Memórias/Memorialistas (XXXIII)

Prossigo minha travessia indo de um mineiro ao outro. A vez agora é do Afonso Arinos de Melo Franco, a quem apelei se juntasse de novo a mim para dar uma pala sobre a infância, com isso ajudando a elastecer o Dia das Crianças.

Não serão entoadas cantigas de roda.

“(…) Interrompendo a leitura fiquei absorto em mim mesmo. Comigo também, às vêzes, quando marcho distraído, essa mesma sensação do mundo ausente põe-se a meu lado, sombra amável, presença leve que se esgueira felinamente e começa a caminhar junto a mim. Sigo, então, numa espécie de diálogo mudo com o abusivo fantasma de um tempo morto; sigo conversando, recordando, caminhando na companhia invisível de um outro eu que já não existe, que não mais poderia existir. Às vezes, tenho tentado restaurar, diante dos mesmos cenários, as sensações de antigamente. Mas, da realidade de outrora, só capto sombras. Desde logo é-me impossível, hoje, participar plenamente do mundo que me cerca, e esta participação é talvez a marca mais forte da infância.”

Tratava-se de uma das novelas policiais de George Simenon, protagonizada pelo comissário Maigret, o célebre personagem que na história, consoante as palavras do memorialista, “sentiu de repente um cheiro que o levou para a infância”. Na sua regressão, o embaixador mineiro quebra a fantasia do universo infantil idealizada pelos adultos, o que seria frustrante. Não, não é isso. Ocorre uma transmutação, paradoxalmente mágica, sublime, que se opera no momento exato no qual a criança ingressa na atmosfera terrestre e se defronta com o real.

“Diz-se muito que a criança cria um mundo irreal, no qual se integra, e que daí vem a magia das recordações daquele reino encantado, no espírito do adulto.

“A mim parece-me que, pelo contrário, a riqueza da experiência infantil está no frescor da descoberta do real e da plena integração no seu seio. Ao aprender diretamente a realidade que o cerca, o menino frui em todo seu viço e pureza, não existindo, para êle, nem o embotamento fatigado da experiência, que nos oferece em ramalhetes artificiais as flôres da vida, nem os males do julgamento e da interpretação, que são os espelhos deformantes com que a inteligência reflete o mundo.

“A minha incapacidade de recriar o mundo da infância decorre precisamente do fato de a realidade que me cerca não mais se apresentar nua, senão que abafada pelos resíduos que a experiência vital acumulou no meu coração e na minha mente. O fato é que o esfôrço que despendo no ensaio de recuperação do passado cria um tipo de emoção inteiramente diverso daquela que era minha, quando vivia o tempo que passou, e que procuro reviver.”

O tempo esculpe ruínas. Essa frase, cuja autoria parece desconhecida, tem sido muito usada, inclusive na seara da política de nosso tempo, carimbada por mediocridades e ambições desmesuradas.

Afonso Arinos não come as madeleines mas, ainda assim proustiano, mergulha num período para ele remotíssimo, o da infância, a fase dos encantos, e com alguma melancolia ressalta as vicissitudes por que passam os idosos, condenados a existência degenerativa e sem fulgor nenhum.

“Além disso, a maneira de viver o tempo atual, se adquiriu outra dimensão racional, perdeu proporcionalmente em intensidade, em colorido, em calor. O esfôrço consciente que empreendo visa exatamente readquirir essa capacidade de viver com intensidade o momento presente; limitação que seria também libertação e profundidade. Esfôrço sempre repetido, mas sempre frustrado.

“(…) Resigno-me ao declínio das emoções como à diminuição da vista ou da agilidade corporal. O consôlo está em reviver nos jovens, nas crianças. Talvez por isso eu ame tanto as crianças. Surpreendo nos seus olhos deslumbrados a percepção das côres que a minha vista já não distingue no mundo. “

http://www.fotolog.com/pictogramas/7645129/
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26 de outubro de 2015

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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