Memórias/Memorialistas (XLII)

Memórias/Memorialistas (XLII)

O Pedro Nava narrou acontecimentos da vida real? Apresentou-nos seres que de fato transitaram por este mundo, alguns merecedores do opróbio; outros, caráter sem jaça como se dizia antigamente?

Na ficção, a leitura transmuda quem só existira na mente do escritor em pessoas de “carne e osso”. Nessa obra magistral de seis volumes (lembro que estou no terceiro), ao revés, como que ousaria enxergar, descritos nas suas virtudes e idiossincrasias, indivíduos que nunca teriam vindo propriamente à luz.

Não houve médico, não houve enfermeira, não houve partejamento. Não há memorialista. Em rigor, alguém chamado Pedro Nava urdira, criara personagens. Uma transcendência.

O corte abrupto no final da postagem anterior era menos para gerar expectativa; pretendeu-se estender até onde possível o convívio, o liame com o Luiz Cândido Paranhos de Macedo, o Tifum.

“(…) ele ia à Secretaria para raspar quase todos os zeros das listas de aula. Só deixava os bem merecidos. Quando soubemos disso nossa estima foi crescendo, dando galho, virou ternura, para acabar feito amizade filial no fim dos dois períodos letivos que ele ministrou. Egrégio Tifum… Era ainda de vê-lo quando ele se misturava aos patifes, no recreio, e dobrava, fazia se retorcerem de esforço-dor hércules como o Vituca, o Xico Coelho Lisboa, o  Velho Locques, e o Machacaz – na queda de braço, no arrocho da munheca ou no alicate da luta de torção dedo-médio por dedo-médio do contendor (…).

“O Tifum abria continentes, dava as chaves das terras que a História Universal e a História do Brasil povoariam depois.”

http://br.freepik.com/index.php?goto=74&idfoto=720597

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Mais uma matéria do programa escolar que termina, mais um personagem que vai embora. O professor de Geografia se despede para minha tristeza. Não sem antes deixar marcada, pelas letras do memorialista ou, para ser coerente com o registro acima, pelas artes do escritor, alguém que, houvesse existido, teria ministrado lições de latim. O qual, como se não bastasse, ainda tem parente que é nome de importante rua em São Paulo.

“Mas antes do advento das aulas do João Ribeiro, as vozes do Mundo Antigo ecoariam nos nossos ouvidos pelo verbo do mestre de Latim, o Eduardo Gê Badaró, bacharel em direito, advogado no foro do Rio de Janeiro, professor do Colégio Pedro II desde 1908. Pelo Gê, diziam-no descentemente de Jequitinhonha e pelo Badaró, de Líbero Badaró. (…) muito fino de pernas e dotado duns pés-de-anjo (…) Vestia-se dumas alpacas acinzentadas com que usava invariavelmente um colete transpassado de linho branco. Seus colarinhos e punhos eram esmaltados, suas gravatas suntuosas. Calçava sempre botina de amarrar, pelica amarela ou película preta. Gostava de dar as aulas, os alunos perto, cercando a mesa, ele em pé, um dito sobre a cadeira. Quando se lhe entreabria o paletó, vislumbrava-se na sua cinta a garrucha de que ele não se apartava. Que haveria? na sua vida, eixigindo esse estado de defesa permanente (…).”

Volta a minha renitente inveja dos mais velhos.

Quando entrei no salesiano Dom Bosco em Brasília, em 1965, o colégio havia abandonado, no inicio daqueles anos de 1960, o ensino da disciplina Latim. Que maravilha teria sido aprender com os padres de lá essa língua difícil porém fantástica. Por causa de motivações por assim dizer políticas, a igreja católica já se despedia das missas em latim, posição consolidada tempos depois em virtude da necessidade de combater, entre outros tradicionalistas, Dom Marcel Lefevre, cardeal francês adversário das reformas modernizadoras que o Vaticano cuidava de implantar crescentemente.

Ao som de cantos gregorianos, fecho a vertente postagem tomando emprestado mais este trecho do vol. 3, Chão de ferro, que se liga ao retro transcrito:

“O Badaró começava a tomar a lição e logo, para corrigir nossas silabadas, lia ele próprio e nessa deleitura, de repente se perdia, ia continuando levado pela cadência do idioma e pela medida. Interrompia de vez em quando o período ou o verso para chamar a atenção para o caso – vejam o caso! vejam o caso! vejam a beleza do caso! Nós não entendíamos bolacha mas achávamos linda sua dicção. Ouço ainda o sussurro de sua voz macia e bem timbrada, sua ondulação expressiva, seu alteamento nas vogais sustenidas, seu calcar nas consoantes. Sílaba breve. Sílaba longa. Lá se partia o Badaró, velas soltas, prosa a fora, poema a fora, falando com palavras ora angulosas peperere, ora curvas insontes deinde, ora leves aethere in alto, ora pesadas perferre labores. Aquilo era belo e incompreensível como a linguagem das missas, na infância. Entender pra quê? Quem entende? o vinho e os espíritos e os queijos e as especiarias…”

 

11 de abril de 2016

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mmsmarcos1953@hotmail.com

2016-04-12T02:10:18+00:00 12 de abril de 2016|0 Comments

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