Alguns guardados (III)

Enquanto circunavegam o mundo brutalista, retratado nos telejornais diários, máxime quando abordam temas da área da saúde, os poetas arrefecem a polarização e as iniquidades e nos enchem de coragem para derrubarmos a frustração generalizada.

A celebridade do momento é o sarampo, recidivo porque era doença típica da época dos meus primeiros anos, que desbancou a modernosa dengue com suas vertentes funéreas.

Nesse panorama de endemia, a imprensa se abala para postos de saúde(?), centros hospitalares, Upas, onde repórteres percorrem aquelas desalentadoras salas de consulta, poucos enfermeiros e médico quase nenhum escalados para acudir população geralmente idosa e em estado de sofrimento.

O local, todavia, pode ter lá seus encantos na perspectiva do atendimento clínico de que resultará aproximação de pessoas por virtude da mirada poética da paciente.

Paciente que, a bem dizer, tem o vezo de esconder seus devaneios, o que de toda forma se mostrou ineficaz. Num belo dia (ou foi de madrugada?) conseguira este blogueiro invadir o esconderijo da artista talento a perder de vista e de lá subtraíra monte de guardados para o fim de torná-los públicos e objeto de admiração geral.

Divulgo pela terceira vez mais uma peça lírica do acervo, justapondo um alerta: o título (do poema? da crônica?) nada tem a ver com a residência e com o lugar de trabalho de um certo presidente sob ameaça do vento estocado do impeachment.

a casa branca

a porta
a espera
cada abertura uma expectativa
a porta abre, então vê-se um balé de cabeças virando, rapidamente ela se fecha, logo, os corpos retornam às posições iniciais e a trivialidade continua ali.

a porta
novamente a espera…

um senhor saca do bolso do casaco um livro de palavras cruzadas já meio puído de tanto uso.

ali próximo, uma mãe segura seu filho conduzindo um dos atos mais maternais, a amamentação.

logo em frente uma jovem muito ansiosa, aguarda um retorno.

mais à frente uma senhora com um olhar distante, distante, distante…

no final do corredor uma pia, cuja torneira com defeito embala em meio àquela agitação toda, pausas de 17 segundos em minha observação e: grupt.. grupt.. grupt..

novamente a porta
sai dali uma massa de pessoas com suas vestes que nunca saem da moda, infelizmente, também posso dizer que, no caso de alguns, o mal humor também não.

porta fecha, novamente a espera.

de repente um ar de irritação se alastra pelo corredor e as pessoas vão concordando umas com as outras como numa ola mal orquestrada, sim, alguns não falam, outros nem sabem o que estão fazendo ali, e assim o furdunço chega de vez.

porta abre e um som abafado sai de dentro: senhora dayse de han… de hans, hannn…, enfim, senhora dayse. 

(opa, chegou minha vez)

ao levantar-me ouço uma queixa inquisitória: eu cheguei antes dela e não fui atendido, como pode, só pode conhecer alguém lá de dentro, só pode.
(procuro não dar ibope)

porta fecha.

tum tum, tum tum, tum tum.

20 minutos se passam.

ali, no branco gelo e gelado consultório me reconcilio com minha mente, apesar de tudo.

– está tudo bem, né, doutora?
– sim, chame o francisco agora para mim.
– doutora, é dayse hansa.
– hansa?
– isso.
– bonito.
– obrigada, doutora.
– por nada, até a próxima consulta e não esqueça os exames, ok?
– tá bom, bom dia, doutora.
-bom dia, vá com Deus.
-sim, estou com Ele, com buda, com shiva, com xangô.

ela sorri, eu também.

dayse hansa –

Bsb, 05/06/2014

foto: Dayse Hansa

#sarampo
#dengue
#UPA
#Dayse Hansa

13/10/2019
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