Memórias/Memorialistas

Recebi um estímulo da crônica escrita pela Clara Arreguy na última Vejinha/Cerrado, uma boa ideia de “regionalização” (da Vejona, saudades de quando era menos partidária). Nela, a jornalista registrou sua “Paixão pelos livros”.

Numa primeira mirada, poderíamos criticá-la por expor vaidades, embora o Livro de Eclesiastes (obrigado, amigo Cunha) nos diga sabiamente que “tudo é vaidade”, inclusive este blog
no qual me encaixei, sem nenhuma cerimônia, vaidosamente.

Vamos e venhamos, numa era em que alguns e algumas se gabam
(a nossa linguagem nos trai, revela nossa idade) de ter carros, lanchas, fazendas, joiás, roupas caríssimas, por que não o regozijo com os livros?

No meu caso (será que isso interessa a alguém?), destacam-se da minha razoável lista os livros de memória. Seguramente, é coisa para mais
de cem, de autoria tanto de escritores quanto de escritoras. O Pedro Nava vai merecer comentários à parte, em postagem mais lá para frente – se porventura essas anotações ainda tiverem resistido à saraivada
dos meus poucos e raivosos leitores e leitoras.

Queria me referir ao Paulo Duarte, cujas memórias, se não me engano, foram dispostas em oito livros, dois a mais dos que eu li desse grande escritor (não dá para escrever todo o currículo do homem neste modesto espaço) de São Paulo, um mestre da cena cultural brasileira durante
boa parte do século passado.

Para quem não dá fé a tais palavras, limito-me a dizer que suas memórias foram apresentadas por Érico Veríssimo, o que solou
a clarineta poeticamente em dois tomos e agora novamente em voga com O Tempo e o Vento  na telona. Trago a lume quem hoje é mais conhecido pela meninada como o pai do Luiz Fernando Veríssimo
e que assim discorrera sobre o colega paulista
em episódio dos anos 1950:

“(…) Não tenho muita paciência com conferências, nem mesmo
– ou especialmente – quando o conferecista sou eu. Paulo Duarte começou a falar, sentado a uma mesa, sobre pequeno estrado.
A voz era branda, clara, agradável, os gestos naturais,
o ar despretensioso. Dirigia-se  a um auditório numeroso
e eclético como se estivesse a conversar naturalmente com meia dúzia de amigos íntimos ao redor duma mesa de café.
Sua linguagem era clara, precisa mas nunca preciosa.
Não se comprazia com essas tecnicalidades que em geral transformam certas disciplinas universitárias
numa espécie de seita secreta acessível apenas aos iniciados.
Por outro lado, sua preocupação com divulgar conhecimentos sobre arqueologia e etnologia jamais o levava à vulgaridade. Surpreendi-me tão interessado na conferência como se estivesse ouvindo a leitura duma novela policial. E, se pensarmos bem,
não será o trabalho do investigador da pré-história um pouco como o do detetive, isto é, dum Sherlock Holmes que com cacos de objetos domésticos de cerâmica, pedras lascadas ou polidas, armas e esqueletos humanos, consegue reconstituir a vida
e até os hábitos de civilizações há milênios?

“O auditorio escutava Paulo Duarte em tamanho silêncio,
que ele nem sequer precisava alterar a voz. Senti o interesse
dos ouvintes dum modo quase físico, como algo que pudesse
ser medido, pesado e apalpado. E aquela dissertação tão rica
de ensinamentos e ao mesmo tempo tão amena durou
uns sessenta minutos, segundo os relógios mas apenas
uns quinze ou vinte medidos pela minha mente,
sim, e pelo meu corpo.”

Viram que estou falando de um intelectual palestrante que, não bastasse empolgar os alunos espectadores (muitos deles provavelmente futuros cientistas renomados), ainda contava na plateia com um tiete chamado Érico Veríssimo. Sem hesitações, isso merecerá mais comentários
e referências.

 

28 de setembro de 2013

(009)

mmsmarcos1953@hotmail.com

 

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