Memórias/Memorialistas (LXXI)

Sabemos hoje que a memória é absolutamente não confiável. Embora imaginemos nossas reminiscências como um registro preciso e estável do passado, elas são modificadas ao sabor das emoções toda vez que as acessamos.
– Hélio Schwartsman –

Fazia meses que o Pedro Nava não nos honrava com seus ensinamentos; isso pode ser qualificado como insanidade da minha parte. Evoco-o novamente.

No final deste mês aportarei na marítima Minas Gerais, não (por indução) em Juiz de Fora, terra do Nava, maior memorialista do país, mas (por osmose) em Itabira, terra do Drummond, maior poeta do Brasil. Não a conheço ainda, mas na volta a Brasília, no subsequente novembro, terei minha metidez adensada já que, no plano geral tendo ido nessas décadas a todas as capitais brasileiras, algumas em diversas ocasiões, acrescentarei agora mais um município brasileiro a minha coleção de cerca de duzentos já percorridos – não de passagem, senão que incrementando minha estada nessas dezenas e dezenas de cidades por vários dias em cada uma delas, conhecendo-as, pernoitando, me misturando com a população, visitando suas atrações turísticas.

Em aditamento à postagem deste blog de nº 311, de 18.04.2020, agarro as lembranças do Nava, estampadas no volume 4, Beira-Mar, escrito nos anos de 1970 (uma explosão justificada de vendas). A viagem em tela se reporta a 1924 (quando meu pai, Lelio, nasceu, na mineira Carangola) noticiando homenagem a três mestres do nosso autor na Faculdade de Medicina. O navio vai singrando e vejo lá no cais, agitando um lenço roxo, o primeiro deles, Roberto de Almeida Cunha, professor de Microbiologia, por assim dizer um idoso pelos trinta e quatro anos vividos.

O memorialista, para o bem ou para o mal, descreve seus personagens como um legista na dissecação.

“(…) Falava com voz estridente, cheia de altos e baixos de que ele próprio não se dava conta pois era mais surdo que uma porta. Sua elocução era rápida e fácil e assim ele não se atrasava: esgotava implacavelmente o ponto de cada dia. (…) O ensino de Roberto Cunha era a descrição e a história natural do germe patogênico, do seu habitat, caracteres de sua cultura em placa, gelatina e caldo, da sua aparência celular, dimensão, coloração. Sua identificação. Estendia-se sobre sua ação fisiopatológica e alongava-se nos ensinamentos de imunologia e alergia.

Aqui, mesmo que o mestre não tartamudeasse diante do quadro negro, o rapazola, o acadêmico Pedro Nava em pleno ano de 1924 tirava o smartphone do bolso e voava para o mundo dos devaneios. Duvidam?

“(…) Não se interrompia um instante – minucioso, apressado, preciso,  bitonal e às vezes nos confundia um pouco porque nunca dizia – germe da tuberculose, da febre tifóide, do tétano. Fazia questão de dar-lhes nome próprio e eram bacilo de Koch, bacilo de Eberth-Gaffky, Neisser, Weichselbaum, Klebs-Loeffler, Hansen, Escherich, Ducrey, Pfeiffer, Yersin e Kitasato. Nestas horas eu nadava e insensivelmente procurava o céu azul da manhã onde grandes nuvens brancas boiavam como amboceptores cheios de franjas citófilas e complementófilas. Perdia-me…

E o narrador, ressituado, mostra mais retratos do personagem.

“(…) Roberto Cunha era alto, magro, espigado, ágil e simultâneo como nos aparecia nas provas escritas, quando corria de cima abaixo a sala, para evitar colas. Ele próprio gabava-se de que com ele não, que não havia espertalhão que o enganasse e a quem ele desse margem de consultar apontamentos. Ledo equívoco. Fazia-se pior. Já falei de sua surdez. Ela permitia que, sorteado o ponto, esse fosse ditado do lado de fora e em voz estentórica, por cúmplice de outra turma. Todos ouviam exceto o arquiludido professor. Ele admirava-se da excelência das provas escritas de seus alunos às vezes contrastando com orais vagabundas. Só um dia deu um zero na escrita. O pobre aluno era mais mouco do que o professor.

Nestes nossos esquisitos tempos, em que sem cerimônia e sem culpa alunos(as) agridem fisicamente professores(as), em que pretendem transformar escolas em quarteis (não confundir com os legítimos e eficientes colégios militares espalhados pelo pais), reconfortante é chegar às últimas palavras desse perfil do Roberto Cunha, malgrado o arrolamento de doenças, a COVID-19 ainda distante de entrar em campo para matar ou jogar a gente na UTI:

“(…) abria perspectivas mais amplas sobre os grandes flagelos da humanidade. Ele fez passar aos nossos olhos as desgraças das epidemias de peste, varíola, cólera, febre amarela e as do grupo tifo-paratífico; a tragédia das grandes endemias, do paludismo, da lepra, da tuberculose e o problema social das afecções venéreas. Mostrou doenças vegetais como a das vinhas, ameaçando a economia das nações. As animais trazendo consigo o espectro do aniquilamento dos rebanhos e conseqüentemente o da fome. As epizootias, a raiva e o carbúnculo ameaçando irracionais e podendo passar para o homem. Desenhou-nos praticamente desarmados diante dessas irrupções da moléstia que eram como forças desencadeadas da natureza. Nossas pobres tentativas com os soros, vacinas, a imunidade ativa, a imunidade passiva. As vitórias contra a raiva, a difteria, a varíola e o tétano, abrindo horizontes de esperança. E professor fazia luzir os nomes de Jenner, Villemin, Pasteur, Ehrlich, Koch, Roux, Calmette – os homens admiráveis cuja glória sobrepuja a dos guerreiros, dos estadistas e só é comparável à dos grandes inventores, dos astrônomos, físicos, químicos, navegadores, criadores, artistas, poetas, escritores. Faltava-nos agora conhecer de perto a Doença, a Moléstia e aprender como distingui-la dentro desse mundo que é o corpo enfermo. Isto fazia-se estudando os sinais e sintomas que as definem nas duas propedêuticas: a cirurgia e a médica.”

Quem tem parente ou pessoa de convívio próximo exercendo profissão de médico bem aquilata o significado e o alcance de tais palavras, contextualizadas no século passado mas de atualidade impressionante.

O Zoroastro Viana Passos, segundo professor, fica para depois. 

#Hélio Schwartsman
#Pedro Nava
#Beira-Mar
#Roberto de Almeida Cunha

16/10/2021
(339)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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