Memórias/Memorialistas (XLIX)

Dad Squarisi, jornalista das mais competentes do Correio Braziliense e cultora da Língua Portuguesa, desaba quando ouve ou lê “encarar de frente”. O pleonasmo, usado à exaustão por muita gente boa dita das letras, a incomoda porquanto seria um despropósito encarar de costas. E não adianta se socorrer do “tête-à-tête”, que, de acordo com ensinamentos póstumos de minha avó Ninita, estudante do Colégio Sion àquela época, primórdios do século XX, a expressão tem significado de conversa a dois, não necessariamente um (eu) na presença do outro (você, incauto, que ora padece com a leitura deste blog).
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Colégio Dom Pedro II – RJ

Tal como minha ancestral do ramo paterno, o Pedro Nava falava o francês como se nascido na terra desse menino Mácron, o presidente afinadíssimo com pessoas mais experientes e vividas. Mas esta postagem, que dá sequência e estica o assunto abordado na XLVIII, enaltece os dotes do memorialista na língua inglesa crescendo para cima do professor Pissilão. Notem que o Nava, o clínico versado também na Medicina Legal, “encara” o seu mestre pelos lados e sobretudo por trás.

“(…) Visto de julavento e barlavento ele era um velho curvo e incaracterístico. Já de popa era coisa inesquecível. A cabeça aparecia como a de um cogumelo sobre os ombros possantes e arqueados. Por trás, os cabelos eram completamente brancos pois a pintura deslavada que havia sido feita pelo dono, só pegava em cima, dos lados, onde ele enxergava. Não havia pescoço. Um fraque escuro, tête-de-nègre, cujas abas quase arrastavam no chão. Dos lados deste, como patas de guaiamu, saíam braços e pernas – estas tão arqueadas para fora que pareciam ir quebrar ao prosseguimento de sua marcha. Seus passos, dificultados por esses joelhos varos e mais pelos joanetes, deviam fazê-lo sofrer a cada movimento da marcha que lembrava a de uma velha senhora e a do peru saltitando sobre chapa aquecida. Lá ia ele pelos corredores, lá vinha ele para o refeitório dos professores e para as aulas. Parecia uma bruxa de Goya, um Daumier dos mais duros, ou o evadido duma masquerade de William Hogarth.”

O açoite não cessava por aí.

“(…)Devíamos ter pena, entretanto não o poupávamos. Nem ele a nós. Suas notas iam do 0 (frequente) ao 6 (raríssimo). Acima disto nunca marcara valores mais altos em toda sua vida de professor. Nos exames reprovava sessenta; simplicava 39; dava plenamente seis no restante de cada lote de cem. Caberia a mim romper esse tabu.”

E já perto do arremate, o punhal de prata (ou, mais adequadamente, o bisturi) que o herói iniciado na língua inglesa manejara para, encarando a lousa, o quadro negro, erodir a vaidade intelectual do mestre.

“(…) Chamou-me à pedra. Eu pedi dispensa, que a aula, Professor, está quase no fim. Não tem importância, não, nhonhô, faltam dez minutos e temos tempo de sobra para uma versãozinha. Vamos a ela, tomando como ponto de partida a sua alegação. Escreva na pedra: a aula está quase no fim mas meu mestre ainda tem tempo de me dar o duplo zero que é a ordem de minha privação sábado próximo. Aquilo era o cúmulo da má fé. Início de aulas e jamais ele tinha ensinado a passar uma só palavra, a menor sentença para o Inglês. Inda mais de improviso! Era mesmo para me achatar. Sob seu olhar maldoso peguei o giz. Rindo, o Pissilão encostou-se na cátedra para gozar melhor. Escrevi. The lesson is nearly over (olhei, vi  o suspense dos colegas e o homem começando a recolher o riso) but my master has still time (tornei a olhar e bati nuns bogalhos arregalados e numa bocaberta de estupor) to give me the double O that will be a writ to arrest me next Saturday (remirei e para completar o pasmo do homem, para puxar-lhe bem o saco, voltei à pedra, apaguei o M minúsculo e substituí-o por um maiúsculo na palavra Master). Tiniram as campainhas, a aula terminara, mas o Pissilão, subjugado, bateu com a mão na mesa, restabeleceu o silêncio, pediu-me explicações daquele inglês, sobretudo daquele writ to arrest que o empolgara. Modesto, mandou-me restabelecer a minúscula de máster, anulou meu zero em comportamento e pela primeira vez na vida deu um grau dez em lição de aluno. Fiquei logo favorito e abusei disso fazendo do mestre o que queria e o que queriam os colegas. O homem ficou benevolente. Adiava sabatinas. Passou a dar sete e oito. Repetiu o meu dez, deu-o a outros. Quando eu me chegava para interceder ou para postular ele ria (o Pissilão rindo) e me chamava de advogado de porta de xadrez.”

Epílogo: a conciliação, o amor e a saudade do velhote supliciado.

“(…)Uma corrente de simpatia estabeleceu-se entre ele e os nhonhôs e minha turma, deu calor de afeição àquele coração de velho até que ele parou – isto já no fim do nosso quarto ano, creio que em outubro de 1919…”

#Pedro Nava  #Chão de ferro  #Colégio Pedro II  #Bullying  #Professor Pissilão

03/06/2017

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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