Cruzamento de palavras (II)

                                                          Palavras não ressoam apenas no cérebro, mas também nos ouvidos – no corpo todo.
– Sérgio Rodrigues –

neurocirurgião Sanjay Gupta declarou há poucos dias a O Globo que praticar “atividades cognitivamente estimulantes é essencial para manter o cérebro saudável e a mente afiada. Fazer palavras cruzadas, quebra-cabeça e sudoku ajudam. Eu já estava me sentindo o máximo, o zé saúde em pessoa até ler na sequência da matéria que o ideal mesmo é procurar aprender coisas novas, que realmente desafiem sua mente. Vale aprender uma nova língua, fazer aulas de música, pintura ou culinária ou ainda participar de um grupo de escrita criativa.

Desconsiderarei que o nominado médico americano  desconsiderou as palavras cruzadas. No mesmo passo vou desconsiderá-lo em suas demais lições e tecer considerações a respeito desse jogo praticado de ordinário pelo pessoal de idade mais avançada (avançada para onde? para o quê?). Dou início ressaltando as fontes das definições – Wikipedia e os dicionários Popular e Priberam.

  • Nunca, jamais, em tempo algum, use lápis para fazê-las. O apagar os erros com a borracha e reescrever as letras encadeadas que formam corretamente as palavras denota antes covardia e dissimulação. Quem for se deparar com o jornal jogado no chão da lixeira, como fazia minha vizinha aludida na postagem anterior, achará que este morador terminara sem reparos a tarefa classificada como entretenimento, que foi preenchendo tudo sem hesitações, sem erros, lia as horizontais e as verticais e ato contínuo o grafite consignava precisamente o significado de tudo aquilo. Tem que ser com caneta mesmo, tinta vermelha ou azul, bem forte, bem nítida, rabiscos por todos os lados, de maneira a evidenciar os vacilos, as hesitações do jogador.
  • Um dos grandes dilemas dos(as) cruzadistas é decidir se vai desde logo dar uma olhadinha ou não na cola ao lado. O Correio Braziliense, por exemplo, retrata o quadrado (ou o retângulo) inteiro, ou seja, totalmente preenchido. Ocorre que o faz apenas às segundas-feiras. Nunca entendi o porquê dessa semanal “colher de chá” (“a expressão passou a ser usada para as situações cotidianas, definindo uma ajuda dada para quem precisa.”) Combinado: quem não precisa deverá ignorar a colher e o chá (bebida preparada através da infusão de folhas).
  • Já em referência às palavras lançadas na cola lá embaixo, no rodapé (pecinha discreta que serve apenas para dar acabamento à parede), usem-nas somente na hipótese de se darem por vencidos e incompetentes para arrostarem sozinhos as tramas da língua portuguesa – mas ainda assim com parcimônia (ato de poupar, de economizar, de despender moderadamente).
  • Durante a empreitada, ora encontramos mar encapelado (encrespado), ora as águas semelham um espelho. No primeiro caso, as perguntas abarcam (sem trocadilho) gregos e romanos, Egito antigo, personagens bíblicos (o parentesco é complicado pacas (abreviação de “para caramba”, muito, bastante, demais). No segundo, o da calmaria, festejamos as interrogações sobre sufixo e prefixo, siglas, iniciais de nome de celebridades, que podem ser políticos, atores e atrizes, escritores e escritoras, cantores e cantoras (dá trabalho essa questão de gênero. O todes é solução?).
  • E quando, por falha de vista cansada (não é o meu caso, sou um menino), erra-se a direção da setinha? Aquela que fica dentro do quadradinho e aponta para que lado vão ficar dispostas as letras formadoras das palavras objeto do desafio. Às vezes, o passatempo nem é tão difícil assim, todavia pode levar horas porque a resposta fora escrita “na vertical” quando a setinha indicava “na horizontal”. Até nos darmos conta disso, os rabiscos (em vermelho ou em azul, lembram?) já mancharam tudo, borrando também as palavras acertadamente postas, um horror visualizar o quadro, vontade de jogar na lixeira mesmo sem rematar o trabalho.
  • Cruzadista dos quatro costados (autêntico, genuíno, pelos lados dos avós paternos e maternos), aprendi que fogo/água/terra são elementos que regem os signos. Agora, como se opera tal regência saberei apenas na próxima reencarnação, se bem que os piscianos, dizem, não voltam mais à Terra.
  • Dias atrás, fora do recesso do entretenimento em foco também aprendi, lendo um trabalho de faculdade de educação física, cursada por amiga minha, o que é salutífero (consultem o dicionário), uma boa palavra para figurar em palavras cruzadas.
  • Pegadinha, ou tornar a coisa mais complicada: em vez de “letra no formato do rodo”, aquele que é utilizado para escoar a água provocada por enchentes (quanta tristeza em Pernambuco), a pergunta maliciosa é “letra no formato do rodo do crupiê”. Isto é, o gajo ou a gaja (qualquer pessoa cujo nome se desconhece ou se quer omitir) tem que entender de cassino, de pano verde.
  • Por último, pecado mortal é a revistinha ou o jornal repetir palavras cruzadas já publicadas em edição anterior, a chiadeira é generalizada.
  • Falando em repetição, não há nestes assombrosos tempos quase nenhum artigo/análise/crítica/crônica em que não apareça o vocábulo “assombrar” (façam o teste). Antigamente, era “empoderar”; mais antigamente ainda, era “narrativa”. Ou seria o contrário?

Concluo esta postagem e me apresso em jogá-la na lixeira do meu prédio.

#Palavras cruzadas
#Sanjay Gupta
#Wikipedia
#Dicionário Popular
#Dicionário Priberam

06/06/2022
(350)
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