Alguns guardados (II)

Cada indivíduo faz a delação premiada que merece. Sou vascaíno, não desejo acabar em Bangu.

Se por desdita me conduzirem coercitivamente para hospedagem no aprazivel resort do bairro do subúrbio carioca onde um dia sediada famosa companhia de tecidos, baterei o pé e levarei em minhas mãos dez ventiladores (cinco é pouco), celular com internet e livros.

Livros dos memorialistas que pontificam neste blog. Também manuais de Direito – no propósito de recuperar meus malogrados anos de UnB (pela incompetência do aluno e não pelo fantástico corpo docente, ideologias à parte), logrando enfim aprender rudimentos da ciência que hoje tanto encanta e seduz profissionalmente as mulheres, em profusão candidatas a delegada, promotora, procuradora, juíza…

Entrementes, através de vazamento seletivo, revelo passagem da existência de moça visitada por um passarinho arauto do rei.

SENTENÇA

batem à porta
chega a intimação
fica a partir de agora instituído o ato NÃO, que se seguirá de algumas ações:

– não poderás chegar perto
– não poderás ligar
– não poderás zapear
– não poderás perguntar “como estás”
– não poderás dizer “bom dia”
– e, para que fique registrado, não poderás olhar quando esbarrar na rua

este decreto entra em vigor sem o teu consentimento,
ato de laterais e nada coletivo
cumpre tua punição eternamente
e é bom mecanicamente entender que não deverás esboçar emoção,
seu bem querer e amor morrem aqui

a moça, perplexa diante daquele ato complexo de dolorosas e imediatas ações, calou-se por uma semana

foi conduzida à cela do esquecimento e conviveu com as frias paredes sentinelas por ter roubado beijos e muitos sorrisos

pena cominada sem apelação
enquanto tentava situar-se naquele quadrado, seu coração transbordava mantras solenes de bem querer, escondida dizia bom dia, boa tarde e boa noite
singelamente tocava a face de quem a fizera chegar até ali, sim, desenhava,
até que lhe tiraram papeis, lápis, tintas…
ainda assim, sem nutrir raiva continuava a cantarolar
poesia saía de sua boca e saía aos montes, tudo era motivo, tudo era bem querer

da pequena janela no alto do quadrado era visitada pelo luar
certa vez fez um acordo com a lua para que ela lhe visitasse com seu amor
e sempre piscasse, encobrindo-a de energias cósmicas de bem,
paz, beijos no cangote e ternura
em troca de sempre dizer-lhe poemas em voz alta pois a lua, dona da noite, adorava ouvir histórias, poemas, prosas e até mesmo desencontros dos casais, era a forma perfeita e poética de viver aquele tempo enquanto o sol,
dono do dia, não vinha para com ela trocar de turno
transcorriam-se os tempos de sentença
e aquela moça nunca recebia ninguém, a lista de ações erigia normas dizendo para permanecer só, as visitas representariam uma ameaça à “estabilidade” composta na vida alheia
explico melhor, é que da moça brotavam flores na cabeça, seu olhar era ternura, sua voz musicalidade pura, em suma: sua paixão era apaixonante,
portanto, contagiante

há quem um dia proclamara que o certo era enviá-la para um hospital com tratamento de choque de realidade, mas isso não surtiria efeito, pois para eles tal doença não tinha remédio, se bem que temiam o crescimento dela e a cura dos enfermos da clínica porque certamente seu toque nos corações faria avanços alheios, provocaria visões de que o amor é o caminho certeiro, o amor recupera!

com o passar do tempo, aquela imagem viva em sua memória
foi ficando fraquinha
quedou uma semana sem desenhar, sem escrever,
sem falar bom dia, boa tarde, boa noite
começou a ficar inquieta, ensaiou um grito quero um advogado, questionou Deus a respeito de tudo o que havia passado, a revolta se fazia…

quando numa manhã, deitada no chão,
acordou-a uma fresta de luz que irradiava em seus olhos
abriu-os lentamente e avistou ali próximo um pequeno pássaro que dava pulinhos de um lado para o outro procurando migalhas de comida, e ele cantava
havia naquele ato um tom solene e ao mesmo tempo hipnotizante

ouvem-se passos no corredor, a tranca da porta destrava-se
a moça ainda desgrenhada e sonolenta levanta-se
para sua surpresa, um decreto se fez presente num outro ato,
carne, osso e beleza
enfim, estava livre, o amor a absolveu!

dayse hansa
dh
bsb, 9 de maio de 2015

230_poema_Dayse

04/02/2017
(230)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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