Memórias/Memorialistas (XXVII)

Quando vi que o Pedro Nava fazia gestos de chamamento, deliberei voltar pela mesma ponte, após me despedir do Afonso Arinos. Havia nova troca de pessoas mas nada permitia intuir que a situação mudara. Embora o deputado, senador, chanceler aludisse ao sociólogo de Pernambuco, tudo a rigor recendia, na linguagem alinhavada pelos dois exímios contadores de histórias, aos paladares, cheiros e sabores das Minas Gerais. Efetivamente, ao me encontrar com o que era médico, ouvi a propósito narrativa ainda centrada nos anos iniciais do século passado.

“(…) A cozinha do 179 era negra e encardida como convinha a uma boa cozinha de Minas. Tinha um teto alto e incerto, de cujos barrotes algodoados de picumã desciam, em cima do fogão, as serpentes mosqueadas e lustrosas das linguiças em carne viva; as mantas de peles de porco escorrendo gordura; e as espirais das cascas de laranja que ali ficavam defumando e secando. As cascas de laranjas serviam para ajudar a acender o fogo, pela manhã. Primeiro elas, palhas de milho e jornal velho. Depois gravetos frescos, sabugos, tranças de cebola. Logo as achas miúdas e por fim, as toras de lenha de que o fogo se levantava vermelho e impetuoso como o pescoço dum galo cantando de madrugada. Essa chama, para ser alta ou baixa, abundante ou diminuta, para cozinhar depressa ou mijotar devagarinho, era feita à custa de diferentes paus. Lenha de goiaba, de pé de pêssego, de candeia, de jaqueira, de pinho, de mangueira, de árvore do mato. Seca ou verde – se queria labareda violenta e súbita para as omeletes e as fritadas ou lume mais cativo e concentrado para os molhos pardos e os cozidos…”

Cabe uma interrupção. Me detive na história capturado (em parte) pela nem tão nova mania, espalhada por todos os cantos, de aulas de gastronomia, chefs pontificando em páginas e mais páginas de revistas e jornais e em inúmeros programas de tv, aberta ou fechada. Minha neta mais velha, Aline, com seus 19 anos incompletos, se enfileira há décadas e décadas nesse pelotão de admiradores e admiradoras da culinária. Em contrapartida, na qualidade de rebelde com causa, este pobre escriba apela ao modus faciendi do Millôr Fernandes. Na leitura diária dos artigos do (infelizmente extinto) Jornal do Brasil, o genial nativo do bairro carioca do Méier ia pulando um padre aqui, outro ali, que recheiavam o espaço nobre do JB com doutrinações ortodoxas e conservadoras não só a respeito de religião, enquanto que eu passo batido naquelas páginas com fotos as mais sedutoras dos pratos nos quais prepondera a decoração, encobrindo-se a comida, de ordinário em porções mínimas.

Porém, esse meu radicalismo não se sustenta. Sou também da cozinha, e assim me exprimo com muito temor pois observação dessa natureza já gerou muita confusão quando um renomado sociólogo carioca/paulista, talvez sem pretender discriminação, declarou possuir um pé lá dentro do aposento ao lado da copa. Abstraio os luxuosos e caríssimos utensílios de hoje – notadamente as panelas – e, na esteira das apetitosas memórias do Nava, me agarro à ambiência.

“Graduava-se ainda, o calor, abrindo ou fechando a manivela da tiragem da chaminé que subia como um grosso cilindro caliginoso para as negruras dos cúmulos-nimbos do picumã – bom para segurar sangria de corte. Ao seu lado e mais finos, os canos das serpentinas que esquentavam a água da caixa para o chuveiro e as torneiras da banheira de latão. O fogão, como ser vivo, tinha um cheiro diferente em cada parte. O fuliginoso e duro das trempes, cujos buracos redondos se abriam primeiro, pequenos, com a retirada do tucho e depois, maiores, com  a de um anel de ferro que lembrava os de Saturno. O resinoso e tremulante das lenhas variáveis, queimando na fornalha. O calcário e morno do borralho, onde brasas cintilavam e morriam sobre a cinza. O nauseante e gorduroso da caldeira cheia de água choca. Dominando todos esses, o olor peculiar da comida-nossa-de-cada-dia. Do arroz, nadando em banha de porco…”

Rendo minhas homenagens à torcida do Palmeiras, a qual, soube muitos anos depois, é irmã da torcida do meu Vascão, e transfiro para a próxima postagem os comentários antropológicos sobre o porco (e mais uma porção de itens alimentícios) feitos por nosso maior memorialista.

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29 de setembro de 2015

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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