Meu pai

Sei que quando a gente é menino não é fácil entender, temos certeza que o que sentimos é eterno, não terá fim. O que é ruim, uma hora termina. Mais tarde você vai lamentar que as coisas boas também acabem e, bem mais tarde, você vai perceber que as coisas só são boas porque têm um fim.
– Leo Aversa –

            Todo mundo já ouviu falar de Freud. Tirante a fileira de estudiosos, quase ninguém pode afirmar que conhece em minúcias a obra do chamado pai da psicanálise. As teses do austríaco estão lá nos livros, contestadas não poucas vezes por seus pares, contemporâneos ou não, mas a grande maioria delas se apresenta pertinente e vigorante. A famosinha, ou a famosona, é a do Complexo de Édipo.

            Há também o colega Carl Jung com a sacada do Complexo de Electra. Minha abordagem vai relar outras complexidades, fora desse contexto, já que não há disputa entre filha e mãe, até pela não coincidência do transcurso das personagens, de certa maneira o desempenho no teatro de operações se dá em eras distintas – a filha aqui, a mãe acolá, ou vice-versa.

            O que temos é a filha lançar nos dias de hoje seu olhar lá para o passado no intuito de trazer o pai até nós ou, na mesma direção e noutro sentido, ela se enxergar situada em época remota com o fito de reportar o pai vivinho da silva na luminosidade do presente.

            Não há método no registro feito pela Lu. Avulta tão somente afeição desbragada. Vem como um jorro. Por consequência, sem trocadilho, não comporta interrupções.

“Meu pai ‘saiu’, e saiu pra mim é como se fosse comprar rosca na padaria pra gente tomar café. O único lugar no mundo onde não tenho saudade dele é na nossa casa. Eu entro na casa que nós construímos e eu me sinto em um templo. Ali cada coisa tem o suor e a dignidade dele.

“Me recuso a pensar no meu pai como um finado. Meu pai é vida, risada, café, programa do Chaves e apelidos engraçados, é um ‘pode morar na minha casa sem pagar nada até você se ajeitar na vida, não importa se nunca nos vimos antes, Deus é nosso Pai e você é meu irmão’.

“Às vezes me corrigem e falam ‘para de falar no seu pai no presente, ele não está mais aqui’ e eu sempre penso ‘ele nunca esteve tão presente’.

“E meu pai está presente cada vez que eu ajudo alguém, cada vez que eu escolho seguir em frente, em cada mesa que eu coloco pra minha família, em cada coisa bem feita, ‘bem feita como se fosse fazer pra Deus’.

“Eu no passado algumas vezes sonhei que meu pai tinha morrido e eu sempre tive pavor disso, eu acordava chorando e gritando ligava pra ele, ele ria e me dizia ‘seu pai não morre nunca, todos morreram e eu tô aqui’, meu coração acalmava e eu pensava ‘meu pai nunca vai morrer’ e manuuu, eu me sentia a mina mais rica e emocionada do mundo!

“Quando tudo pareceu desabar, eu choquei, quando ele deixou de ser matéria e virou cheiro, foto, blusa guardada no guarda roupa, quando ele virou um ‘ele gostava, ele ria, ele não ia gostar’.

“Eu precisei inventar ‘um outro pai’. E eu tenho um pai pra mim, e quem quiser achar que meu pai morreu é um probleminha inteiro de quem isso acha. Meu pai vive em mim, eu o carrego em cada instante e desde que eu descobri isso eu ‘não tenho finado nenhum’, quem quiser que seja órfã, pessoa sem pai eu me recuso.

“Ele tá comigo cada vez que eu escolho não chorar; cada vez que mesmo fodida de depressão eu escolho fazer uma prece, ele tá comigo; cada vez que eu escolho seguir em frente e não me vingar… No meu coração eu escuto coisas que ele me diz como sempre disse, “Maria, te levanta, a vida é dura pra quem é mole.’ E cada dia eu piso no pescoço da minha preguiça, piso no pescoço do choro e da desesperança.

“E, mesmo quando tô na rua, sei que ele me assiste de uma nuvem em um banco de praça do céu, daí eu ajeito a coluna, ando linda no salto e bem exibida, de boca vermelha e vestido novo eu penso que ele me aponta do céu e fala prozamigo ‘olha lá embaixo, a minha filha é aquela lá, viu? De boca vermelha e perna de fora! Quer ver? Bora apostar? Ela vai superar tudo sabe pq? Pq ela é minha Maria forte e corajosa!’

“Sabe, pai? Amo tanto, tanto você! E todos os dias eu penso ‘vou fazer melhor, vou lacrar, vou me preparar porque, quando a gente se abraçar de novo, vamos rir porque todo povo do mundo acha que existia pausa, distância, saudade, mas o nosso amor ignorou todos os ‘era vivo’, os ‘finado’, o ‘seu pai é passado, te orienta’, como a bruxa disse.

Lumarialu e seu Paulo

“Meu pai vive, meu pai me ama, meu pai me assiste e tô aqui, sigo vaidosa esperando o nosso encontro e as letras do ‘filme da nossa vida subirem’ com créditos, tipo assim, ‘mina que acertou e nunca acreditou que o pai morreu, nunca mesmo, Lumarialu Maria Maria Lu’, e tantas outras coisas que eu fiz aqui neste curto espaço.

“Mas sabe, eu? Eu sou a mina do letreiro que sobe na tela do cinema da vida ‘E PORQUE ELES ACREDITARAM FORAM FELIZES PARA SEMPRE’. Eu sou desse modelo aí! Sendo Maria Lu que tem o melhor pai do mundo no planeta Goiás. Sigamos, com jujuba e pai pra sempre! Amo vc.

“P.S. Embaixo duas imagens, a primeira eu com uma cara de uma mina bem gordinha e feliz de quem sabe que tem pai pra sempre e na outra é ‘eu mais ele’, era dia dos pais e nós ‘tava puro feliz’”.

#Leo Aversa
#Freud
#Carl Jung
#Lumarialu

13/11/2021
(340)
mmsmarcos1953@hotmail.com

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *