Grandes jornaleiros

Grandes jornaleiros

Veja, isto é pouca/
Lenha no grande bate-boca/
E ainda escrevo uma carta capital/
Para os caros amigos desta banca de jornal/
A formiga carrega a folha/
Do estado de são paulo ao Piauí/
Enquanto isso a cigarra quer ser vip/
Pra sair contigo na capa da ti-ti-ti/
Caras, quem pra matar…

Banca de Jornal (Tom Zé)

Cadê os jornais, as revistas? Como se encontram as bancas de jornais e revistas? Hoje, entramos nessas banquinhas – aqui, em Brasília, geralmente na entrada das superquadras -, dirigimos o olhar para o vendedor ou para a vendedora, a certeza é a de que em nossa frente se posta um indivíduo que talvez não saiba lidar com jornais e revistas, ausência de familiaridade.
 
Nas prateleiras  dessas bancas sempre com clientela reduzida temos à venda balas, chocolates, carrinhos de coleção, canetas e lápis, geladeira atufalhada de refris e toda sorte de bebidas energéticas,  freezer  horizontal com picolés e sorvetes de casquinha e quase nada de jornais pendurados com suas manchetes alardeando catástrofes as mais diversas, bem assim de revistas de capas coloridas e ofuscantes.
 
Não rejeito a realidade, diariamente mergulho de cabeça na leitura eletrônica de alguns jornais e revistas, o que não me impede assinalar que nos períodos de minha infância passados no meu Rio de Janeiro, além do respeito que eu nutria pelos donos das inúmeras bancas espalhadas pelas ruas da Zona Sul, enchia-me de orgulho ao ver o desempenho profissional dos “pequenos jornaleiros”. Eram garotos (parece que não havia menina) que, distintamente uniformizados (cor azul?), saíam pelas ruas da Cidade Maravilhosa a vender jornais aos passantes, tudo no bojo de um programa social. Eram queridos pela população.

Foto: Hildergard Rosenthal Foto: Hildergard Rosenthal

Iniciei com perguntas e arremato indagando: será que algum desses meninos (ou todos eles), de kichute, se encaixaria nesta tocante história contada pela Dayse Hansa? 

O menino jornaleiro

 Era agitado o menino. 
Sagaz nas palavras e, para tão pouca idade, um brado forte.
Seus trajes de algodão em desalinho com o corpo nos levavam a crer que eles já tinham vestido outros corpos.
Cinco números acima era o que calçavam os pés com solado de remendo que seu Maneco do quiosque umas três vezes já tinha aplicado.
Era o Tribuna, a Gazeta, tinha também O Povo e o Correio Braziliense sacados da bolsa puída igualmente de algodão à medida que a multidão se aproximava para adquirir as notícias do dia, escritas no dia anterior.
O menino tinha sonhos que descansavam após o último pensamento antes de dormir no internato de uma instituição religiosa nos idos de 67. Acordava às quatro da matina para tomar banho no vestiário com mais outros 93 meninos, supervisionados por três monsenhores que cravavam no relógio de mão exatos 4 minutos de banho, banho frio, todos os dias, inclusive nas madrugadas gélidas.
Do café da manhã, guardava metade do pão para comer durante o dia, pois o almoço dependia das vendas dos tabloides, as quais nem sempre bancavam um prato feito, às vezes somente um mate.
O menino sempre lembrava da família, que não conheceu; ficava imaginando se alguém procurava por ele, se cantavam parabéns em seu aniversário com esses bolos recheados de glacê servidos com algum copo de refrigerante gaseificado de laranja.
Ficava imaginando a caixa de presente em cima da cama que poderia guardar de sua mãe um kichute mais novo da moda e com o abraço afetuoso de quem nunca experimentara esticar os braços em seu colo. Em fase consciente, contudo, o menino abria os olhos, cutucado por um cliente bem vestido que lhe pedia o Tribuna e lhe passava uns trocados e uma gorjeta, a primeira depois de dias que então lhe garantiria o almoço no pé sujo da esquina capitaneado pelo seu Joca, o português murrinha, mas de bom coração.
Seu nome? 78 era o seu número.
Novamente se pergunta o nome dele: 78, sete oito era o seu número.
Tão assustador que, ao pedir ao menino que o repetisse, ele novamente dizia 78. Não tinham nomes os meninos internados que vendiam jornais. Tão dolorido quanto ver uma criança de oito anos nessa condição era confirmar que ele, o menino, não tinha nome, mas queria muito ser chamado de Luis Fernando, um meia atacante de seu time de futebol do coração, talvez por toda alegria que o craque dava àquela criança que, sob o abandono e jogada à própria sorte, via no ídolo a possibilidade de mudar de vida e ser feliz e fazer os outros felizes.
Se ele queria ser jogador de futebol?
Não, o menino não vislumbrava tais intenções, ele queria mesmo é ser relojoeiro e consertar os ponteiros, tomar de conta do tempo e, quem sabe, um dia voltar no exato momento em que nascera para mais uma vez ver a face de sua mãe, esticar seus frágeis e pequenos braços num abraço interminável, quando, aí sim, o tempo pararia.

Dayse Hansa
Brasília, 31 de agosto de 2017

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04 de setembro de 2017
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mmsmarcos1953@hotmail.com

2017-09-04T12:35:15+00:00 4 de setembro de 2017|0 Comments

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