Memórias/Memorialistas (LIX)

Viajar pelo passado e compará-lo ao presente é um hábito prazeroso
e frequente do ser humano. Costumamos também achar
que tudo de outra época era melhor. Temos saudades
do que vimos e do que apenas imaginamos.
(Tostão)

Entre as pérolas do noticiário, Venezuela, Reforma da Previdência, militares moderados (oxalá) acalmando civis apatetados, boa campanha de início de ano do meu Vascão, PH Ganso nas Laranjeiras (epa), implantação do VAR, gostaria de colacionar (que palavra, como diria o nonagenário Helio Fernandes) uma nota veiculada no campo político dando conta do propósito de se retomar a União Democrática Nacional.

Marcus Alves de Souza anunciou que pretende (re)fundar a UDN, “um partido conservador de direita” que vai manter esse DNA. O meu quase xará informou haver lido sobre a história da sigla, todavia não cita nenhum livro a respeito, admitindo que “puxei muito pela internet, entendeu?” O mais pitoresco, digamos assim, é que o homem se surpreendeu ao verificar que ninguém tivera a ideia antes – “o nome estava lá guardadinho, esperando eu pegar.”

A sacação do Marcus fora revelada pelo O Estado de São Paulo e repercutida pelo Bernardo Mello Franco na forma e transcrições consignadas no parágrafo anterior. O neopolítico cogita abrigar os Bolsonaro na nova agremiação porque a família não mais teria clima para permanecer no PSL.

Menciono o assunto por sua aparente relevância e também porque o correto jornalista de O Globo, mesmo com duas letras “l” num dos sobrenomes, pode ser parente do Afonso Arinos de Melo Franco, um dos três mosqueteiros deste tópico de memorialística (os outros dois, Pedro Nava e Paulo Duarte) e agora presente de novo.

Que responsabilidade, senhor Marcus, admiro sua ousadia (desfaçatez?), realmente você não tem noção do que significou a União Democrática Nacional no cenário político brasileiro de boa parte do século XX. Independentemente das minhas cores políticas e partidárias, entro no coro dos que realçam o papel desempenhado pela UDN. Para tanto, nesta e em outras postagens, pinçarei comentários e observações lavrados pelo Afonso Arinos a respeito de algumas das personalidades da UDN. E o faço extremamente feliz e seguro porque logrei encontrar o volume 2 de suas memórias, A Escalada, ao qual retorno, suspendendo, para repor a linearidade, as referências que eu vinha fazendo neste blog acerca do volume 3,Planalto, obras do grande mineiro, jurista, chanceler, senador, deputado e sobretudo escritor, recém lidas e elogiadas pelo Fernando Gabeira, o que adensa minha vaidade intelectual.

Saem Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.  Vamos excursionar pelo extremo sul do país na captura de um político de lá.

“De Flôres da Cunha, eleito pela U.D.N., é ao mesmo tempo muito difícil
e muito fácil de se falar. As razões da dificuldade são as mesmas da facilidade,
e se resumem na observação de que Flôres era um gaúcho demasiado típico,
a ponto tal que os seus traços, no entanto tão peculiares e próximos,
poderiam ser tomados como os de uma personalidade representativa geral do povo e da formação rio-grandenses; verdadeiramente uma figura simbólica. Assim, ao escrever sobre Flôres,
enfrenta-se um risco inesperado: ao procurar ressaltar a fisionomia
tão colorida e pessoal daquele tipo humano, o escritor pode
cair no convencional, e mesmo no lugar-comum. Êste traço que liga o muito pessoal ao muito geral é perceptível em todos os tipos humanos que exprimem
fortemente as regiões e as épocas. Num museu ou numa catedral
dizemos: este homem, na sua armadura de pedra, é um cavaleiro do século XIII; ou aquela figura de madeira é um santo espanhol primitivo; ou aquêle retrato é o de um burguês
flamengo seiscentista. Os traços específicos da fisionomia observada se dissolvem, assim, em certos conceitos genéricos, decorrentes da idéia que se forma
de uma certa época, em uma determinada região.

            A gente que acha os gaúchos grosseiros, resolvem tudo no grito e na borrachada – ou no joelhaço como o célebre Analista de Bagé, genial criação do Luiz Fernando Veríssimo, filho do autor de O tempo e o vento –, não consegue imaginá-los educados, reverentes, cheios de fidalguia.

“Era isso exatamente o que se dava com Flôres da Cunha, cujos aspectos
pessoais tão vivos, impressivos e genuínos, eram também
os de sua geração gaúcha, a geração do princípio do século (
XX, nota deste blogueiro),
tão bem descrita em certas páginas do romance cíclico de
O Tempo e o Vento, com o cuidado de fundir intelectualmente personagens masculinos
mais representativos em um só, que seria, como disse, representativo até o lugar-comum. Desejo apenas salientar que Flôres manteve para comigo, nos últimos anos,
uma amizade que às vezes me comovia. Sua notória generosidade,
sua proclamada e fácil emoção (que lhe arrancava ora palavrões,
ora lágrimas, uns e outras logo esquecidos) tocavam às vezes
a extremos de finura e galanteria. Por exemplo, tôdas as vezes em que eu tinha de proferir,
como líder, um discurso importante, e que Anah (
mulher de Afonso Arinos, nota deste blogueiro)
vinha para a tribuna diplomática ouvir-me, o velho Flôres não deixava de sair do recinto, quando eu descia da tribuna, para ir cumprimentar, não a mim, mas a ela. Certa vez em que me saí melhor, ou em que êle gostou mais do meu discurso, esperou-me de pé (êle se sentava a meu lado) e pespegou-me
no rosto um beijo babado e cheirando a charuto
.

            Mas a degenerescência chega para todo mundo, para todos os políticos, embora eles não saibam disso (nada mais oportuno do que correr para assistir ao filme O vice). O memorialista nos alerta.

                            “Seu fim foi triste, como o de um velho leão de circo,
que não pode mais trabalhar e se acaba, adormentado
e inofensivo, na jaula desnecessária.

“Eu ia vê-lo de vez em quando em casa de Machado Coelho, seu contraparente, com quem acabara morando. O gaúcho de tantas lutas, de tantas mulheres, de tanto jôgo, de tantas cavalhadas e tantos entreveros pela vida acabava ali, amontoado num sofá, dispneico e silente. Às vezes, porém, o olhar azul lhe faiscava entre as pálpebras caídas como um súbito pontaço de lança, um palavrão lhe aflorava à bôca murcha, ou uma lágrima às faces brancas, como se o velho leão quisesse de nôvo arrepiar a juba e perscrutar os horizontes de pólvora e sangue do seu pampa natal…”

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24/02/2019

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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