Memórias/Memorialistas (XXVIII)

Se somarmos todos os volumes das memórias de Afonso Arinos de Melo Franco, de Paulo Duarte e de Pedro  Nava (os dois solos do Érico Veríssimo estão na fila aguardando meu ataque), chegaremos a número perto de 20. Considerando uma média de 300 páginas por cada (o cacófato é proposital) tomo, vamos atingir o total de cerca de 6.000 páginas dessa pequena e importantíssima biblioteca.

O que custa emprestar a este blog  umas poucas dezenas de passagens dessas obras primas?

Animado por essa salada de números, reenceto minha visita à cozinha de familiares do Nava.

“(…) Do feijão, cheio de lombo de porco, de orelha de porco, de pistola de porco, de rabo de porco, de pé de porco. Do tutu, com carne de porco. Do angu vazado no meio da massa dourada e pegando fogo para receber, nesse côncavo, o picadinho de miúdo de porco. Das farofas cheias de rodelas de ovo e de toucinho de porco. O porco. O porco iniciático dos congoleses e sacrificial dos egípcios – grato à lua e à Osiris. O porco sacrílego e imundo em cujas varas Nosso Senhor fez entrar um bando de demônios. “O mineiro planta o milho. O mineiro cria o porco. O porco come o milho. O mineiro come o porco.” O porco também fossa e come a merda do mineiro que cai das latrinas das fazendas – especadas sobre os chiqueiros. Espírito de porco, círculo vicioso, meio antropofágico… Porco nosso, imenso e totêmico… Cozido, frito, assado, recheado… Almoçado, jantado, ceado, comungado, incorporado, consubstanciado.”

Somos fracos, nos dobramos às dobradinhas do memorialista juizforano, que assim como quem não quer nada vai deitando lições de antropologia.

O que  bem caracteriza as cozinhas são os cheiros. O que bem caracteriza a mineirada, os meus ancestrais pelo lado paterno, é a cachaça, é o café fraco e enxaropado; a cariocada, nunca em detrimento da cerveja, se ajoelha diante duma batida de limão, mas o café, o café tem que ser forte e não muito doce.

“Outros cheiros. O acídulo do molho pardo dos judeus noturnos. Não sabem? Judeu em culinária mineira é, em geral, nome da bóia de ceia e mais particularmente da cabidela da galinha para depois das procissões e para depois das coroações da  Nossa Senhora, nas noites de seu mês de maio. O cheiro das paçocas. Farinha torrada socada com carne-seca frita num banho de banha. Depois de tudo bem batido no pilão, uma passada na frigideira, para tornar a esquentar na chama viva. Boas de comer antecedidas de uma lambada de pinga e acompanhadas do café aguado e quente que acabou de ser pulverizado no outro lado do pilão.”

http://albumclaudia.blogspot.com.br/2011/04/
http://albumclaudia.blogspot.com.br/2011/04/

Perseveremos nos cheiros, nas carnes, nos legumes e verduras a decorar a área tomada pelos sabores e pela fumaça.

“Cheiro de abóbora, inhame, abobrinha, cará, quiabo e de cove cortada fino (…) ou de couve só rasgada (…) e estão aí os cheiros todos da cozinha da Inhá Luísa. Seus ruídos: o dito da mão de pilão, o sussurro das panelas, o ronrom dos caldeirões de ferro, o chiado dos tachos de cobre, a batida de uma pedra redonda – biface paleolítico – amaciando os bifes sobre a tábua de cabiúna e a cantiga das negras.”

Súbito, o historiador Nava francamente entrega a avó e nos desperta para a época da escravidão ainda não terminada, na qual aos patrões não se impunham limites. O labor era pesado. Procuradoria do trabalho era ficção. Não faziam parte da cena instrumentos de defesa dos direitos trabalhistas, formando um quadro distante, muito distante dos nossos dias de FGTS obrigatório em favor de quem formalmente exerce afazeres domésticos nos lares da classe média brasileira.

Em visão retrospectiva, nem os belos cantos entoados seriam capazes de atenuar a exploração patronal. Ao contrário.

“Porque minha avó exigia que elas trabalhassem cantando – o que era maneira de fiscalizá-las pela inflexão da música, de impedir conjuração de preto e de juntar esse útil ao agradável das vozes solfejando. Ora era uma modinha inteira que vinha da memória e da garganta de ouro da Rosa, fazendo desferir em trenos, palavras mais lindas, meu Deus! Como batel, virginal, quimera, vergel, albente, alaúde, bardo, debalde, eviterna, brisa, langor. Era, por exemplo, o Gondoleiro do Amor, eram os olhos negros, negros como as noites sem luar, quando a praia beija a vaga, quando a vaga beija o vento. Outras cavatinas, aos pedaços, cantadas por uma, por outra, batendo roupa, ralando coco, picando lenha. O metro também vinha aos pedaços.”

 

04 de outubro de 2015

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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