Cruzamento de palavras

Graças a Deus, ainda me lembro do que minha mãe sempre dizia: ‘quando não tiver um livro para ler, faça palavras cruzadas’.
– Dante Mendonça –

O corresponsável direto por eu ter vindo à luz não era muito dado a se servir daquilo que existe nas estantes das bibliotecas, o que não se coadunava com a marca de sua família da mineira Carangola, formada por gente das letras, bem verdade que letras mais voltadas para a ciência do Direito. Se meu avô paterno fora delegado de polícia (das antigas), o tio de meu pai pelo lado materno era jurista de nomeada, havendo aliás participado com destaque da elaboração do código de processo civil brasileiro de 1939.

Pulo para outro galho da árvore genealógica e, na toada de valorização das mulheres, recordo caso pitoresco a envolver a irmã mais velha de minha mãe, uma criatura engraçadíssima que lá de Cabo Frio nos deixou ano passado no frescor de seus 93 anos, invectivando o comportamento de uma das principais cuidadoras dela mas a quem no fundo adorava – uma dupla cujas proezas difundidas em vídeos pelo zap a parentada curtia religiosamente, inclusive minha netinha à época com 4 aninhos.

Liguemos o ar condicionado.

Minha tia Bebel, retornando duma feita ao “sossego” do lar, suarenta após enfrentamento na batalha contra a canícula (civil, gente) do Rio de Janeiro dos anos de 1960, sobraçava livros comprados para o filho, o primogênito da linhagem, que àquela altura, e por força dos mandamentos da hierarquia, começava a sentir calor que provoca arrepio. Esse indivíduo o mais “idoso” da primaiada dava expediente na praia do Leblon tirando jacaré, mas àquela altura no recesso do ap tomou um caldo (hoje, diríamos uma vaca) logo depois de ouvir da mãe, que apontava  para a pilha de volumes didáticos de quase um metro e com o jeito autoritário típico do povo carioca:  “Mocinho, vou ficar muito satisfeita se você der uma lidinha ao menos no prefácio desses livros que me custaram os olhos da cara.”

Voltando ao galho de árvore inicial. Meu pai podia não ler muito – mas por décadas curtira diariamente a seção de palavras cruzadas publicadas nos jornais, mormente a extinta “Última Hora”. E por que estou trazendo isso?

foto: arquivo Marcos Martins

Um belo dia, ao sair do elevador, estranhei quando vi sobre o tapete da porta de casa um bilhete; me abaixei para pegá-lo. O bem escrito recado capeava um caderninho que, em vez de reclamações e fofocas da copa/cozinha do meu prédio, continha “desafios literários”. Havia sido posto no capacho pela moradora do apartamento quase em frente ao meu, 1307. Minha sensação foi de alegria. Afinal, vizinhos e vizinhas avizinhando com vizinhos e vizinhas é acontecimento raro, vivemos milênios e milênios sem conhecer o nome deles e delas, quem dirá o tipo sanguíneo.

“Bom dia, vizinhos!!!

“Sempre pego os jornais que vocês colocam na lixeira e a primeira coisa que costumo ver são as palavras cruzadas respondidas.

“Elas eram meu passatempo favorito na adolescência, traz uma emoção boa vê-las, por isso trouxe essa lembrancinha, caso vocês compartilhem do mesmo gosto. Léia 1305.”

O mimo me inspirou a redigir a vertente postagem neste blog (o do Teatro Mapati) onde me escondo há quase dez anos, o mais das vezes falando para as paredes. Para a presenteadora lê-la, eu teria de saber o seu número de cel de sorte que doravante ela também passasse a receber rotineiramente o link desses escritos, sofrimento nem tão grande assim, pois que são dados a público em intervalo de um mês. Foi o que fiz: ela já compõe a nau de quem finge me acompanhar aqui. Valeu, vizinha.

Na próxima, a de número 350, provavelmente discorrerei sobre a profissão de fazedor de palavras cruzadas.

#Dante Mendonça
#Palavras cruzadas
#Última Hora
#Teatro Mapati

08/05/2022
(349)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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