Inocência (II)

Se a literatura tem algum poder – já que, antes de tudo, ela promove o contato com nossas limitações -, seu poder é de descobrir conexões ali onde parece haver apenas o inacessível e a interdição. É de abrir lugar para que o ausente enfim tome corpo. A ficção traça pontes que ligam mundos incomunicáveis. Ela nos ajuda, assim, não apenas a suportar, mas a desejar o impossível. Trabalha com a ignorância, transformando-a em energia.
– José Castello –

Retomemos neste segundo e derradeiro capítulo nosso périplo através dos sertões consoante o descortino do Visconde de Taunay.

Não há destacar apenas porque o romancista está inscrito na nobiliarquia – não poucos se viram ornamentados no império de Dom João e dos seus descendentes Dom Pedro I e Dom Pedro II. Entre distintas personalidades, menciono de orelhada os viscondes de Maranguape, de Maricá, de Mauá, do Rio Branco e por último, roubado da ficção lobateana, o cultíssimo Sabugosa. O realce vai se justificar pela caudalosa, hipnotizante contação da história, aqui reverberada por virtude das descrições da vegetação local.

“Ora é a perspectiva dos cerrados, não desses cerrados de arbustos raquíticos, enfezados e retorcidos de São Paulo e Minas Gerais, mas de garbosas e elevadas árvores que, se bem não tomem, todas, o corpo de que são capazes à beira das águas correntes ou regadas pela linfa dos córregos, contudo ensombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e mostram na casca lisa a força da seiva que as alimenta; ora são campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada, ou de viridente e mimosa grama, toda salpicada de silvestres flores; ora sucessões de luxuriantes capões, tão regulares e simétricos em sua disposição que surpreendem e embelezam os olhos; ora, enfim, charnecas meio apauladas, meio secas, onde nasce o altivo buriti e o gravata entrança o seu tapume espinhoso.”

O calor inusual dessa primavera, cevada de par com os malfeitos da Covid-19, mais nos prepara para a transmutação da paisagem verdejante em cenário do horror. Lá em cima a Amazônia, triscada; mais ao centro o Pantanal, a se consumir, ardendo, cintilante, pelas ações ilícitas. Aliás, naqueles tempos o estrago poderia vir de meras condutas involuntárias e não criminosas mas igualmente deletérias em termos de destruição do meio ambiente.  

“Nesses campos, tão diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e ressecado pelo ardor do Sol transforma-se em vicejante tapete de relva, quando lavra o incêndio que algum tropeiro, por acaso ou mero desenfado, ateia com uma faúlha do seu isqueiro.”

No alvorecer dos anos 2000, cumpri pequena temporada de passeio em Poconé (MT) e obviamente fiquei deslumbrado com a força vital das matas circundantes. No entretanto, não passava pela minha cabeça, moldada no século XX, que aquilo tudo de natureza magnífica (pouparei o clichê “exuberante”) era frágil e indefeso ante a sanha predadora de parte da turma do chamado agronegócio. As atuais queimadas vistas diariamente na telinha doem, e doem mais ainda quando remergulhamos na obra do Visconde de Taunay, que desconstrói e subverte o famoso “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Força, pessoas: intentem ler, incólumes, o que o escritor nos propicia. 

Afonso d’Escragnolle Taunay (Visconde de Taunay)

“Minando à surda na touceira, queda a vivida centelha. Corra daí a instantes qualquer aragem, por débil que seja, e levanta-se a língua de fogo esguia e trêmula, como que a contemplar medrosa e vacilante os espaços imensos que se alongam diante dela. Soprem então as auras com mais força, e de mil pontos, a um tempo, rebentam sôfregas labaredas que se enroscam umas nas outras, de súbito se dividem, deslizam, lambem vastas superfícies, despedem ao céu rolos de negrejante fumo e voam, roncando pelos matagais de tabocas e taquaras, até esbarrarem de encontro a alguma margem de rio que não possam transpor, caso não as tanja para além o vento, ajudando com valente fôlego a larga obra de destruição. 

“Acalmado aquele ímpeto por falta de alimento, fica tudo debaixo de espessa camada de cinzas. O fogo, detido em pontos, aqui, ali, a consumir com mais lentidão algum estorvo, vai aos poucos morrendo até se extinguir de todo, deixando como sinal da avassaladora passagem o alvacento lençol, que lhe foi seguindo os velozes passos. 

