Memórias/Memorialistas (XLV)

Prossegue nossa caminhada tendo como guia o Afonso Arinos de Melo Franco.

Em lugar das veredas – que não deixam de se estender pelas terras da mineira Paracatu de onde se originou o memorialista -, iremos percorrer outras trilhas, a partir do bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.

“Os ruídos dos fogos festivos que há pouco comemoravam êste símbolo de esperanças foram se espaçando e, agora, cessaram. Na minha rua tranquila são raros os passantes. (…). Ao têrmo de um dia chuvoso, no tempo encoberto, diviso o Cristo no seu altar de pedra. O Corcovado confunde-se na incerta bruma, funde-se no céu. Estou sòzinho, no pequeno escritório anexo ao meu quarto.”

http://imguol.com/2012/05/04/04mai2012---cristo-redentor-amanhece-entre-nuvens-nesta-manha-no-rio-de-janeiro-a-previsao-do-tempo-de-hoje-e-de-sol-com-muitas-nuvens-durante-o-dia-no-rio-com-periodos-nublados-e-chuva-a-qualquer-hora-1336137632344_1024x768.jpg
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Tratava-se das entradas no ano de 1966, que não eram antecedidas pela imponente árvore natalina que um grande banco comercial periodicamente planta nas águas da Lagoa Rodrigo de Freitas há mais de década, mas já tinham contemporaneidade com as oferendas que os fiéis e devotos lançavam (e lançam) nas praias cariocas à busca de um futuro mais venturoso.

Contingenciado por esta postagem, pincei e pinçarei trechos iniciais do terceiro livro das memórias do Afonso Arinos, “Planalto”, exatamente para ceder espaços ao amor incondicional de um marido por sua companheira desde sempre.

“Anah dorme no dela, em frente. Há pouco estive à sua porta, para verificar que ela apagara a luz e repousava.”

Esquecer o Rubem Fonseca, de quem já roubei passagens de seus livros e as transportei para cá. Não levar em consideração que um de seus marcantes personagens (existe algum que não o seja?) como que impunha limites éticos e morais ao voyeurismo: jamais se deve olhar para uma mulher enquanto ela estiver dormindo.

A heresia é perdoada e cabe demonstrar o motivo.

“Pedi a Deus que a guardasse para mim, que a não mereço. Pedi a Deus que lhe impusesse a última dedicação por mim, o último sacrifício em meu favor: que ela morresse depois de mim. Isto que a ela digo amiúde, como um brinco, é, muito a sério, o bem supremo que espero merecer de Deus: tê-la ao meu lado quando eu morrer.”

Dignos de nossa repulsa aqueles tempos de machismo (pensei no adjetivo “exacerbado”, o que seria um despropósito, pois não há gradação, machismo é machismo de qualquer jeito e deve ser repelido). Em contrapartida, enalteçamos o romantismo, tão típico do final dos anos 1950/1960 e artigo raro em nossos dias.

“Ela é mais forte, mais dedicada, mais capaz de encontrar na vida a razão de viver, e não, como eu, condicioná-la a certos valôres da vida, mais capaz, por isto mesmo, de sofrer a minha ausência, do que eu a dela. A certeza de que ela está a poucos metros de mim povoa esta transitória solidão; enche-me de fôrça e destemor. A idéia de que eu poderia me encontrar sòzinho, para sempre, nestas salas, entre êstes livros, diante destas coisas humildes que nos acompanham há tantos anos, é mais do que insuportável: é inconjeturável para mim.”

Insta ressaltar que tal declaração de amor é dada por um sexagenário a uma esposa que era sua companheira desde quando os dois eram jovens. E o marido apaixonado não se contentara ainda com a entrega e o vigor de suas palavras. Achou por bem se alongar, acabando por moer nossa resistência emocional em face de paixão tão assumida e deliberada:

“Os poetas, os filósofos pensam na morte, na própria morte, e sôbre este tema pessoal muitos dêles, como Montaigne, têm criado as suas melhores páginas. Eu, à medida que envelheço, penso também na morte, mas não na minha. Sim, não na minha, porque a morte dela seria a minha morte em vida. E a morte em vida é pior que a morte.

“Morrer é uma forma de abandono. Ela, enquanto puder, não me abandonará.”

 

29 de maio de 2016

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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