Arte sobre rodas (II)

Estávamos em Rio Branco (AC). Cidade bem traçada, razoavelmente limpa, simpática e acolhedora. Porém, distante, muito distante
de Brasília, 3.200 km por via terrestre.

Imaginem vencer esse percurso de caminhão, seguido de micro-ônibus – a fronteira da Bolívia, à nossa esquerda, não acabava nunca e nossa delegação, de 17 pessoas, afligia-se com aquele cenário. As Farcs
são (ou eram) da Colômbia, mas e se ali, por trás daquela fileira
de árvores, houvesse alguma sucursal dessa turma adepta
de um sequestro? Já cativos, cumprindo rapidinho ordens do bigodudo comandante do destacamento, teríamos de encenar a cada dia uma nova peça para não cair o moral da tropa, pena de nos jogarem num buraco cheio de serpentes e cobras venenosas.

Na praça escolhida para montagem do palco, avistamos ao longe
uma moça que vinha em nossa direção. Aproximou-se de nós e começou a se enturmar. Comunicativa, educada, elegante, bonita, despertou vívido interesse em boa parte de nossa turma. Mas os admiradores logo se viram desencorajados porque ela era casada – e casada
com um delegado da Polícia Federal. Ainda bem que todos ali tinham um pouco de juízo.

Momentos antes de iniciar o espetáculo e como eu fazia quando participava da jornada (por causa de meu trabalho, nem sempre
eu podia viajar), subi no tijolo, quer dizer, no veículo e comecei a falação (os atores e atrizes debochavam muito daquele burocra enxerido
a invadir o espaço deles). A história do Mapati, as suas principais atividades artísticas, a peça a ser encenada, blá, blá, blá… e esse último “blá” consistia nas referências às impressionantes características
da região. E o carioca /candango supliciava os espectadores: tome matas, índios, seringueiros (Chico Mendes já tinha ido, covardemente assassinado), ecologia (Marina ainda não havia chegado nacionalmente), fronteira com o Peru.

FIG3post6

Terminado o sofrível discurso, “descidas” as cortinas depois das últimas palmas (o povo gostou da peça), a beldade (não me lembro
se era acriana ou moradora de lá há muito tempo) veio falar comigo. Metido, pensei que ouviria alguns elogios ao desempenho dos artistas. Sem querer ser engraçadinho agora, a esposa do policial estava
uma arara. Minha sorte é que, diferentemente do marido, não portava arma. Como que vociferou, deblaterou e me lançou esta: “Vocês vêm aqui e exaltam a floresta, a fauna, as ervas medicinais… Não aguento mais isso. O pessoal acha que somos o quê? Por acaso ficamos aqui
só cultuando a mata. Que saco esse negócio de ecologia. Na nossa cidade, tem shopping, tem roupa de grife, tem boteco, vida noturna”. O recado era em síntese: “Aborígenes é a pqp”. E eu, pseudourbanóide,
me achando, me vendo ao lado dos “nativos”, antropologicamente integrado a eles. Valeria a pena saber o que, de lá pra cá, ela teria feito com os turistas ecológicos, com os membros do PV, com a turma
das ONGs chegada a uma mata e protetora dos miquinhos…

 

13 de setembro de 2013

(006)

mmsmarcos1953@hotmail.com

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