Coco e Tramoia

Muitas coisas acontecem diariamente num coletivo. E, quando uso “coletivo”, não estou me referindo a agrupamento de artistas, nem a república de moradores e moradoras cotizados para divisão de despesas do apartamento ou da casa onde residem juntos, nem tampouco a setores de partidos políticos. Me vali do termo com o significado de ônibus mesmo, o popular busão.

“Eu poderia estar roubando, estar matando…” Urge mais um esclarecimento: minha história não é sobre vendedor ambulante. Agrego o terceiro esclarecimento: minha história, não. Não sou personagem nem farei a contação. Os personagens são aqueles ali em cima, os que intitulam esta postagem. A narrativa (não aguento mais o uso dessa palavra) ficará a cargo de Penha Silva.

“Ontem à noite saí da reunião às 21h40 ali perto do Metrô Ana Rosa, e resolvi andar um pouco até a Av. Paulista. Ficar doente é o fim pra mim, precisava sentir o gelo na orelha, caminhando. Logo veio o ônibus Jd Maria Luiza e entrei. Estava passando pela roleta e ouvi: – Olha ela, a prof! Olhei para a direção das vozes, e vi dois rapazes sorridentes, mas eu não me lembrava. Bom, quem dá aula deve sofrer isso tb, aquele aluno q vc conheceu há uns 10 anos e que se lembra de vc… e vc não lembra o nome, pq são muitos.Um deles logo disse,’Ela não lembra, eu sou o Coco prof….’ E logo olhei pro outro, que estava de terno, cachecol e soltei – ‘Vcs viviam juntos?’ – eles assinalaram positivamente com a cabeça:

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– Nossaaaa, Tramoia? Qto tempo? – é claro q o ônibus todo olhou pra nós, afinal, Tramoia não é um apelido comum…
Ficamos conversando. O Coco se chama Luiz Eduardo, o Tramoia, ahhhh o Tramoia…eu não esqueci o nome dele…Washington.
Esses dois me deram muito trabalho no CEU Butantã em 2003,2004… em 2005 já estavam mais adaptados ao comportamento ajustado à sociedade.. .hehehe. Conheci a dupla da pior forma, no enfrentamento. Em uma atividade dentro do Teatro Carlos Zara, teatro lotado, resolvi sentar na escada lá no fundo, pq algo me dizia q a turminha ali daria um trabalho. De repente um apagão e o teatro ficou todo escuro, imagina um monte de jovens, uns 450 jovens, dentro de um teatro escuro…É, nem dá pra imaginar mesmo. O técnico de luz resolveu lançar a luz da lanterna pro público e eu vi o Tramoia, com um objeto comprido em cima de um outro jovem e puxando a mochila – nem pestanejei, fui pra cima, puxei Tramoia pelo braço e consegui pegar o tal objeto… era um pedaço de perfil de espelho de banheiro… humpf… Acho q ele se assustou com meu movimento e sentou gritando ‘não, tia, não me bate’. A luz voltou, olhei na cara dele e disse – Quero ver se vc é homem agora, esse objeto estava na sua mão ou não? – Tramoia fez uma carinha, naquele momento vi q era uma criançona mesmo, tinha 14 anos…’Olha, garoto, este lugar é pra vc aprender outras coisas, outras culturas, não é pra vc reproduzir o q vc anda fazendo, vc tem noção disso?’”

Isso não pode acontecer, há que reagir. Para tanto, basta contarmos com a astúcia da Penha, a operária da Cooperativa Paulista de Dança – ela mesma, a Penha.

“Depois pedi para ele me acompanhar até a cabine técnica, e ele ficou ali até todo mundo sair do teatro. Mas ficou quieto, olhando tudo sentadinho. Retornei e conversei com ele, ameacei de entregá-lo para a GCM, mas faria um acordo, se ele retornasse no outro dia às 14h p falar comigo. Combinado. Tramoia e Coco foram os dois primeiros jovens do Projeto Iluminando Caminhos – eles e mais uns 15 jovens q davam trabalho, eu coloquei para me ajudar a divulgar as ações do CEU, por dois dias na semana eles iam lá, eu os deixava um pouco no teatro, onde ficavam fazendo perguntas sobre os refletores, mesa de luz, som… limpavam os equipamentos e conheciam um pouco de tudo.”

Projetos sociais sofrem reiterados e sistemáticos ataques de todos os lados. Nos dias de hoje, esse panorama se exacerbou, carregado de motivações políticas e até partidárias. Muitas vezes sem nenhuma prova, documental ou não, acusam as ongs de desvio de recursos, de falta de conclusão do projeto, de execução inadequada, objetivos inalcançados. Da minha parte, dou por expressamente aprovado o projeto em tela, me arrimando no tocante relato que fecha o depoimento da Penha e a vertente postagem.

“Ontem soube que Coco e Tramoia estudam juntos na FMU Campus Liberdade, Coco faz Administração, Tramoia, eita Tramoia… ele está no 4º ano de direito… Fiquei muito orgulhosa, nos despedimos em frente ao Shopping Eldorado. Eles iam para outro ônibus. Tramoia está casado, tem duas filhas e mora no Jd João XXIII, o Coco está solteiro, a família dele foi para Vargem Grande depois da remoção da favela Jd Luiza, e, como é longe, ele mora na casa do Tramoia. São amigos desde a infância, viveram as dificuldades, viram o CEU Butantã nascer… hj são outros pensamentos. São encontros como estes q me dão ânimo e me fazem nunca esquecer e desistir do que acredito… mesmo q um mundo de pessoas oportunistas, falsas e egoístas se colocarem na minha frente… eu vou continuar acreditando na transformação.”

21 de junho de 2016

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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