Memórias/Memorialista (LXVII)

E o tempo se rói com inveja de mim/Me vigia querendo aprender/Como eu morro de amor/Pra tentar reviver
– Aldir Blanc – 

            No sábado retrasado, assisti na TV ao Fuga de Natal, estrelado por três grandes das artes cênicas de Brasília, Paula Passos, João Antonio e Chico Sant’Anna, que, felizmente para mim, ao longo dessas três décadas de existência do meu Teatro Mapati passaram por lá em algumas oportunidades, não necessariamente atuando.

            Nesse especial natalino, o trio mora num retiro de velhinhos, o popular e discriminatório asilo – a Paula, minha amiga, está lá como atriz caracterizada porque ela não tem idade pra isso, né mesmo? Destaco a cena em que o trio aparece à beira de um laguinho, sentados em cadeiras (de praia?), das quais os dois velhotes se levantam e passam  a competir para ver qual deles é o mais exímio em jogar na superfície da água pedrinhas achatadas e fazê-las deslizar o maior número de vezes. Na infância e na adolescência, fiz muito isso.

foto: Divulgação do filme

            Por coincidência, pratiquei essa “modalidade esportiva” há cerca dois meses numa fazenda em Buritis, município mineiro/goiano distante uns trezentos quilômetros de Brasília. Logo na primeira tentativa… qual um hidroavião, a pedrinha saiu da minha mão e, antes de triscar a água, notei que ela refletira uma imagem de um objeto mal escondido na relva. Fui na direção da margem oposta, me aproximei apurando a vista, era um livro. A capa: Solo de Clarineta. Decerto tratou-se de um sinal para que eu retomasse esse tópico memorialístico e de conseguinte me oferecesse, presunçoso, para prosseguir viagem na companhia do Erico Veríssimo.

            Talvez alguém possa pensar ter sido um delírio meu provocado pelo calor do sol a pino, mas o fato é que me acomodei na vegetação e ali mesmo revisitei outros trechos insculpidos no primeiro volume das memórias desse fantástico escritor gaúcho. A pedrinha igualmente jogada por ele relou primeiro em 1974, ano da publicação do tomo, e logo em seguida foi roçar a década 1930/1940.

            Autocrítica do gênio da literatura.

O leitor deve estranhar a franqueza com que às vezes critico desfavoravelmente os meus próprios livros. Terá o direito de perguntar: ‘Se via defeitos neles, por que os publicou?’ Explicarei que na época em que os escrevia estava tomado dum estado de espírito comparável ao do homem apaixonado quando contempla o objeto de seu amor. Quantas namoradas tive na adolescência que me pareciam as criaturas mais belas e adoráveis do mundo? No entanto, passado o tempo e o amor, com olho neutro pude ver nelas defeitos que não percebia antes, o que não impediu que elas continuassem a viver suas vidas individuais, com todo o direito de serem admiradas e até amadas por outros homens. O mesmo é válido no que diz respeito aos livros que escrevi com cálido entusiasmo e que hoje critico com a cabeça fria. Não posso, não devo negar-lhes o direito de continuarem a circular, pois no fim de contas terão pelo menos um valor histórico, documentos significativos para quem quiser um dia (há gente para tudo) estudar a vida e a obra deste contador de histórias.

            Eis o descolamento. Ao sair do prelo e chegar ao público, desprezada a questão dos direitos autorais, o conjunto de escritos encerrados num livro colhe a orfandade, passa a não ser de mais ninguém. Ou melhor, se transmuda e passa a ser propriedade de todo mundo, menos por assim dizer do escritor. Resta-lhe cuidar das obras futuras. E, no caso de nosso protagonista, o rigor na preparação de novo livro impõe uma pausa, um intervalo.

(…) tomava um banho de silêncio para limpar o espírito da poeira das palavras. Estou certo de que o escritor que produz um livro por ano acaba sofrendo duma espécie de auto-intoxicação: repete fórmulas, ‘cacoetes’, de estilos e até de técnica. Para curar-se desse ‘envenenamento’, o melhor que tem a fazer é deixar de escrever por uma larga temporada, durante a qual deverá ler obras de outros autores, viajar, conhecer gente nova e viver, com a maior intensidade possível, outro tipo de vida. O sucesso é também um perigo. (…). O autor dum best seller pode, inconscientemente, acabar dando sempre ao público o que este espera dele, isto é, a repetição da receita anterior, o adocicado xarope de tão bom sabor e tão grande aceitação popular.

            Por ora, se falou de descasamento entre autor e obra. Não se animem achando que entrarei em recesso. Brevemente, em mais uma postagem deste blog, o pai do Luiz Fernando Veríssimo abordará a relação autor/personagem, que, antecipo, é tumultuada como briga de casal, mas que se limita em ficar no terreno da discussão, no máximo evoluindo para a separação de corpos, para o divórcio, nada entretanto de homicídio, nada dessa tenebrosa, reiterada atitude por todos os lugares de homem matar mulher.

#Solo de Clarineta
#Erico Veríssimo
#Aldir Blanc
#Fuga de Natal

28/12/2020
(326)
mmsmarcos1953@hotmail.com

1 comentário em “Memórias/Memorialista (LXVII)”

  1. Fernando Ferreira De Souza

    Um autor ,caro Marcos ,que eu não leio acho que estou muito eurocêntrico.Solo de Clarineta o dito sobre a obra me chamou a atenção talvez eu leia e saía dessa paranóia de clássicos caucazóides.Belíssimo texto sofisticado como sempre

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