Alguns guardados

Em 2015, isto já foi dito aqui, o site do Teatro Mapati foi invadido. Me parece euforia mórbida a dos hackers, que de forma clandestina e deletéria avançam nas páginas da internet com o fito de vulnerá-las. Não compreendo a fissura desses malucos em atingir a integridade dos dados e informações eletrônicos relativos ao nosso centro cultural, voltado predominantemente para as artes cênicas e onde nada existe de valioso em termos materiais.

Deixando para lá os celerados, conforta saber que obtivemos certo êxito na recuperação desses arquivos. Entre os conteúdos perdidos, estavam algumas criações da Dayse Hansa. Por mais tentássemos, fracassávamos no intento de localizar poemas, crônicas, trechos soltos da lavra da produtora do Mapati.
Até que os poetas do núcleo duro mas terno deste blog, todos desgarrados de suas terras de origem – em Belo Horizonte, a carioca Norma; na Capital Federal, o piauiense José Rodrigues e a paulista Dazi -, se agarraram numa corrente pra frente (sem o Médici) e lograram (poetas nos enganam) resgatar alguns textos escritos pela Dayse.
Fizeram-no, é bom ressaltar, pelo mais lavado (epa) interesse corporativista: ouviram comentários de que o poeta Manoel de Barros protagonizaria um desses registros extraviados.
 

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Convenção das letras no céu

Pessoal! Acabamos de receber a confirmação de que Manoel de Barros também já está a caminho de nossa convenção das letras.

(após a chefe das inscrições – nada mais, nada menos que Cecília Meireles – terminar seu anúncio, eis que na sala todas as pessoas, entusiasmadas, batem palmas, com exceção de duas: Ubaldo e Suassuna).

Gabo (que gostava de tá ali no meio da turma brasileira), com um sorriso maroto, solta:

– Manoel, lembro-me dele, grande escritor-poeta brasileiro, aquele cujo menino gostava de carregar água na peneira. Sempre desconfiei de que esse menino era um dos meus que moravam em Macondo. Como se alardeia por aí que só dez por cento é mentira, fico mais encantado com suas aventuras. Ansioso.

Ubaldo, no canto da sala, já prepara uma crônica; inspirado na doçura de Manoel, dedica-se ao tecer das letras, propiciando palavras leves e mastigáveis. Em realidade, um desafio para quem uma vida toda escreveu sobre o cotidiano de uma sociedade tão errante.

Rubem ali, na biblioteca-café, arruma o compêndio e delicadamente tira um de seus livros. Tomado por leitura extasiada no correr de muitas horas, a longos goles de mate, grafa em um pacote inteiro de guardanapos homenagem a seu grande amigo que valorizava as coisas imprestáveis e dizia que Barros com elas fazia poesias ao brincar com as palavras.

A princípio o mais indiferente de todos àquela notícia, provocado no entanto sobre não ter dito nem esboçado nenhuma reação, Suassuna abre o verbo com dedo em riste: 

– Rapaz, tô aqui matutando como farei para pedir uma audiência a Cora e a Guimarães, pois esse moço que tá chegando aí é muito do porreta e preciso arrumar um jeito de escolher uma pinga bem das boas para amolecer as ideias dos três. Sei que do encontro sairá o seller-best do século e é claro que não posso estar de fora dessa.

E continuam os preparativos para a grande conferência, marcada para as 23h59 do dia 31 de dezembro de qualquer ano.


dayse hansa
dh
bsb, 13/11/2014
 

 

22/12/2016
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mmsmarcos1953@hotmail.com

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