Memórias/Memorialistas (LX)

(…) a eficaz proteção de uma cultura depende da competência para refletir sobre as experiências e reavivar as férteis criações do passado, através de fórmulas que sejam pertinentes ao enfrentamento dos desafios no presente.
Juliana de Albuquerque

Estatísticas de futebol, no meu modo de pensar, mais confundem e iludem do que ajudam. Nem sempre quem sai bem na fita (números de escanteios, passes certos, desarmes, passes, assistências, posse de bola) ganha o jogo. Neste blog, os dados são mais sintéticos: quase seis anos, trezentas postagens mal traçadas e nenhum leitor (nem leitora) espontâneo. Intimorato, continuo.

Notório que os três mosqueteiros eram na realidade quatro, e o incorporado por último ao grupo viria a ser o principal deles, o mais destacado, o mais carismático, o mais bem sucedido, uma espécie de vocalista da banda.

O trio de memorialistas sistematicamente homenageados por aqui (Afonso Arinos, Paulo Duarte e Pedro Nava) logra reforço com a escalação de mais um escritor, diferentemente dos três colegas o único a se aventurar na ficção, e que aventura. Com eles se iguala na erudição, na cultura, no louvor às letras. E na beleza das memórias, Falamos do Erico Veríssimo, que pela via da contação  de causos de sua família acaba nos remetendo para dentro do Brasil – sobretudo o Rio Grande do Sul – de boa parte do Século XX.

Sob o signo da sociologia e da antropologia, o gaúcho também memorialista lavrou seus apontamentos no Solo de clarineta, contagiante livro decomposto em dois volumes. No primeiro deles, logo sobressaem o estoicismo de sua mãe, D.Bega, e as peripécias do seu pai, Sebastião, xará aliás de meu avô paterno, Sebastião de Souza, que, nascido em 1887 (cacilda, um ano antes da Abolição da Escravatura), era mais novo que o Sebastião Veríssimo e mais velho que o Erico Veríssimo.

Erico Verissimo

“(…) Ah! Mas eu lia reproches a meu pai nos olhos, na face e principalmente nos fundos suspiros de minha mãe, que não lhe ignorava as infidelidades. Reprovava ela também os excessos de gastos do ‘Sastião’. Não desgostava de todo das festas que davam em casa, mas sabia que o marido se excedia em prodigalidades, extravagâncias e caprichos de homem rico, e isso sem nenhuma base econômica sólida. A farmácia ia mal – entregue ao Miguel Paoli – competente como laboratorista, honrado como homem – mas uma dessas criaturas cuja fraqueza e bondade o impediam de dizer não, de sorte que não existia na cidade quem não tivesse crédito ilimitado na Farmácia Brasileira. As vendas a dinheiro diminuíam dia a dia, e raramente ou nunca os devedores pagavam suas contas.

“Sebastião Veríssimo, feliz e despreocupado, pelo menos aparentemente, continuava na sua boa vida. À noite, recolhia-se tarde, às vezes à hora que os galos cantavam, anunciando a aurora. Acordava ao meio-dia, já interessado e curioso quanto ao que ia comer no almoço. Farejava a cozinha, provava das panelas, confabulava com a cozinheira, escolhia os seus vinhos, (o Médoc era um de seus preferidos), e depois saía à procura de algum amigo para sentá-lo como convidado à sua mesa. Servido o almoço, comia com o alegre apetite de sempre. Findo o repasto ia dormir a sesta, que se prolongava até cerca das quatro da tarde, hora em que o anfitrião se levantava, fazia uma excursão meramente social pela farmácia, conversava com um que outro dos freqüentadores da roda vespertina de chimarrão, e deixava-se ficar por ali, planejando as farras da noite.

“Era um guloso do sexo. Desconfio que nessa matéria começara sendo um gourmet exigente, mas acabara se transformando num gourmand…”

           Na postagem a seguir, mais traços do casal D. Bega/Sebastião, pais do Érico, que a sua vez é pai de um menino hoje com 82 aninhos, chamado… Luiz Fernando Veríssimo.

#Juliana de Albuquerque
# D. Bega
# Sebastião Veríssimo
# Erico Veríssimo
# Solo de Clarineta
# Luiz Fernando Veríssimo

03/08/2019
(300)
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