Memórias/Memorialistas LXI

Erico Veríssimo em rua de Cruz Alta. Depositário: Acervo IMS

Me reporto à postagem anterior. Ali, teve início o relato das peripécias do Sebastião Veríssimo, feita pelo filho escritor, o Érico Veríssimo.

Casa Grande & Senzala na mais pura essência.

“(…) Considerava válido tudo quanto lhe pudesse proporcionar gozo carnal. Nesse terreno não reconhecia nenhum obstáculo de ordem moral ou ética. O desejo lhe dirigia os pensamentos, as palavras e as ações. Em fornicações improvisadas, levava criadinhas para o fundo do quintal ou puxava-as para trás de folhas de porta. E tudo era feito de pé e às pressas. Não lhe bastava uma mulher por dia ou por noite. Precisava de duas ou três. Não seria exagero dizer que sofria duma espécie de priapismo mental.”

E o posicionamento da esposa perante tal quadro de, digamos, poliamor no lar da pequena burguesia gaúcha dos anos 20 do século passado? Antes de responder, frise-se o preconceito do filho com a atividade de costureira (coitado de mim, durante bom tempo também minha mãe se viu envolvida profissionalmente com tecidos, retalhos, dedais, agulhas). O menino sulista que décadas depois conceberia “O Tempo e o Vento”, trilogia formidável subdividida em ‎O Continente, 2 volumes; O Retrato, 2 volumes e ‎O Arquipélago, 3 volumes, não se peja em fustigar a genitora, bem que cerzindo a posteriori seu julgamento ao reconhecer, contrito, a importância econômica das pedaladas (epa).      

“Encurvada sobre sua Singer, minha mãe agora costurava para fora. Eu sentia uma certa vergonha por saber que D. Bega, esposa de Sebastião Veríssimo, membros ambos de tão tradicionais famílias serranas, era uma modista. Cedo, porém, observei que era ela quem, com o produto de seu trabalho, pagava as despesas da casa. O ruído dessa máquina de costura, o cheiro de fazenda e principalmente a figura de minha mãe com uma tesoura na mão, cortando moldes, são imagens, impressões que se me gravaram para sempre na memória, contra um confuso fundo de remorso e culpa.”

Na descrição daquele ateliê, o autor de “Olhai os lírios do campo” (pretendo citar nestes Memórias/Memorialistas dos pampas todos os livros do Erico Veríssimo) aguça nosso olhar de maneira a permitir quebremos a quarta parede figurando diretamente na cena em que

“Umas quatro ou cinco moças ajudavam D. Bega como costureiras. Mais de uma vez vi meu pai segurar a mão de uma delas, na frente da própria esposa e murmurar: ‘A minha simpática!’, procurando dar à sua face e às suas palavras um ar assexuado de pai ou tio. Mas não conseguia me enganar. Estou certo também de que não enganava minha mãe, que nessas ocasiões assumia geralmente uma atitude condescendente, temperada dessa ironia sem rancor dum adulto de boa vontade, ante as travessuras dum adolescente incorrigível.”

            Lancei promessa no último item da “300”, a qual com esta se coliga, porém ainda não foi possível detalhar o ímpeto do Sebastião. Sem credibilidade, posso assegurar que o farei em seguida.

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12/09/2019
(301)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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