Folha Centenária (III)

Invejo quem escreve de um fôlego só e encerra a tarefa. Sou artesã: escrevo, reescrevo, faço uma faxina meticulosa em cada frase e só me dou por vencida quando já não consigo manter os olhos abertos. Tchau, texto, vai com Deus. Dias depois, quando ele é publicado nos jornais, descubro uma palavra sobrando ou uma vírgula faltando e não me perdoo pela desatenção.
– Martha Medeiros –

Sem fugir do tema em questão, derivo um bocadinho para aludir a outro centenário. Nessa perspectiva, insiro a Folha, momentaneamente, na lista de suplência e convido à cena principal um titular que devido a causas naturais embarcou na quarta-feira, 10 de março, já com cem anos (mais cinco meses) de idade.

Me refiro ao Helio Fernandes, tido como um dos jornalistas mais perseguidos pela ditadura militar, sendo da época em que o ir para Fernando de Noronha não significava experiência paradisíaca. Ali, no chique arquipélago atualmente sem o prenome Fernando e local de pousadas de globetes, o irmão mais velho do Millôr Fernandes (isso é pouco?) desembarcara nos idos de 1964 para, digamos, temporada compulsória. O desterro, uma literalidade, pois que em volta apenas água e mais água.

Eu o li durante décadas na Tribuna da Imprensa e continuei fiel mesmo depois que o jornal, fundado em dezembro de 1949 pelo Carlos Lacerda e de propriedade do Helio desde 1962, migrou para edição virtual em 2008 e na última fase os escritos restaram transpostos num blog (tenho para mim que a produção dele era mais copiosa do que a de todos os autores e autoras de telenovelas).

Jornal TRIBUNA DA IMPRENSA (Hélio Fernandes) Hélio : Eles Precisam Me Destruir Desta Vez, Rio de Janeiro, 10 de Agosto de 1967

Delícia os percucientes apanhados históricos sobre qualquer assunto que intrepidamente ele fazia – muita vez, na condição de testemunha dos fatos, o que conferia uma certa fidedignidade; o acompanhamento folhetinesco e as análises das eleições na Academia Brasileira de Letras-ABL (vejam só, no sentir dele quase tão importantes quanto as de governadores e até mesmo as de presidente da república); e os açoites nos colegas da imprensa, nos milicos da ativa ou da reserva, nos políticos de todos os espectros ideológicos.

Como olvidar os longos textos de suas matérias entremeados com a expressão “que palavra”, a qual vinha entre parênteses, entre travessões ou entre vírgulas e imediatamente após o registro do vocábulo, tipo: “escalafobético”, “uxória”, “beneplácito”, “prestigiamento”.

Atentem para este comentário em artigo de 02.12.03:

“A guerra da Academia – Marco Maciel tem os votos, Fernando Moraes a ilusão. O preenchimento da vaga de Roberto Marinho na Academia começou e continua tumultuado. E a própria Organização Globo contribuiu para isso, ao se arvorar, que palavra, em dona da vaga. Lançou 3 candidatos, sabidamente 2 não aceitariam. FHC por falta de coragem, Oscar Niemeyer por desambição. Desde o primeiro momento, Marco Maciel estava eleito, e fui colocando a questão, não por apreço, amizade ou admiração pelo ex-vice-presidente que tem opulenta biografia acumulada na ditadura. (E na verdade não foi nem é o único que pode ostentar esse dualismo de “grande democrata em plena ditadura”). A vaga de Roberto Marinho será preenchida no dia 18 deste dezembro, a penúltima sessão de 2003. No mesmo dia, por determinação estatutária, a Academia entra em recesso, só volta em março de 2004. Aí, na primeira e segunda quinzenas, elege os futuros ocupantes das vagas de Marcos Almir Madeira e de Rachel de Queiroz. A vaga de Roberto Marinho não é disputada pelo voto aberto e sim pela intriga e falsidade de bastidores.”

Que falta me fará o velhote operário do jornalismo. Muito do intrometido, quebra minha promessa de fechar neste momento os tópicos acerca do centenário da Folha, que ocorrerá somente na postagem a seguir.

#Folha de São Paulo
#Centenário
#Helio Fernandes
#Tribuna da Imprensa
#Fernando de Noronha

24/03/2021
(331)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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