Obsessões musicais (XXV)

É, pude ver um pouco desse lugar dos sonhos de perto. Não existe nenhum tipo de grade, as proteções são feitas por vidros e algumas microcerquinhas de madeiras. Nos prédios, consegui avistar até um pouco da rotina das famílias. Não consegui descobrir onde os ricos moravam. Depois percebi que todos eram ricos…
– Mariza Martins –

Não sou negacionista – a frase, literalmente negação em si mesma, induz paradoxo.

Na companhia da minha companheira, fui em novembro passado revisitar outros rincões desta terra redonda. Com o vírus redivivo a nos espreitar, pegamos o carro e formalizamos despedida temporária da Capital da Esperança (se não é mais, logo voltará a ser) iniciando jornada em direção ao Nordeste.

A subida pelo litoral, Salvador, Aracaju, Maceió, Recife (predominantemente Olinda) e João Pessoa, etapa final da ida. Desistimos de esticar, consoante programação original, até a Praia do Pipa, no Rio Grande do Norte, não pelo acidente provocado pela falésia que ali desabou matando casal e o filho bebê, uma tragédia. Antecipamos nosso retorno em decorrência de motivos outros, o qual se deu por dentro, por BRs e rodovias estaduais que cortam o interior dessa região, chegando a Brasília após dezoito dias de viagem e mais de cinco mil quilômetros percorridos.

E daí, alguém poderia indagar.

Há estados que são tremendos marqueteiros. Pensando bem, a maioria deles, pelos mais variados meios, destila propaganda o tempo todo. Alagoas a rigor não integra esse contingente, é discreto, propala a Praia do Francês, que, aliás, continua linda. Na volta, já renascidos, calhou de pararmos em Delmiro Gouvêa, município pequeno, sem a expressividade desse homem tão relevante para a história da indústria brasileira. No hotel onde nos hospedamos, distante cinco quilômetros da cidade, grandioso, nouveau riche, rolava uma espécie de festa. Em respeito ao corona, nos abalamos para um canto mais seguro, perto da academia e longe da enorme piscina. O casal nessa bolha, a contemplar o céu estrelado, nove da noite no relógio de pulso (sou um dinossauro), quando avultaram em minha mente outros alagoanos ilustres: Graciliano Ramos, Nise de Oliveira, Aurélio Buarque de Holanda e…

Regra geral, consta que no plano da política o indivíduo inaugura sua trajetória pelos meandros da esquerda. À medida que a idade avança, cinquentinha, sessentinha, migra para a direita. O meu quarto personagem alagoano, ao revés, já nenhum menino saiu das fileiras do conservadorismo, da classe dominante, da casa grande, para desempenhar papel de vanguarda em busca de mudanças na sociedade.

Eleição, pelo povo, de governadores ocorrida em 1982 (uma sova no governo federal e na Arena, partido extinto mas vivíssimo até hoje), urgia subir mais um degrau e alcançar plataforma que permitisse atingir sem intermediários o voto para presidente da República. Seria a consolidação da abertura “ampla, gradual e segura”, modelada lá atrás pelo General Geisel (é antiga nossa “vinculação” aos humores dos militares). Como sabido, resultou em frustração a derrota da chamada Emenda Dante de Oliveira, obrigando-nos a aguardar um lustro para implantação do voto direto, período que não se caracterizou pela frustração total porquanto grandes estadistas pavimentaram a estrada esburacada e traiçoeira rumo à democracia. Convalidaram-se as deliberações do colégio que elegeu Tancredo Neves, cuja morte, sofrida pelo Brasil quase todo, não nos impediu chegássemos à Assembleia Nacional Constituinte.

E muito dessas conquistas nós devemos à participação de um alagoano, um tal de Teotônio Vilela, que, mesmo na última quadra da vida, vulnerado por um câncer, singrou o país defendendo medidas na sua essência voltadas para a liberdade e a igualdade social.

Desta maneira o descrevera Roberto Ramalho, jornalista e advogado:

“Teotonio Brandão Vilela, (…), foi um jornalista, cronista, ensaísta, empresário, político, boêmio e poeta, além de ter sido o Senador da Anistia, o Senador das Diretas Já (a idéia de criar um movimento a favor de eleições diretas foi lançada, em 1983, pelo então senador Teotônio Vilela no programa Canal Livre da TV Bandeirantes, o Guerreiro da Paz, o Peregrino da Democracia, o Menestrel das Alagoas, o Senhor Dignidade, e, sobretudo o Filósofo e Humanista que soube olhar com amor e coragem o seu País e reformular conceitos e idéias, quando se fazia e se fez necessário. Para Teotônio Vilela, a liberdade no Brasil deveria ser capaz, sobretudo, de garantir cidadania a todos os brasileiros.”

Para homenagear o grande político, Milton Nascimento (e Fernando Brant) se valera, como sói, da música, que vai aqui cantada por ele mesmo

e, através de outro link, pela guerreira Fafá de Belém, com o auxílio luxuoso do próprio Teotônio Vilela

Menestrel das Alagoas

Quem é esse viajante
Quem é esse menestrel
Que espalha esperança
E transforma sal em mel?
Quem é esse saltimbanco
Falando em rebelião
Como quem fala de amores
Para a moça do portão?
Quem é esse que penetra
No fundo do pantanal
Como quem vai manhãzinha
Buscar fruta no quintal?
Quem é esse que conhece
Alagoas e Gerais
E fala a língua do povo
Como ninguém fala mais?
Quem é esse?
De quem essa ira santa
Essa saúde civil
Que tocando a ferida
Redescobre o Brasil?
Quem é esse peregrino
Que caminha sem parar?
Quem é esse meu poeta
Que ninguém pode calar?
Quem é esse?

#Teotônio Vilela
#Menestrel das Alagoas
#Delmiro Gouvêa
#Fafá de Belém

03/12/2020
(325)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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