“Através da atmosfera enublada mal pode então coar a luz do Sol. A incineração é completa, o calor intenso, e nos ares revoltos volitam palhinhas carboretadas, detritos, argueiros e grânulos de carvão que redemoinham, sobem, descem e se emaranham nos sorvedouros e adelgaçadas trombas, caprichosamente formadas pelas aragens, ao embaterem umas de encontro às outras. 

“Por toda a parte melancolia; de todos os lados tétricas perspectivas.”

O diagnóstico é categórico e desalentador, nos faz desabar sem esperanças na areia quente e escurecida pelo fumacê. Em compensação, se o Taunay não assevera que o sertanejo é antes de tudo um forte (notem o Euclides da Cunha de novo), ele concebe a transcendência e refere – isso, sim – que o sertanejo, resiliente (palavra da moda), se amalgama na natureza, que sempre se renova, a contraditar “as tétricas perspectivas”. 

“É cair, porém, daí a dias copiosa chuva, e parece que uma varinha de fada andou por aqueles sombrios recantos a traçar às pressas jardins encantados e nunca vistos. Entra tudo num trabalho íntimo de espantosa atividade. Transborda a vida. Não há ponto em que não brote o capim, em que não desabrochem rebentões com o olhar sôfrego de quem espreita azada ocasião para buscar a liberdade, despedaçando as prisões de penosa clausura. 

“Àquela instantânea ressurreição nada, nada pode pôr peias. 

“Basta uma noite, para que formosa alfombra verde, verde-claro, verde-gaio, acetinado, cubra todas as tristezas de há pouco. Aprimoram-se depois os esforços; rompem as flores do campo que desabotoam as carícias da brisa as delicadas corolas e lhe entregam as primícias dos seus cândidos perfumes.”

Será que esse panorama otimista vingará no Pantanal? Tomara que sim. Se somos impotentes para integrar aqueles pelotões de bombeiros com as tropas auxiliares de voluntários destemidos, cabe-nos ao menos torcer pela descida das águas do céu porquanto a sobre-existência da estiagem vai arrasar de vez aquela região produtora e já há algum tempo uma força do ecoturismo. 

“Se falham essas chuvas vivificadoras, então, por muitos e muitos meses, ai ficam aquelas campinas, devastadas pelo fogo, lugubremente iluminadas por avermelhados clarões sem uma sombra, um sorriso, uma esperança de vida, com todas as suas opulências e verdejantes pimpolhos ocultos, como que raladas de dor e mudo desespero por não poderem ostentar as riquezas e galas encerradas no ubertoso seio. 

“Nessas aflitas paragens, não mais se ouve o piar da esquiva perdiz, tão freqüente antes do incêndio. Só de vez em quando ecoa o arrastado guincho de algum gavião, que paira lá em cima ou bordeja ao chegar-se à terra, a fim de agarrar um ou outro réptil chamuscado do fogo que lavrou. 

“Rompe também o silêncio o grasnido do caracará, que aos pulos procura insetos e cobrinhas ou, junto ao solo, segue o vôo dos urubus, cujos negrejantes bandos, guiados pelo fino olfato, buscam a carniça putrefata. 

“É o caracará comensal do urubu. De parceria se atira, quando urgido pela fome, à rês morta e, intrometido como é, a custo de alguma bicada do pouco amável conviva, belisca do seu lado no imundo repasto. 

“Se passa o caracará a vista do gavião, precipita-se este sobre ele com vôo firme, dá-lhe com a ponta da asa, atordoa-o, atormenta-o só pelo gosto de lhe mostrar a incontestada superioridade. 

“Nada, com efeito, o mete em brios. 

“Pelo contrário, mal levou dois ou três encontrões do miúdo, mas audaz adversário, baixa prudente à terra e põe-se ai desajeitadamente aos saltos. apresentando o adunco bico ao antagonista, que com a extremidade das asas levanta pó e cinza, tão de perto as arrasta ao chão. 

“Afinal, de cansado, deixa o gavião o folguedo, segurando de um bote a serpesinha, que em custoso rasto, procurava algum buraco onde fosse, mais a salvo, pensar as fundas queimaduras. 

“Tais são os campos que as chuvas não vêm regar.”

17/10/2020
(323)
mmsmarcos1953@hotmail.com

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *