Memórias/Memorialistas (LXVIII)

Tudo sai, e tudo volta pro mesmo lugar. É como se alguém tivesse escrito tudo antes. Somos, talvez, o filme que uma plateia invisível vê. E escrever suas memórias seja quase perfurar a membrana que separa atores e espectador.
– Anderson França –

Vamos dar sequência ao nosso bate-papo – iniciado em agosto do tenebroso 2020 – com o Erico Veríssimo, tendo a última postagem como link, referência direta.

Coitado do escritor (e da escritora). Não é dono de nada, detém sua obra temporária e precariamente, até que a editora o desaposse da sua criação lançando-a no mercado para o apetite voraz (quem dera fosse assim neste Brasil varonil) de leitores e leitoras. Recebe uma indenização (uma paga pelos direitos autorais, quase nunca expressiva) e se vê na contingência de abordar seus livros tão somente em feiras literárias, agora nem mesmo presenciais, desempenhando-se cheio de mesuras e vênias para não dispersar a plateia. Em regra, não se lhe reconhecem as agruras e dificuldades do mister. Julgam que basta inspiração – e pronto, tudo resolvido, livro pronto.

Observem as observações do gaúcho observador das letras.

“Estou convencido de que o inconsciente representa um papel muito importante – mais do que o escritor geralmente quer admitir – no ato da criação literária. Costumo comparar nosso inconsciente com um prodigioso computador cuja ‘memória’ durante os anos de nossa vida (e desconfio que os primeiros dezoito são os mais importantes) vai sendo alimentada, programada com imagens, conhecimentos, vozes, idéias, melodias, impressões de leitura, etc…. O ‘computador’ – à revelia de nossa consciência – começa a ‘sortir’ todos esses dados, escondendo também alguns deles, que passamos anos e anos sem que tenhamos sequer conhecimento de sua existência. Quando, por exemplo, nos preparamos para escrever um romance e começamos a pensar nas personagens, o ‘computador’, sensível sempre às nossas necessidades, rompe a mandar-nos ‘mensagens’, algumas boas – ‘pedaços’ físicos ou psicológicos de pessoas que conhecemos – outras traiçoeiras – recordações de livros lidos e ‘esquecidos’ que nos podem levar ao plágio. Cabe ao consciente fazer a seleção, repelir ou aceitar as mensagens do ‘computador’. Nada do que nos vem à mente é gratuito. Não é possível nem creio que seja aconselhável tentar criar do nada, esquecer as nossas vivências, obliterar a memória.”

Parássemos por aqui, no teor da última frase, sairíamos com ideia errada de que é suficiente para a feitura do livro, do romance, copiar o passado e cola-lo no presente. Avancemos na leitura e tal impressão se dissipará.

Birgit Böllinger from Pixabay

“Muitas vezes leitores me perguntam verbalmente ou por carta se costumo tirar minhas personagens da vida real, isto é, se trabalho d’après nature, fotografando a vida. Minha resposta é negativa. Acho o processo de copiar a vida barato e de certo modo indigno. Lembro-me sempre do conselho sobre a arte de representar que, num romance de Somerset Maugham, um homem do mundo dá a uma atriz: ‘Não seja natural: pareça.’

“Acredito que qualquer homem inteligente pode escrever um romance, que será necessariamente a história de sua própria vida ou de alguém que ele conhece de maneira íntima. Mas de romancistas sei que não se podem livrar da própria memória. Na minha opinião o ficcionista legítimo é um tipo de peixe capaz de sobreviver quando fora das águas da autobiografia. (…). O ficcionista pode usar uma pessoa que conheceu, mas tendo o cuidado de evitar a fotografia servil. É justamente durante esse processo de ‘despistamento’, ou então no minuto em que o autor resolve criar uma personagem sua, sua mesmo, que o ‘computador’ insidiosamente começa a mandar-lhe mensagens, e o autor corre o risco de usar esses elementos com orgulho, demiúrgico, convencido de que está mesmo criando do nada.”

Nosso universal escritor, sobretudo na contação de histórias do Rio Grande do Sul, mantém sadio relacionamento com suas(?) personagens e com bonomia acha graça das peripécias que desafiadoramente elas vão desfiando ao longo das páginas. Por meu turno, eu cri que se apresentavam submissas e reverentes, não davam passo algum sem que nesse sentido partisse voz de comando do autor. Qual quê.

“(…) Outra coisa: uma vez que o novelista põe de pé uma personagem, esta começa a distanciar-se cada vez mais da criatura da vida real que a sugeriu. Os escritores puramente memorialistas devem achar difícil afastar-se do plano inicial do livro. Traçam para suas figuras um destino irrevogável, ao passo que o romancista verdadeiro – bom ou mau, grande ou pequeno, não importa – esse pode dar-se o luxo de conceder liberdade às suas criaturas. Não se surpreende nem se irrita quando elas recusam dizer as palavras que ele lhes sopra, ou fazer os gestos que ele lhes determina. Muito cedo compreendi que quando uma personagem, por assim dizer, toma o freio nos dentes e dispara, deixando-me para trás, é porque está mesmo viva. Dou-lhe carta de alforria e começo a divertir-me com as surpresas que seu comportamento me proporciona.”

Me revelaram que existem mais peculiaridades entre quem escreve a obra de ficção e quem nela figura. Vou pesquisar e depois falo.

#Solo de Clarineta
#Erico Veríssimo
#Anderson França
#Somerset Maugham

15/01/2021
(327)
mmsmarcos1953@hotmail.com

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *