Histórias do teatro brasiliense (IV)

Histórias do teatro brasiliense (IV)

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Ao trazer o restante das dedicatórias feitas por diversos artistas das cênicas à minha neta Aline Padilha – que estreou no palco aos quatro meses de idade e até hoje, perto dos vinte anos de existência, dá umas canjas no palco -, lanço-me novamente ao relato do Eliezer e dou todavia um salto no tempo, atingindo (sem trocadilho) diretamente os anos de chumbo.

“Como Orthof (Sylvia), o teatro em Brasília e no resto do país enfrentam as várias dificuldades impostas pela ditadura. Iniciada no ano de 1964 ela avança até o ano de 1983 dificultando a formação de grupos, censurando apresentações teatrais, bem como controlando o conteúdo dos espetáculos. Essa censura atuava em todos os meios artísticos e de comunicação ou divulgação, atrelando todos esses trabalhos as suas autorizações. Os censores atribuíam cortes arbitrários de partes que eles julgassem impróprias de peças, textos, imagens ou gestos. No teatro antes da estréia da peça os grupos eram obrigados a enviar os textos para a aprovação da censura, com a devolução do texto com cortes já efetuados. Os grupos eram ainda obrigados a realizar um ensaio geral do espetáculo, com a presença de dois censores quando poderiam ser feitos novos cortes não somente no texto, mas nos gestos e na composição da cena, figurinos ou mesmo cartazes.”

Vejam vocês que a abordagem acima não se relaciona com a época da Inquisição ou de antes da Revolução francesa. Custa crer que tudo isso se passou há cinquenta anos, um corte de nada para a história de qualquer país ou nação, com burocras semianalfabetos sendo pagos para açambarcar funções exclusivas do público espectador, o verdadeiro e legítimo jurado, e dos profissionais atuantes na área, destacadamente no caso os dramaturgos e os diretores teatrais.

E como se reagia a tal barbaridade? Nosso narrador nos conta.

“Para driblar essa ‘forte marcação’ da censura vários artifícios foram desenvolvidos como metáforas ou frases com duplo sentido, obrigando os artistas a um esforço extra para transmitir a mensagem desejada aos espectadores. A atriz Marisa Castro diz que ‘como a gente era muito censurado, nada podia falar ou se dizer. A gente tinha que se virar para criar nuances, para criar detalhezinhos que passassem sutilmente para a platéia, e que a censura não percebesse, era um surto de criação, uma loucura.’ Havia truques ainda como o apelidado ‘boi de piranha’, que consistia em colocar no  texto original frases e palavrões que causariam um maior impacto à vista dos censores e que deveriam ser cortadas. Isso buscava desviar a atenção desses censores de cenas importantes do texto original, desse modo várias cenas que poderiam ser cortadas eram mantidas. Com o passar do tempo foram mudando as imposições e limites da censura. O jornalista Kido Guerra (falecido em 2009, eu tristemente acrescento) que atuou no teatro de Brasília no final da década de 1970 e na década de 1980 relata que nessa época

‘a censura era como você acertar a luz; fazia parte do contexto do espetáculo, a gente convivia com aquilo como: – Bom, vamos acertar os refletores, para o ensaio geral, e o outro: – Ó! Vamos lá na censura, porque vai ter o ensaio geral com a censura, vamos liberar o espetáculo.’”

Me cabe concluir esta postagem via reprodução dos itens finais do Elieser Faleiros de Carvalho. Nestes trechos, com a integralidade da pontuação e da ortografia vigente à época, o então estudante teve a ousadia de evocar dois nomes da minha mais profunda admiração.

“Com essa censura/ditadura como inimigo comum localizado, tanto o teatro como o cinema e a música foram meios de expressão que ainda assim tiveram amplo destaque nacional e que tiveram grande criatividade para divulgar e transmitir ideiais durante esse período. O artista cênico e professor B. de Paiva declara com tristeza: ‘Eu não sei porque nesse país cultura só rima com ditadura?’ e contextualiza essa frase apontando várias pessoas que estiveram na frente de secretarias do governo como Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer, Gustavo Capanema, Carlos Miranda, além de grupos e trabalhos de importância na história cultural nacional, bem como projetos culturais que foram realizados durante esse período. Além desses fatos, um outro fator que fortalecia o movimento cultural era o apoio da esquerda e dos movimentos estudantis que muitas vezes integravam movimentos culturais como forma de expressarem seus ideais políticos ou mesmo trazer mais pessoas para seus grupos e partidos. O ator e diretor José Regino conta que ingressou no movimento teatral a partir de um pedido de seu partido de que ingressasse e influenciasse a atuação de um jovem grupo de teatro.”

E o desfecho com registro em tons otimistas.

“Apesar de todos aspectos negativos dessa época no Brasil, o teatro da década de 1960 na capital consegue vários destaques. Ainda em formação, como a própria cidade de Brasília, o teatro brasiliense apresentava suas identidades em construção, que forneceram uma base para o desenvovimento e continuidade desse teatro.”

 

20 de julho de 2016

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mmsmarcos1953@hotmail.com

2016-07-21T00:05:34+00:0021 de julho de 2016|0 Comments

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