Alice

Numa postagem anterior, referi uma Alice – que não a minha adorada netinha caçula -, acerca de quem apresento o registro abaixo, dolorosamente, na esteira da semana da trânsito, realizada nesse setembro último, campanha que já contou com participações do Mapati. Aliás, um de meus ex-cunhados, médico, trabalhou muitos anos
no projeto chamado Anjos do Asfalto (salvamento de vítimas
de acidentes nas estradas),  tendo sido seguido por um dos filhos dele, meu sobrinho (também médico), o que me causa muito orgulho.
A licença e a tolerância de vocês para o compartilhamento, intitulado “Tempos depois”.

“13 de novembro de 1975, às 21h50. Voltava do aeroporto,
onde fora deixar minha irmã. Na 306 Sul, desembarcou
uma amiga nossa, o que me obrigara a descer pelo comércio 105/106, em direção à Asa Norte. Afligia-me a perspectiva
de perder o jogo Botafogo x Corinthians, já então televisado,
mas a chuva torrencial daquela noite não autorizava qualquer extravagância ao volante. Fiz o balão, comecei a descer a rua, “Casa das Cortinas” à direita, “Maria Chiquinha” à esquerda. Antes de chegar à padaria e bem antes de transpor o local onde hoje está instalado o sinal, ouvi o baque surdo. Em terceira marcha e em velocidade crescente, apertei imediatamente
o freio e desci do carro. Horror. O clarão dos relâmpagos destacava o corpo no caminho do aguaceiro. Quando corri,
no intuito de retirá-lo dali, daquele banho macabro, Tereza, minha mulher, saiu do  carro e desmaiou, também no meio
da rua, um pouco abaixo. Sem saber, 
avant la lettre,
eu protagonizava a “Escolha de Sofia”. A quem socorrer?
Na dúvida e no desespero, veio meu grito de socorro. O barulho do céu atrapalhava; a fraca iluminação dos postes daquela época, aprimorada tantas vezes de lá prá cá, não favorecia divisar
os personagens. Até que dois rapazes aproximaram-se
e foram acudir a minha mulher, enquanto que, ajudado
por um soldado do exército à paisana, eu já cuidava no outro polo de levar o corpo para o meu carro a fim de empreender
a terrível viagem ao pronto-socorro.     

A notícia do traumatismo craniano, dada  de maneira gélida
e burocrática pelo funcionário de plantão, derrubou-me.
O fusca, um carro amigo de todo mundo, avultava como circunstância agravante, na medida em que sua frente arredondada servira para projetar o corpo de encontro à coluna do vidro dianteiro, parte contundente na qual bateu a cabeça
da vítima. Iniciava-se, ali, uma trajetória de luta contra a morte
de uma pessoa num funesto episódio em que eu fora escalado
para participar como agente ativo. Depois de cinco dias
no Distrital, hoje Hospital de Base, já na enfermaria, Alice, menina desprotegida, com o rosto ainda muito inchado, começou a apresentar alguns progressos e até já se sentava. Mesmo assim, decidimos, eu e a família dela, que  aconselhável  era tirá-la dali, removendo-a para onde pudesse ter mais cuidados médicos, e conseguimos interná-la no Hospital
das Forças Armadas. O estado de saúde continuou a ter significativas melhoras, até que, por telefonema
de uma enfermeira que não quis se identificar, soubemos
que Alice havia caído da cama, vindo a falecer dias depois,
em 25 de novembro de 1975.

Esse tombo malfadado jamais me trouxe a convicção
de que sem ele Alice teria sobrevivido para completar 19 anos
de uma vida simples e decente que até hoje pulsaria.
Considero-o, antes, um aspecto incidental de todo esse enredo.
O fato maior, preponderante e decisivo foi o atropelamento,
que em definitivo interrompera uma volta para casa depois
da aula noturna.  A partir daí, o mês de novembro passou
a significar para mim tristeza, saudade, perda.

Com a denominada  justiça dos homens já me resolvi,
pela declaração formal de inocência. É o bastante? Talvez, não.
A que existiria lá em cima ainda está me esperando.
Por enquanto, tento dialogar com minha consciência.
O papo às vezes é muito difícil, não exatamente devido a culpa, que, acho, não tenho. Era virtualmente impossível enxergar aquele vulto que, após o término da aula noturna na Escola Classe 106 Sul (onde concluí meu primário), atravessava a rua alagada e quase deserta ou no meio dela se postava no aguardo da passagem de algum carro que vinha da parte de baixo
da rua. Não vi, não vi e não vi nada, nem ninguém, tampouco
a perícia ao depois conseguiu chegar a alguma conclusão sobre
a real posição geográfica da infeliz pedestre. Mas mesmo assim não me conformo, não me conformarei nunca. Por que não vi antes? Ou melhor: por que não me foi permitido ver? Alice,
eu teria freado, desviado o carro meio metro para a  direita,
e então o pára-lama esquerdo não a teria atingido. Oxalá
a gente se encontre um dia, no país das maravilhas. Até lá. Marcos”

 

5 de outubro de 2013

(011)

mmsmarcos1953@hotmail.com

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