Memórias/Memorialistas (XXIX)

Vim a São Paulo no início desse último setembro e retornei a Brasília nove dias depois. Para lá novamente tive de voltar, no dia 24 do mesmo mês e onde estive até 13 de outubro. Por isso, dentro do tópico “Memórias”, me sentiria movido ao convite a Paulo Duarte para continuar nos brindando com as virtudes e os desvarios da Pauliceia. Todavia, desde que retomei a releitura de uns trechos do segundo volume das lembranças do Afonso Arinos de Melo Franco, fiquei sugestionado a adiar um pouco a rentrée  do nosso historiador ligado à USP dos idos de sua fundação.

Ali, no livro A Escalada, revelam-se novos degraus da profícua subida do chanceler mineiro na política, um apaixonado pelo Rio de Janeiro, seu pouso quando retornava das viagens inúmeras  pelo mundo e em decorrência das quais tombava exaurido. Era um homem nessa ocasião de balanço da vida prestes a se tornar sexagenário, mais novo do que eu portanto, noves fora a circunstância de o livro haver sido escrito por volta de 1965.

“(…) Os meus 57 anos, ontem cumpridos, já tornam, além disso, um pouco penosas essas viagens seguidas. Não raras vêzes fico a lembrar com uma espécie de sentimento de culpa a casa acolhedora da Rua Mariana (no bairro de Botafogo; este blogueiro já foi lá mas só na varanda), as peças amplas e tranquilas, meus velhos móveis brasileiros, meus quadros, retratos e imagens de santos, meus livros, amigos fiéis e silenciosos, os sabiás nas árvores, o Pão de Açúcar, que vejo ao fundo, o Corcovado, que diviso à frente, marcando com suas fortes presenças aquêle arco azul do céu carioca.”

Impossível encerrarmos o assunto sem apontar uma curiosidade sociológica, digamos assim. O fenônemo da ascensão da classe “C” (vamos fingir que não há crise econômica neste 2015), que passou a andar de avião, trouxe de cambulhada notório desconforto à turma do andar de cima. Aliás, esclareça-se que, para usar a feliz expressão do jornalista Elio Gaspari, nossa figuração se dá no jato 747, aquele monstrengo com duas fileiras de janelinhas (numa delas, as de cima da aeronave, eu vislumbrei um rosto muito parecido com o do senador Romário).

“Stendhal, que criou a palavra turista (Mémoires d’un Touriste) não previa, por certo, a expansão social do tipo humano que êle designava com o seu neologismo. De resto, o turista de hoje nada tem a ver com aquêle que foi Stendhal, viajante de posses modestas, mas de luxuoso gôsto e requintada percepção(…).”

Ao refinado escritor francês repugnava a participação do que denominaríamos classe então desfavorecida invadindo aviões e navios. Não destoava do preconceito o nosso parlamentar, integrante de família da elite, falando com restrições dessa turma que tentava aflorar naqueles dias da década de 1960. Existem diferenças entre o que acontece nesta nossa época e o que acontecia há cinquenta anos atrás?

“O turista de hoje faria horror a Stendhal, pois é a classe média do espírito. Devo reconhecer, aqui, que a mim também me enjoa. Mesmo quando faço viagens mais econômicas, não sou capaz das excursões em grupo. As duas vêzes que tentei isso, uma na Bélgica, para visitar os campos de batalha da Primeira Guerra, e outra na Espanha, para percorrer Granada, senti-me profundamente infeliz com a burrice palavrosa dos guias e a trivialidade dinâmica dos meus companheiros de excursão, pessoas que olhavam tudo sem nada ver. Começa que para se ver muito precisa-se olhar pouco.”

E a navalhada final nos emergentes de então:

“A expansão do turismo corresponde também à substituição, na vida, do misterioso pelo pitoresco.”

http://litoralsign.com.br/adesivos-de-aviao/adesivo-aviao-de-frente.html#
http://litoralsign.com.br/adesivos-de-aviao/adesivo-aviao-de-frente.html#

 

Marcos Martins

(154)

mmsmarcos1953@hotmail.com

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