Memórias/Memorialistas (LXXIV)

O dito popular “quanto mais conheço os humanos mais gosto dos animais” expressa o desencanto com o ser humano, os animais não melhoraram, sempre foram ótimos, somos nós que estamos piorando. A ofensa de “animal” não cabe mais, tantas as animalidades feitas pelos racionais. Há toda uma nova cultura de respeito à natureza e aos bichos e ao que eles ensinam, que cresce, vende, dá e tira votos.
– Nelson Motta –

Quem superou a agonia descrita na postagem imediatamente anterior está mais preparado(a) para enfrentar o que estampado adiante.

“(…) O Juca puxou a trave que fechava o ‘tronco’ e o animal, sentindo espaço livre atrás, pôs-se a retroceder seguido pelo amansador, que passou, rápido, por baixo da cerca e, firme na outra ponta do laço, o seguia com atenção.

“Quando o cavalo, saindo do funil formado pela entrada do tronco, se viu no curral largo, desembestou numa carreira furiosa, acompanhado, porém, do peão, sempre seguro à extremidade do laço.

“Após correr assim alguns passos, o Jerônimo estacou de repente e, dando a jeito, com o cabo já esticado, um súbito repelão para trás, obrigou o animal, com o choque, a executar um movimento giratório que quase o tombou.”

Com as posturas de hoje mais ligadas à suavização no trato com os bichos, domésticos ou não, adensa-se a revolta contra aquilo que era tido por natural e até necessário: objetivando comodidades do ser humano e exploração econômica ilimitada, dobrar, subjugar os animais através não raro de métodos violentos e impiedosos.

“Esta operação, a que chamou ‘quebrar’, foi feita por diversas vezes com o fim de amolecer o queixo e o cavalo não ficar ‘desbocado’.

– Agora é chega no tôco, falou o peão, cansado de tanto quebrar o cavalo. Unindo a palavra à ação, guiou com o laço o potro até o meio da arena, onde havia um grosso esteio solidamente enterrado no solo. Firmando-se então com o pé ao toco, o peão deu nele uma volta brusca com o laço. Um dos campeiros, nesse momento, espantou o cavalo para mais perto do esteio, operação já esperada pelo caboclo, o qual puxou a corda que correu pelo esteio como uma roldana, encurtando-a dessa forma para o lado do cavalo e encompridando-a para o lado do domador.”

“Depois da repetição do manejo por mais duas vezes, achava-se o animal com a argola do barbicacho e o focinho encostados ao esteio que resistia estalando aos fortes empuxões.

“O Jerônimo aproximou-se do poste, sempre com o braço firme ao laço esticado, amarrou-o o mais forte possível dando ainda uma volta à argola do barbicacho e ao poste, para maior segurança.

“O cavalo, ao debater-se furiosamente, gemia de dor e com todo o corpo a tremer, enquanto pela boca semi-aberta deslizava, vagaroso, um fio de baba sangrenta.

“Jerônimo, agora, já com as mãos livres, deu-lhe um formidável sopapo, ao passo que berrava triunfante:

– Aí diabo! comigo é nove! Quero vê agora contá prosa!… Eh! sô Bernardino, tráis

o arreio cá pra perto, prá móde vesti o bicho!

“Bernardino arrastou, de uma só vez, os arreios que foram atirados para perto de Jerônimo. O ruído fez o cavalo assustar-se e promover outra série de furiosos pinotes.

– Fica quieto, danado! Gritou o caboclo aplicando-lhe uma chicotada no focinho, provocando novo debater com fúria e desespero.

“Quando o animal se acalmou outra vez, devagar, com jeito, pôs-lhe sobre os olhos um pedaço de pano a fim de o impedir ver as manobras que se seguiriam. Tomou duas grossas mantas de aniagem, luzentes de suor de cavalo e colocou-as lentamente sobre o dorso do pangaré. Este, que continuava a tremer com intensidade, encolheu-se todo, mas sem recomeçar os pulos. Com as mesmas precauções, sobre a manta foram assentados o baixeiro e a velha carona. Quando porém, em cima desta última, procurava colocar o lombilho leve e próprio ao amanso dos animais chucros…”

Tomo fôlego e com prazer registro que nosso herói não se intimidaria fácil, partindo para a devida reação.

