Bacenianas VI

Para esta postagem, havia cogitado dos títulos alternativos “Teori, o órfão da autarquia” e “Teori, o órfão do Banco do Central”. Entretanto, acabei por decidir entronizar o “Bacenianas VI”, provocando salto de cerca de alguns anos na série que ainda aborda situações encaixadas no triênio 1972/1975, em que meu colega Ede figura com toda a sua verve e malícia.

O importante não é bem isso. Sobreleva anotar a criticável postura institucional do Bacen quanto ao acidente (não me parece sabotagem) em Paraty, cidade adornada por ilhas e praias fantásticas que nos evoca a feira literária, ali realizada periodicamente e merecedora dos mais veementes elogios.

Após pesquisas nos sistemas de divulgação social e informações atualizadas do Banco Central, inclusive sua revista eletrônica, “Linha Direta”, desta semana, não vi menção alguma à queda da aeronave que ceifou a vida de cinco pessoas e abalou o país do Oiapoque ao Chuí; no sul, a pancada foi ainda mais sentida pelas raízes de um dos passageiros, o mais notório. Mas qual a justificativa para a autarquia ser obrigada a registrar de qualquer modo o desastre aéreo?

Nas minhas mais de quatro décadas como integrante do quadro de pessoal do Banco Central, atuei por quase vinte anos na área de intervenção e liquidação extrajudicial de instituições financeiras e demais sociedades autorizadas a funcionar pelo Bacen. Como essa área de regimes especiais (incluindo-se o Raet, basicamente para os bancos públicos) ainda era centralizada em Brasília, os servidores aqui lotados comumente nos deslocávamos para os municípios onde sediados os bancos, seja para formar a equipe inicial incumbida de “entrar” na empresa (diretoria afastada ou destituída) com o interventor ou com o liquidante, a depender do regime decretado com base na Lei nº 6.024/74, seja para acompanhar os atos de gestão e administração praticados pelo profissional nomeado oficialmente para conduzir o processo de saneamento da empresa ou diligenciar sua decretação de falência pelo juízo competente.

Nesses périplos, um dos estados que mais visitei, além de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, foi o Rio Grande do Sul. Ir à capital gaúcha como que se tornara rotina para mim dada a necessidade de participar mais diretamente dos processos de liquidação extrajudicial do Sul Brasileiro (por onde anda o Carchedi?), do Habitasul (por onde anda o Péricles Druck? Que, como eu, sofrera o maior revés na vida de um pai: a perda de um filho; no caso dele, filha); do Maisonnave (por onde anda o Roberto?)…

Viagens à terra de grandes amigos meus da autarquia feitas nos anos de 1980/1990 (muitas outras aconteceram depois desse período, eu já no CRSFN, mas isso é outra história) e que se estenderam a Gramado (liquidação de um grande consórcio) e Pelotas.

Encerro esta postagem:

– oferecendo meu tributo ao Teori, dos grandes servidores do Banco Central. Um cara que com toga ou sem toga sempre se conduziu desta maneira: educadíssimo, atencioso com todo mundo, discreto, extremamente profissional, com admirável senso de hierarquia nas relações funcionais;

– reiterando minha perplexidade pelo fato de o Banco Central não ter feito até agora, ao que me consta, nenhuma homenagem a um servidor que honrou a casa por mais de dez anos como procurador; e

– transcrevendo o zap do meu amigo colorado Flavio (que tem mais três “efes” – no sobrenome; perfaz FFFF), que narra situação pitoresca a envolver um gremista ilustre. E o faço porque, ademais de tornar menos pesado o assunto, eu desconhecia que, nas missões intermunicipais do Bacen, o saudoso personagem usava imponente quepe no desempenho de suas altas funções diretivas.   

“Marquinhos, o Teori era chefe do jurídico no Bacen-Poa na época da liquidação (extrajudicial) da R. Duarte DTVM (como a própria sigla aponta, era uma sociedade distribuidora de títulos e valores mobiliários) de Pelotas em 1983, quando tu aparece por lá não sei bem por qual motivo. Acho que era para me conhecer. Lembra que eu era da comissão de inquérito? Pois o Teori resolveu instalar a comissão. Um subordinado dele era o presidente da Coinq e ele botou na estrada seu confortabilíssimo Galaxy e foi pilotando com este seu amigo confortavelmente instalado no banco traseiro. Acho que sua atividade mais lustrosa foi a de ser meu motorista.”

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“O galochão deslizou suavemente pela BR 116 no rumo de Pelotas. Alguns dias depois tu apareceste resmungando contra a distância da bela ‘Princesa do Sul’, que seria mais distante que Poa/Bsb. Pensei: esse magro fumou algum baseado estragado. Depois entendi que comparavas tempo de viagem entre avião e ônibus. Nada a ver, mas cara importante de Brasília deve ter razões que um provinciano desconhece.”

23/01/2017

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mmsmarcos1953@hotmail.com

 

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