Cadê o Wally?

Cadê o Wally?

Espalham por aí que poetas se manifestam através da poesia. Pura tautologia – no sentir da crítica equivocada.
Quando o sofrimento é real, é grande, é quase insuportável, poetas se escondem na prosa. Em lugar de apresentar coisas duras da vida nos versos encerrados nas estrofes, podem expandir a narrativa de ponta a ponta do caderno, nada do zig
ue-zague da costura do poema, do entrecortar as frases sob o reinado da métrica e da rima. As palavras vão emendando umas nas outras até terminar a linha, para tudo recomeçar na linha seguinte, e assim sucessivamente, até formar o textão da amargura suspeitada.
Se o sentimento for de perda, pouco importará envolvimento de pessoas ou bichos… artistas. Ao menos nos casos em que figura uma certa poeta desgarrada de São Paulo. 

Cachorrinho do teatro

foto: Dazi Antunes foto: Dazi Antunes

Havia uma cidade no Brasil chamada Brasília.
Se, para denominá-la, faltou criatividade ou sobrou falta de imaginação, não se sabe, os etimólogos que justifiquem. Diz-se que quem primeiro sinalizou tal nome foi José Bonifácio em 1823.. .mas isso não vem ao caso e pouco importava para o nosso pequeno guerreiro, o herói desta história.
Pois, foi nesta cidade que havia uma casa numa rua curta, sem saída. Seus donos acharam de derrubá-la e construir em seu lugar um pequeno teatro com as iniciais dos nomes de seus três filhos: MA-PA-TI.
Desde seu surgimento, tornou-se um local movimentado. Talentos de todas nuances coexistiam no local. Gentes de dons e ofícios todo o tempo passavam por ali.
Um dia, nesses vãos e desvãos que o destino se encarrega de criar, surge uma pequena criatura, de nome inglês que, como um lord, peregrinava pelas suas dependências com suas patinhas.
Ali passou a reinar sua alminha canina.
Ora estirava-se nos sofás vermelhos no hall de entrada, ora se espichava noutro marron (cujo dono fazia uma careta sempre que isto ocorria), ora, ainda, escapulia pelo grande portal fazendo todo mundo desembestar rua afora chamando pelo seu nome, indagando aos passantes insólitos:
– Você viu um cachorrinho cinza por aí?
Assim é que Wally passou a ser "o cachorrinho do teatro" e as pessoas perguntavam:
– Ele é ator?
Não, Wally não sabia dissimular, não sabia ser nada além de ser um muito quietinho animal manso.

Sempre havia movimento ali; nas raríssimas vezes em que isso não ocorria, postava-se diante do portal, aguardando que o abrissem e o transportassem para o maravilhoso universo de lá de fora.
foto: Marcos Martins

foto: Marcos Martins

O deleite vinha quando alguém se derretia com sua tranquila e serena presença e se aproximava. Amava especialmente as carícias das atrizes, das bailarinas, das crianças e das pessoas de natureza cachorreira que transitavam pelo espaço.
Um dia, desavisado e manso, curioso e inexperiente, resolveu aventurar-se do outro lado da grande e movimentada via que passava ali perto. Esta, por ironia, foi muito antes batizada com a inicial do seu nome: chama-se W3.
Não sabemos nem queremos saber dos detalhes sórdidos da triste imprudência do cão, fato é que Wally foi além do permitido e sua pequena e frágil vidinha não resistiu.
Wally simplesmente mais um cãozinho, mais uma doce criaturinha vítima do trânsito cruel.
Era o "cachorrinho do teatro", o xodó das gentes das artes.
Agora, observa lá de cima com seu novo formato de estrelinha, toma conta dos artistas de Brasília, do Brasil e do universo.
Legítimo representante dos bichinhos que vêm pra nos ensinar e se despedem quando ainda nem percebemos que já conseguimos aprender.

Dazi Antunes
06/08/2017

 

#história de cachorrinho    #onde está wally    #estrelinha    #alminha canina    #cachorrinho cinza

10/08/2017

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mmsmarcos1953@hotmail.com
 
 

2017-08-11T02:55:24+00:00 11 de agosto de 2017|1 Comment

One Comment

  1. Juliana Werneck 18 de agosto de 2017 at 09:36 - Reply

    Que linda história!! Que lindo poema em prosa! Que linda homenagem!! 

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