O Bem Amado Odorico

O Brasil não gosta de seu passado, e sempre achamos que não temos direito a futuro nenhum. Para disfarçar, mentimos alegremente sobre o que somos e o que queremos ser. Nunca fomos o paraíso anunciado, enganamos todo mundo com pandeiros, palmeiras e sabiás, com nossos carnavais.
– Cacá Diegues –

Maratona, para mim, é a de Chicago, a de Nova York, a de São Paulo, a do Rio de Janeiro. E eu estou sempre lá, a postos, de camiseta, meia soquete e tênis novos, ritual de aquecimento, fazendo a respiração adequada, concentradíssimo.

Participo da corrida todinha, não me canso nunca, não perco posições, permaneço o tempo todo ligadíssimo na televisão.

https://www.megacurioso.com.br/artes-cultura/117861-o-bem-amado-uma-novela-de-1973-que-continua-atual.htm

Vim a conhecer uma outra maratona pela TV: a das séries de ficção, produzidas aos borbotões, difundem até que, pandemia à parte, elas têm o cunho de expandir contratação de atores e atrizes originários do cinema e do teatro. Não que eu seja adepto, me considero um desinteressado delas, na medida em que fui espectador de pouquíssimas programações desse tipo, me detendo na produção doméstica. Cito a formidável Sessão de terapia com o Selton “Cheiro do Ralo” Melo e uma outra que não é série, senão que telenovela, O Bem Amado, de Dias Gomes.

Inaugurou em 1973 a transmissão em cores da teledramaturgia brasileira, iniciativa dada a público pela Rede Globo (“Globolixo” consoante uma turma de raiz refere). E que telenovela, minha gente. Cuido haver sido malvadeza (lembram dele?) da parte dos irmãos Marinho aquiescer no lançamento da reprise (não sei exatamente em que época, talvez nos anos de 1990, foi levada ao ar uma versão mais compacta, escolhidos os melhores capítulos). Explico.

Primeiramente, devido ao retrato impiedoso da política brasileira por virtude da contação de histórias de uma cidadezinha baiana próxima a Salvador. Segundamente (me aproximo do linguajar do prefeito Odorico Paraguaçu), o elenco de O Bem Amado como que aplica uma sova nessa turma de atores e atrizes iniciantes da atualidade, que logo se julgam celebridades e dignos(as) de ganhar prêmios internacionais.

Tendo maratonado cerca de 150 capítulos da versão integral (portanto, ainda não a revi toda, esqueçam spoiler), me ocorreu descrever termos e expressões mais corriqueiros daquele tempo ditos na telenovela, agora acompanhados de minha “tradução livre”. Periga eu confundir tudo por empregar sinônimos e explicações que nem mais são de uso neste século.

– bater um plá             (conversar sem muito compromisso)
– batuta                       (pessoa bacana, legal; acima, fiz o alerta sobre meu arcaísmo)
– babau                        (acabou, já era, já foi)
– cafona                       (expressivo número de parlamentares – federais, estaduais e municipais -, com suas falas obsoletas, perucas ou cabelos acaju/alaranjado e vestimentas ridículas)
– cafundó do Judas     (determinados redutos eleitorais)
– careta                        (determinadas posturas dos governos nas três esferas)
– cascata                      (determinados discursos no âmbito dos dois poderes – quais?)
– catiripapo                 (um tapinha não dói – se for um tapinha mesmo, e de amor)
– curtição                    (fruição, na hipótese ruim o que determinados/as jovens fazem ao se aglomerar em festas em plena pandemia)
– dando bola               (na ótica machista, quando a mulher fica toda oferecida diante do homem querendo alguma espécie de enrosco, nem que seja por uma noite de prazer; na ótica feminista, uma expressão que deve ser varrida do mapa)
– é dose                       (nada a ver com traguinho de bebida ou com medicamento; significa convivência dos casais dentro da mesma casa nestes tempos de isolamento social
– é uma parada            (nada a ver com milicos e milicas no 7 de setembro nem com ponto de ônibus; é praticamente a mesma coisa de “é dose”
– fatiota                       (vide “cafona” ou o fardão da posse de acadêmicos/as nas academias de letras espalhadas pelo Brasil)
– fossa                         (sofrimento, sofrência)
– fundiu a cuca           (surtou, enlouqueceu, aloprou)
– gaita                         (não é instrumento de sopro – é grana, bufunfa, propina)
– gamado                   (quem está apaixonado por outra ou por outro, com sérias probabilidades de entrar na fossa)
– grilo                          (não é o falante – são caraminholas na cabeça)
– lábia                          (eufemisticamente, poder de convencimento)
– malandro federal      (a expressão é autoexplicativa – e eterna; embora diga respeito sobretudo a quem vem de outros estados para atuar no parlamento em Brasília)
– mandando brasa       (expressão parece que criada pelo Roberto Carlos e em voga há oitenta anos, mora?)
– negacionismo           (essa não estava na boca de nenhuma personagem, me deu apenas uma vontade de espicaçar)   
– não tá cum nada       (postura de blogueiro presunçoso)
– no embalo                 (vide “curtição”)
– ouriçada                   (na ótica machista, quando uma mulher age ou reage como se no quarto da luxúria. Felizmente, elas hoje muita vez se bastam a si mesmas)
– pantera                     (mulher fatal, geralmente da alta sociedade. Algumas são covardemente assassinadas, como a Angela Diniz)
– passarinho verde      (expressão de alumbramento, “parece que viu passarinho verde” – também se aplica quando o/a servidor/a público/a retorna da sala da chefia com a notícia fresca de que será comissionado/a e, pois, o contracheque vai sofrer engorda)  
– pombas                     (termo chulo, ex-cunhado meu dizia, menos falicamente: “Karila”)
– quenga                      (depreciativo talqualmente – Odorico Paraguaçu de novo – prostituta, meretriz)
teretetê                     (enrolação – no Ceará, ao revés mas com o mesmo sentido, o sempiterno desenrolar monocórdio da conversinha)
– tirar um sarro            (debochar, zoar. Mas pode ser entendido como o que homens pilantras e depravados fazem nos ônibus, nos metrôs, nos trens: assediar sexualmente as mulheres)

Porque me faltam predicados, não deverei trazer outra postagem para alinhavar comentários a respeito do desempenho cênico desse admirável elenco de O Bem Amado.

#Cacá Diegues
#O Bem Amado
#Dias Gomes
#Odorico Paraguaçu
#Sucupira

26/04/2021
(333)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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