Bacenianas (3)

Para quem quer se soltar invento o cais/Invento mais que a solidão me dá/Invento lua nova a clarear/Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz/Invento o mar/Invento em mim o sonhador
 

(Milton Nascimento)

A despeito do nome, União, o edifício num dado momento da jornada diária segregava. Dividia mesmo, acima de tudo (sem trocadilho).

Ao passo que os veteraníssimos diligenciavam o fechamento do expediente diário, os meus outros colegas da patota intermediária, entre 27/30 anos, mais rápidos e menos responsáveis, no sentido de menos atribuições, largavam os ditos velhotes e se mandavam para o terraço do prédio, que calidamente acolhia os jovens, mas tal receptividade vogava até pouco antes do fim do entardecer, a se mostrar no firmamento de Brasília deslumbrante e arrasador.

Presenciava-se naquela área superior, varanda com muro de lamentações, uma espécie de masoquismo adensado pelo apuro estético do horizonte. Sim, qual a justificativa plausível de pegar o elevador ou subir as escadas para o topo, local das amarguras, de sofrer horrores? Incontinenti, o banzo invadia a alma e a mente daqueles “estrangeiros” arrancados a forceps do chamado torrão natal.

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Imaginem vocês Brasília há mais de quarenta anos. Se assim posso me exprimir, era território muito maior do que o de agora porquanto havia menos espaços ocupados, algumas superquadras nem existiam, carros pouquíssimos (os de corrida, muitos e conduzidos pelos grandes pilotos brasileiros da ocasião, assunto de outra postagem), povo pelas ruas também quase nenhum, nem no trajeto Conic-Conjunto Nacional-Conic. De modo que a imensidão era assustadoramente imensa, e olhem que não estou sendo tautológico.

Os bancarinos da faixa intermediária do quadro de pessoal se reuniam naquela palco algo macabro na tentativa vã de exorcizar os fantasmas pelo abandono geográfico. Preponderantemente os meninos do Rio, nascidos lá ou cariocas desde criancinha, não conseguiam assimilar a transferência para o cerrado. Uma vez que a água do lago que se descortinava do parapeito não tinha sal nem iodo, assistíamos àquele grupo majoritário se desmontar, se perder no choro literal (às favas os escrúpulos de macheza ou machismo) pela ausência da brisa marítima, substituída arquitetonicamente pelo vento dos redemoinhos que avermelhavam o panorama e por consequência os rostos dos moços, pobres moços.

A sua vez, mais focada (o termo felizmente ainda não existia fora da Física) na carreira profissional, a turma das Minas Gerais revelava seu valor encorpada pela gente de Patos de Minas e, honrando características notórias do come quieto, ou melhor, do chora quieto, não se exibia na cena patética de sentir o desconsolo, eles não superinterpretavam, para usar a linguagem do teatro. Fraquejavam, isso sim, de maneira dissimulada diante da paisagem que não era um retrato na parede, era antes um véu penumbroso esparramado por sobre os blocos residenciais da Asa Sul, mas que itabiramente doía.

Os de São Paulo trazidos para cá formavam contingente pequeno por oriundos de uma regional do Bacen que principiava a carecer de boa e substancial tropa de servidores e servidoras, numa antevisão do que iria acontecer logo, logo: o destronamento da Cidade Maravilhosa como centro financeiro do país, em marcha batida para a terra dos bandeirantes, onde se encontra até hoje, monitorado através de sofisticadíssimos sistemas sem embargo do eventual cumprimento oficial de missões de fiscalização específica por “inspetores de malinha” e seus papéis de trabalho.

Indiscutível é que jogo essa conversinha, ou por outra escrevo, escrevo… e não consigo chegar aos pareceres, cotas etc. Faz-se necessário mais postagem.

 

22/10/2016

(215)

mmsmarcos1953@hotmail.com

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