Memórias/Memorialistas (XLIV)   

Memórias/Memorialistas (XLIV)   

O mês de abril está indo embora e com ele o aniversário dos 56 anos de fundação da cidade ligada à estética.

“O modernismo da escola Pampulha-Brasília tem raízes alienígenas, sobretudo as que buscam e a arquitetura alemã posterior à Primeira Grande Guerra. Sem dúvida os mestres brasileiros, como Lúcio Costa ou Niemeyer, introduziram-lhe forte conteúdo original, embora não pròpriamente nacional. Podemos, mesmo, admitir que aquela geração, ou aquêle grupo de arquitetos patrícios, pelos dois nomes consagrados, afirmou um estilo próprio, até certo ponto liberto das origens, ao extrair e desenvolver, dos modelos europeus, novas possibilidades de leveza plástica e aplicação de materiais. Percorrendo o caminho que vai da Pampulha a Brasília sentimos, na transparência dos vidros, na esbelteza solene dos planos verticais (Ministério da Educação, Palácio de Arte Moderna, Palácio do Planalto), a afirmação progressiva de um estilo criado por uma equipe superior. Mas sentimos, também, que êsse estilo era mais dêle, do grupo, do que nosso, do Brasil. Ou seja, era mais a conquista internacional de uma plêiade de arquitetos brasileiros, do que a interpretação atual, feita por ela, dos valôres nacionais.”

Feitas pelo Afonso Arinos no longínquo Natal de 1965, essas observações nos remetem à ideia de uma Brasília de forma estrangeirada mas paradoxalmente genuína. Saímos convencidos de que a dupla infernalmente sedutora se valeu das fontes externas, num patente decalcar que entretanto não nos deixou recalcados. Até pelo contrário.

Portanto, pelo que se lê em Planalto – obra que, em aditamento à postagem anterior, principiamos a explorar –, os dois arquitetos formidáveis  como que repisaram o manifesto antropofágico.

Fala o memorialista de nosso banzo ao reportar as feições da moradia presidencial, um templo a demarcar a neo arquitetura, revisitada por nós agora, transcorridos mais de cinquenta anos.

“A partir do Palácio da Alvorada, criação gentil de Niemeyer, revelação e reencontro, surprêsa e costume, provocação de sonho e saudade da casa-grande, ardendo em tons verdes como esmeraldas noturnas, começou a fusão das formas tradicionais brasileiras – que correspondem também ao sentido da nossa evolução – com as possibilidades expressionistas da nova arquitetura.”

http://www.brasil.gov.br/governo/2010/03/copy_of_palacio-da-alvorada/ArPDF_As_Iaras_Palacio_da_Alvorada_Brasilia_DF_23_6_09_Foto_Luiz_Neto--15-_AMPLIADA.jpg

http://www.brasil.gov.br/governo/2010/03/copy_of_palacio-da-alvorada/ArPDF_As_Iaras_Palacio_da_Alvorada_Brasilia_DF_23_6_09_Foto_Luiz_Neto–15-_AMPLIADA.jpg

Há a macroeconomia e a microeconomia; eu me permito dizer que existem também a macroarquitetura e a microarquitetura. Na travessia do geral para o particular, o escritor das Minas Gerais fecha seus comentários atacando a macaquice das imitações e ressaltando, em linguagem poética, o papel do vidro na composição arquitetônica do lar ideal da classe média.

“No plano modesto das habitações familiares de custo médio, a casa que Niemeyer fêz para si mesmo, em Brasília, e esta que Sérgio Pôrto planejou para mim, nas encostas da Vestfália, representam bem o que acabo de sugerir.

“Para começar, o jeitão luso-brasileiro delas não tem nada a ver com a mistificação do chamado ‘estilo colonial’, que foi a horrenda moda de há alguns lustros, moda que se revelava principalmente nos pormenores postiços, nos falsos muxarabiês, nas telas arrebitadas à chinesa, nas janelas-postigos, nos nichos, colunatas e outras moedas falsas do gôsto. O jeitão a que me refiro provém de outras afinidades, mais das massas que dos pormenores, mais sentidas que vistas. Um ambiente em que se equilibram as entradas de luz e proteções de sombra; uma cadência fluente e límpida das formas e espaços, com a restituição do vidro às suas funções, e a chamada das paredes opacas para ocupar as que lhes cabem, de maneira a gerar familiaridade recatada e hospitalidade desimpedida, mas não promiscuidade exibida; uma lembrança leve, terna, mas não chorosa, do que foi a vida da família brasileira, dentro das imposições e necessidades do que é hoje.”

 

26 de abril de 2016

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mmsmarcos1953@hotmail.com

2016-04-26T11:27:55+00:00 26 de abril de 2016|0 Comments

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