Bacenianas (2)

Naquele 1972, o Banco Central se espalhava por vários pontos de Brasília. Os diretores e assessoria, em dependências mais confortáveis e luxuosas, como sói, despachavam na sede do Banco do Brasil, prédio verde azulado/azul esverdeado no Setor Bancário Sul, o qual, nos dias de hoje tendo à frente a Estação Galeria do Metrô (a última greve foi cansativa e ruim pra quase todo mundo da capital e do entorno), não mais é de propriedade da instituição financeira pública federal que adora um PDV: foi alienado a terceiros.

Alguns setores do Bacen ficavam no Edíficio Vera Cruz (depois, abrigados nos vizinhos Brasal I e Brasal II), enquanto que a Gerência do Mercado de Capitais (com um dos setores embrião da CVM – Comissão de Valores Mobiliários), a saudosa Gemec, onde me lotaram, funcionava no Edifício União, também no Setor Comercial Sul, o primeiro da fila daqueles dominós em pé e defronte ao Hospital Distrital, cujo nome restou mudado para Hospital de Base (os serviços médicos melhoraram?). Não me perguntem o porquê da alteração.

foto: Marcos Martins
foto: Marcos Martins

Este blogueiro integrava a turma dos calouros (agora, chamam de fraldas), tendo sido alocado no 13º andar (seria no 14º?). Para chegar à minha mesa de trabalho, ou bureau, na linguagem de Pernambuco (birô, sotaque delicioso), necessário era cruzar a sala ocupada por três autoridades, o gerente adjunto, Amílcar Filgueira (homem educadíssimo), e dois chefes de divisão, Carlos Noronha (que saudade do seu Noronha, precursor dos esportes na Asbac) e Marizes de Assis Sousa, ainda entre nós, sacudido, em marcha para os oitenta anos, se é que já não chegou lá. No estamento militar, os postos corresponderiam a general de brigada, o primeiro, e a coronel, os dois outros chefes. O gerente, o titular, o chefão de todos e todas, Ari Cordeiro Filho, um menino de 32, 33 anos, mandava, e mandava muito, mais do que boa parte dos ministros de Estado, com quem me reencontrei funcionalmente passadas duas décadas, ele um eficiente e operoso advogado com atuação na iniciativa privada.

Na minha patente de suboficial, até por minha idade, a de jogador de futebol da categoria sub-20, eu transpunha aquele ambiente -acarpetado e sóbrio, silêncio absoluto, apenas o ar condicionado de janela bombando, frio glacial -, eu fazia aquela travessia em atitude respeitosa diante de senhores da alta hierarquia situados na faixa de quarenta, cinquenta anos. Nenhum deles ainda pertencia ao quadro próprio (o que aconteceria anos após), implantado havia cinco anos, portanto em 1967, mediante concurso público.

A propósito, o Bacen desde aquela remota época se estabelecia, na área de recursos humanos, como entidade de vanguarda e democrática no atinente à política de recrutamento de pessoal, na medida em que, à exceção dos poucos servidores e servidoras originários da Sumoc – Superintendência da Moeda e do Crédito e dos terceirizados e terceirizadas (indispensáveis a qualquer órgão se escolhidos sob critérios técnicos e profissionais), ninguém ingressava na autarquia sem passar pelo certame público, e isso mesmo antes, muito antes da Constituição Federal de 1988, que passou a vedar ingresso de pessoal via contratação direta. Ali, somente se abria espaço para concurseiros e concurseiras exitosos em provas de muita disputa, bem menos difícil, no entanto, do que as presentemente aplicadas.

Outra característica bem marcante do Bacen, em toda a sua história, é a de ser instituição cedente de mão de obra, inclusive para organismos internacionais. Se não considerarmos a fase de implantação, que se estendera até 1975, praticamente nunca houve requisição de pessoal deflagrada pela autarquia consoante seus próprios interesses e conveniências administrativas internas. Para o bem ou para o mal, não se “alugava” (nem se “aluga”) o passe de nenhum funcionário, servidor ou empregado da administração pública. Quem atuava (e atua) em seus departamentos e unidades eram (são) servidores e servidoras do quadro próprio. Sem contar membros da diretoria (nos últimos tempos, a maioria é da casa), bem assim as missões especiais e de curto prazo, não existe ninguém trabalhando no Bacen cedido por outras entidades ou órgãos federais, estaduais ou municipais.

Os pareceres, as cotas, os expedientes… numa outra postagem.

 

15/10/2016

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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