majestoso Paraná, isto é, no desenvolvimento de muitas dezenas de léguas, anda-se comodamente, de habitação em habitação, mais ou menos chegadas umas às outras, rareiam, porém, depois as casas, mais e mais, e caminham-se largas horas, dias inteiros sem se ver morada nem gente até ao retiro de João Pereira, guarda avançada daquelas solidões, homem chão e hospitaleiro, que acolhe com carinho o viajante desses alongados páramos, oferece-lhe momentâneo agasalho e o provê da matalotagem precisa para alcançar os campos de Miranda e Pequiri, ou da Vacaria e Nioac, no Baixo Paraguai. 

“Ali começa o sertão chamado bruto.

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“Pousos sucedem a pousos, e nenhum teto habitado ou em ruínas, nenhuma palhoça ou tapera dá abrigo ao caminhante contra a frialdade das noites, contra o temporal que ameaça, ou a chuva que está caindo. Por toda a parte, a calma da campina não arroteada; por toda a parte, a vegetação virgem, como quando aí surgiu pela vez primeira.”

E por onde o sertanejo (e os caminhantes) exercita inconscientemente, indefectivelmente o seu direito de ir e vir, repetindo e ratificando seu destino a cada jornada que se lhe apresenta num continuum? 

“A estrada que atravessa essas regiões incultas desenrola-se à maneira de alvejante faixa, aberta que é na areia, elemento dominante na composição de todo aquele solo, fertilizado aliás por um sem-número de límpidos e borbulhantes regatos, ribeirões e rios, cujos contingentes são outros tantos tributários do claro e fundo Paraná ou, na contravertente, do correntoso Paraguai. 

“Essa areia solta, e um tanto grossa, tem cor uniforme que reverbera com intensidade os raios do Sol, quando nela batem de chapa. Em alguns pontos é tão fofa e movediça que os animais das tropas viageiras arquejam de cansaço, ao vencerem aquele terreno incerto, que lhes foge de sob os cascos e onde se enterram até meia canela. 

“Freqüentes são também os desvios, que da estrada partem de um e outro lado e proporcionam, na mata adjacente, trilha mais firme, por ser menos pisada. 

“Se parece sempre igual o aspecto do caminho, em compensação mui variadas se mostram as paisagens em torno.”

E por agora terminamos. Fique claro que a próxima postagem será o mais breve produzida por descrever mata verde, não imune à calcinação fruto de ação dolosa.

#Sebastião Nery
#Inocência
#Visconde de Taunay
#Os Sertões
#Euclides da Cunha

30/09/2020
(321)
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