Joãozinho da Vila vai, Joãozinho da Vila vem

Joãozinho da Vila vai, Joãozinho da Vila vem

O tribunal sentenciou, marcharemos um dia lá pra cima. Sucumbência. Quanto aos poetas e às poetas, é arriscado dizer algo nesse sentido pois eles e elas, parece, duram para sempre. Nessa existência permanente, sem descontinuidade, com inspiração e expiração, nos enfeitiçam achando aliás que isso não passa de coisa pouca.

Usam seus fantásticos dons e poderes para emoldurar  a realidade. Maniqueisticamente, ora nos jogam nas profundezas das catacumbas, ora no vislumbre de seres revificados.

Mas entidade não caiu, entidade não voou. A tensão derivara de mise en scène, me dei conta agora ao pensar melhor, enquanto a poeta Waleska, em bela correspondência, ainda não deve ter percebido, assim também os convivas(!) na manhã fria e ensolarada no Campo da Esperança: com efeito, os tambores arrostaram a finitude e amoitaram o poeta na vegetação em torno da Vila, onde ele desde então rebrilha com seus versos planaltinos.

Joãozinho ficou.

Ilustr.: Facebook da Sonia Palhares

Ilustr.: Facebook de Sonia Palhares

ERA DA VILA O ANJO

A notícia veio na madrugada.
Pelo carro de som do FaceBook.
Era notícia típica do horário.
Era notícia ruim.
Tinha virado anjo.
Àquelas alturas anjo caído.
Da moto.
Pensei em todas as vezes em que vi o sorriso dele em alto relevo. Sobressaindo-se ao rosto, ao corpo.
Aparecendo antes.
Ele era só sorriso.
Pelo menos nas vezes em que o vi.

Fiz as contas. Eram muitas nesses anos todos.
Umas de quando nem sabia seu nome.
Outras de quando não sabia quem era.
Permaneci sem saber muito até as notícias surgirem.
Aí, soube mais.
E fiquei me perguntando por que ele mesmo não me contara.
Nunca conversamos.
Nada além dos cumprimentos de quem se encontra nas folias da vida.
Abraço.
Isso já substituía, e bem, as palavras.
Foi isso que eu fiz depois de contar os sorrisos.
Quis saber por que nunca conversamos. Nunca viramos amigos. Nunca bebemos juntos.
Não fui ao seu carnaval. Nem aos ensaios.
Quis saber por que não fui.
Achei que haveria sempre. Carnaval. João.
Não levei em consideração o imponderável.
Não pensei que ele poderia virar anjo antes que fôssemos íntimos. Antes que eu fosse uma folia-vilã da Vila.
As pessoas, os artistas, têm nomes bonitos.
Indicam suas origens na forma como decidem ser chamados.
Joãozinho da Vila (Planalto).
Carregar um lugar no nome é prova de amor.
Carregar no nome um lugar só pode ser por amor.
Isso tem beleza.
Lembra os antigos, os da roça.
Precisam identificar as pessoas dizendo de quem elas “são” – do pai, da mãe, do marido, da esposa.

Vavá de Nôzinho.
Isso tem poesia.
Porque era poeta nosso João.
Além de ser da Vila.
Era da vida também.
Era a própria vida.
Até que chegou a morte.
Coisa parecida com vazio. Dor. Silêncio.
A Vila não calou.
O Museu da República também não.
Os amigos não calarão.
Já tem sarau marcado.
Vai ter carnaval.
O anjo levantou-se altivo.
Bateu asas.
Voou.
Sorrindo.
Acenou como quem cumprimenta o público de cima de um carro alegórico.
Subiu.
Soou a bateria.
Roncou a cuíca.
Um apito.
Chegou.
Corpo. Presente. Para a igreja de madeira. Da Vila.

WALESKA BARBOSA

– 05.07.2017 –

10 de julho de 2017

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mmsmarcos1953@hotmail.com

2017-07-10T15:19:44+00:00 10 de julho de 2017|0 Comments

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