“… o cavalo, como revoltado por mais essa ignomínia, pôs-se de novo aos pinotes, raivoso, levantando uma nuvem de poeira colorida pelo alegre sol da clara manhã.

“Tudo o que sobre o lombo da montaria houvera sido posto, foi arremessado para os lados com impetuosidade e pisados pelas patas frenéticas. O esteio, verdadeiro pelourinho do suplício, estralejava amiudadas vezes, rangia, aiava mas não cedia.

“Todos estes movimentos de revolta contra o ultraje à liberdade, tinham por seguimento uma chuva de estrepitantes lategadas sobre o dorso trêmulo da vítima, acompanhada por uma onda de pragas. Regime ditatorial. E, pertinaz, obstinado, teimoso, recomeçou o peão, com a fleugma da certeza da vitória estampada no rosto tenso, todo o trabalho. Cuidadoso, com uma diplomacia de armadilha, foi repondo tudo outra vez sobre o dorso do animal, nervoso e encolhido.

foto: Lum3n PEXELS
foto: Lum3n PEXELS

“Mais feliz desta vez, sobre a cavalgadura viu logo assentados, suadouro, baixeiro, carona, lombilho. Somente faltava apertar a barrigueira, a algema do suplício. Essa que era portátil, foi passada por cima dos arreios, ficando as pontas a baloiçar, uma de cada lado. Com minuciosas precauções, Jerônimo, esticando o braço por debaixo da barriga do animal, tomando a ponta do lado contrário, enfiou-a pela fivela da outra extremidade e num brusco puxão, apertou-a fortemente num ranger de couro espremido. O cavalo deu dois impetuosos saltos e depois, num prolongado gemido, tombou pesadamente ao chão.

– Eh! Diabo, pula agora! Chasqueou o Bernardino pondo-lhe às ancas um cautério de açoites, a fim de fazê-lo reerguer. Era impossível. O focinho preso rente ao poste, impedia qualquer movimento nesse sentido.

– Espera, que eu já te arrumo, disse o caboclo. Sô Bernardino, me ajude desachochá um pouco o laço.

“O campeiro foi bambeando pouco a pouco o laço, enquanto o Jerônimo insensível, chicoteava o poldro que, cruciado, num esbravejar desesperado, conseguiu pôr-se de pé, enquanto o “Bernardino, acompanhando todos os movimentos, apertava novamente o laço há pouco relaxado.

– Cuidado, sô Bernardino! Não vai laceá mais, não! Berrou o peão, pulando para um lado.

– Não há perigo, berrou o outro, sempre com o riso rasgado de vermelho.

– Agora, vai o resto do enfeite, gracejou o peão, tomando o rabicho das mãos do companheiro. E, enquanto falava, ia puxando com o braço estendido a cauda do animal, para a alça do rabicho, até em cima, afivelando depois a ponta da nova peça em uma pequena argola, na parte posterior do lombilho.

– Cadê o peitorá?

– Pronto, sô Jeromo.

“E o Bernardino pôs o peitoral nas mãos do caboclo que o passou pela parte inferior do pescoço do cavalo, prendendo-o pelas extremidades numa fivela, abraçando o lombilho por trás do santo-antônio.

– Falta alguma coisa? Perguntou o Bernardino, vendo o domador lançar uma olhadela para os lados.

– Falta amuntá!

– Arreda pessoal, gritou o Bernardino. E, dirigindo-se a um dos moleques: Antonio! arreia o Pica-pau prá mode servi de madrinha.        

“Encarapitamo-nos então sobre as tábuas da cerca para melhor ver o que ia desenrolar.

“O peão, tendo soltado o cavalo do poste, quebrou-o ainda por várias vezes, após um escoicear impetuoso do animal que se acalmou, como entregue.

“Enfim, ajudado pelo Bernardino e outros camaradas, todos bem seguros no laço, se foi aproximando devagarinho do animal que, de olhos esbugalhados, um tanto atordoado, já não reagia com o ardor de há minutos.”

A história está quase acabando. Todavia, para um desfecho mais ilustrativo da história, determinante é trabalhar na moviola. À terceira e última postagem.

#Paulo Duarte
#Selva oscura
#Nelson Motta

29/12/2021
(343)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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